Galramentos entre Códrazenhos (10)

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Galramentos entre códrazenhos – Franklim Costa Braga publica neste espaço dedicado à sua terra natal várias conversas de quadrazenhos em Gíria, com a tradução para Português corrente.

Quadrazenhos

10- Lembranças do alento interno atrás da França

– Balele, o Menelzé lá se maquinou aquêsta choina p’à França.
– Poi é, Balhé, é mai uno. Daqui a lúzios sunhirá a vez de moienes.
– Atão, tamém te q’runhes maquinar?
– Qu’havunhe d’ a genterna fazunhir? Quem cunsegumpe alentar aqui? Acaba a genterna o corperno c’um trabuco pa cunsegumpir una côdea. Aquisto nentes é alento.
– Tunhes certo. Nentes sabunho que fazunhir. O mai certo é pôr os calcantes a andante. Nem sabunhe a genterna o que fazunhir.
– O Zeca, que se maquinou havunhe unos trenos trintanários, já mandarsiu unos francos à méria. Pareçunhe que trabuca muto mas ganhurse baril gadé.
– O Jaquim tamém já mandarsiu baril galhal ó pério e já le pedumpiu pa procrer um baril terrunho pa marcar.
– Poi é, agora é a vez de soienes de imitarsir os abondantes. Tunhir terrunhos é boato d’ abondância cá na reta.
– Indê baro, é unê maneirê de se vandunhirem algunos terrunhos a baril câmbio e juntarsir petesgos terrunhos pa formarsir um terrunho jeitoso, onde se possa trabuquir c’um tractor, sem tunhir de’user a cavadora e acabarsir o corperno cum monte trabuco.
– Toi vais a adicar que mutos qu’inconstante tunhiram nejo vão sunhir os abondantes cá da reta.
– O galhal tútio fai. Mas é p’ciso mutas rodas de trabuco pa consegumpirem chegarsir ó senhor Nacleto ó mesmerno a algunos ambulantes e parrondas do contrabando.
– Mas vai havunhir muta genterna cum gírios coimes que no penharão atrás dos coimes do senhor Nacleto e daquêssa atra genterna.
– Códrazais indê vai tunhir muto ganhal. O futuro galrará o que vai aconteçunhir.
– Internamente indê havunhe mutê genterna cum ambre e que no tunhe unê côdea pa suquir.
– Pôco a pôco vão acabarsindo aquesses dramas. Já acais tótios tunhem uno gilfo, uno onclerno ó uno primerno que vai ajudarsindo a famíliê cum alguno gadé.
– Indê vão demorar rodas pa escoar tótios que q’runhem maquinar-se.
– O problemerno é que nem tótios tunhem o galhal necessário pa pagarsir ós passadores, que cobram alongado.
– Algunos já vandunhiram os terrunhos pa podunhirem maquinar-se. Atros tunhem jeca de penhar sim nejo pa sobrealentar. Quem les garante que nentes os prandunhem no andante e os recambiam p’a Portugal, presunhidos? Atros nem terrunhos tunhem pa podunhirem vandunhir.
– Os familiares que já ‘stão im França havunhem d’ ajudarsi-los a maquinar-se.
– Granjas mudanças ‘stão a aconteçunhir. Unos vandunhem os terrunhos c’a ideia de maquinarem e podunhirem ganharsir galhal pa cumprarsir atros mai tardosa, como por vingança.
– C’o aquisso, havunhe algunos qu’stão a juntarsir terrunhos ós que já tunhem e a fazunhir baris quinternas.
– Icho. Já havunhe aí uno ó donos tractores.
– Toi atiscarás daqui a pôcas rodas muto mai genterna cum terrunhos e baris.
– Quem dera a moienes podunhir chegarsir a sunhir uno de soienes!
– E a moienes tamém. Mas atisquê o que te galro. Indê tunho a esp’rança de tunhir uno altmoble e fazunhir atiscar ós abondantes cá da reta. Atiscarão que os atros tamém tunhiam d’reito a alentar baro.
– Algunos marecem que les deitem na cara a sovinice que tunhiram pa ajudarsir os mai minguantes. Atros, nim monte. Ternamente, sempre havunhiu algunos que darsiram trabuco a muta genterna e a ajudarsiram a alentar.
– Baril, oxalá os desejos de noienes se concretizem em breve.
– Quem sabunhe s’ indê m’ adicarás amatriz por cá!
– Baril pró naquesse caso! Havunhiremos de chingar una çarveja uno lúzio à barosa do noieno baril alento.

Tradução para Português corrente

10- Recordações da vida difícil antes da França

– Manuel José, o Manuel lá partiu esta noite para França.
– Pois é, Manuel, é mais um. Daqui a dias será a minha vez.
– Então, também queres partir?
– Que há-de a gente fazer? Quem consegue viver aqui? Mata a gente o corpo com trabalho para conseguir uma côdea. Isto não é vida.
– Tens razão. Não sei que fazer. O mais certo é pôr os pés a caminho. Nem sabe a gente o que fazer.
– O Zeca, que partiu há uns três meses, já mandou uns francos à mãe. Parece que trabalha muito mas ganha bom dinheiro.
– O Joaquim também já mandou bom dinheiro ao pai e já lhe pediu para procurar um bom terreno para comprar.
– Pois é, agora é a vez dele de imitar os ricos. Ter terrenos é sinal de riqueza cá na terra.
– Ainda bem, é uma maneira de se venderem alguns terrenos a bom preço e juntar pequenos chões para formar um terreno jeitoso, onde se poça trabalhar com um tractor, sem ter de usar a enxada e matar o corpo com tanto trabalho.
– Tu vais a ver que muitos que nunca tiveram nada vão ser os ricos cá da terra.
– O dinheiro tudo consegue. Mas é preciso muitos anos de trabalho para conseguirem chegar ao Sr. Anacleto ou mesmo a alguns ambulantes e patrões do contrabando.
– Mas vai haver muita gente com boas casas que não ficarão atrás das casas do Sr. Anacleto e dessa outra gente.
– Quadrazais ainda vai ter muito dinheiro. O futuro dirá o que vai acontecer.
– Infelizmente, ainda há muita gente com fome e que não tem uma côdea para comer.
– Pouco a pouco, vão acabando esses dramas. Já quase todos têm um filho, um tio ou um primo que vai ajudando a família com algum dinheiro.
– Ainda vão demorar anos para escoar todos os que querem partir.
– O problema é que nem todos têm o dinheiro necessário para pagar aos passadores, que cobram caro.
– Alguns já venderam os terrenos para poderem partir. Outros têm medo de ficar sem nada para sobreviver. Quem les garante que não os prendem no caminho e os recambiam para Portugal, presos? Outros nem terrenos têm para poderem vender.
– Os familiares que já estão em França hão-de ajudá-los a partir.
– Grandes mudanças estão a acontecer. Uns vendem os terrenos com a ideia de partirem e poderem ganhar dinheiro para comprar outros mais tarde como por vingança.
– Com isso, há alguns que estão a juntar terrenos aos que já possuem e a fazer boas quintas.
– Certo. Já há aí um ou dois tractores.
– Tu verás daqui a poucos anos muito mais gente com terrenos e bons.
– Quem me dera poder chegar a ser um deles.
– E a mim também. Mas ouve o que te digo. Ainda tenho a esperança de vir a ter um automóvel e fazer ver aos ricos cá da terra. Verão que nós também tínhamos direito a viver bem.
– Alguns merecem que lhes atirem à cara a sovinice que tinham para ajudar os mais pobres. Outros, nem tanto. Felizmente, sempre houve alguns que deram trabalho a muita gente e a ajudaram a viver.
– Bom, oxalá os nossos desejos se concretizem em breve.
– Quem sabe se ainda me verás amanhã por cá!
– Boa sorte nesse caso! Haveremos de beber uma cerveja um dia à saúde da nossa boa vida.
:: ::
«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

Deixar uma resposta