A conta do tempo

A contagem do tempo tornou-se numa necessidade fundamental para a espécie humana. Mas a conta do tempo deu lugar a trocadilhos poetizados, que assumem uma ideia principal – a de que é preciso dar tempo ao tempo.

Contar o tempo

Numa ocasião, o dono de uma botica pediu a um boémio que regularizasse a sua conta no estabelecimento e advertiu-o de que não lhe daria mais tempo para o fazer. Este, olhando-o nos olhos, respondeu-lhe declamando um soneto:

O tempo, de si mesmo pede conta
Porque chega da conta o breve tempo.
Mas quem gastou sem conta tanto tempo,
Como dará, sem tempo, tanta conta?

Não quer levar o tempo tempo em conta,
Pois conta se não faz de dar-se a tempo,
Quando só para a conta houvera tempo
Se na conta do tempo houvesse conta.

Que conta pode quem não tem tempo?
Em que tempo a dará quem não tem conta?
Que a quem a conta falta, falta tempo.

Agora sem ter tempo e sem ter conta
Sabendo que hei-de dar conta do tempo
Vejo chegar o tempo de dar conta.

Sobre a conta do tempo existe também este trava-línguas popular:
O Tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o Tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo, tempo tem.

Mas a «Conta e Tempo» tornou-se célebre no poema de Frei António das Chagas (in ‘Antologia Poética’), que canta o tempo com outra subtileza:

Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo…

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(por Paulo Leitão Batista)

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