O mesmo mundo visto de outro lado

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

É de sempre este meu hábito de encarar a paisagem subjetivando-a e adaptando-a ao meu olhar. Ainda catraio, corria para subir aos cômaros e, de lá, confirmava a aldeia que se expunha, solarenga, medrando encosta abaixo. De garoto, escalava a colina até à capelinha de Santa Bárbara e, de lá, observava delimitando o meu pequeno mundo.

Cidade de Pinhel

Do lado norte do povoado esbranquiçava-se, à distância, a cidade de Pinhel. A nascente esboçavam-se, em cinzento claro, as remotas serranias espanholas que esticavam a minha visão até á utopia. A poente sucediam-se, a perder de vista, vários pequenos povoados. Do lado sul impunha-se o Jarmelo, o maior Monte do meu mundo infantil.
O desenrolar da vida foi-me mudando o estar mas nunca o ser. Agora, em idade adulta, é a Guarda que me recolhe. Mas o meu olhar nunca se inibirá de procurar o nascedouro. Nas origens busco tudo.
A comodidade foi-me habituando, no inicio destes dias primaveris, a procurar, logo pela manhã, a urbana e quente “bica”, no interior do maior shopping da cidade. Calha-me, o bar, a caminho da escola onde diariamente entrego, pelas oito e trinta, um pequeno estudante.
Não declino o comércio tradicional nem troco, por nada, o meu tasquinho preferido, à esquina da rua, onde o cheirinho do café me inebria. Esse botequim ficará para mais tarde pois a rotina da bica não se esgota numa única toma diária.
Entro, então, no gigante envidraçado. Mato o vício e subo ao quarto andar, lá onde posso contemplar.
Tudo é diferente visto de cima. Nas ruas da cidade cercadas de casas e árvores enfileiram-se carros e gentes. Mais adiante, casarios recentes, vão distendendo a zona urbana. Deste ponto alto tornam-se, ainda, percetíveis a velocidade e o movimento das autoestradas A23 e A25. Enxerga-se-lhes o cruzamento aos pés do Outeiro de S. Miguel, em cujo colégio estudei alguns anos, escola carismática que constitui o marco mais importante da minha adolescência. A uma distância de escassos quilómetros avista-se o omnipresente Monte do Jarmelo que continua a demarcar, agora do lado oposto, o meu pequeno mundo. À direita descortina-se novamente o cinzento longínquo das serras espanholas e à esquerda desenha-se a Serra da Marofa. Nas costas, não visível deste meu posto de vigia, mantenho a certeza da Serra da Estrela como que apoiando a minha observação.
Desvendo hoje, ao estimado leitor, estas confidencias deixando-me dizer que, neste outro mundo, não tão plácido como o infantil, tenho a sorte de poder rever o essencial. Só que, por ora, espreito do lado oposto.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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