O sabugal como capital regional – a questão do bucho

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

A oportuna e importante crónica de Paulo Leitão, com o título em epígrafe, motiva-me uma reflexão sobre o tema que me é tão caro.

Almoço Anual Lisboa - Confraria Bucho Raiano - Sabugal - Capeia Arraiana

Bucho com batatas cozidas e grelos de nabo

E porque o Paulo começa pela questão do denominado «Bucho Raiano», começarei igualmente por aí.
Escreve o autor que «No demais, na defesa e promoção gastronómica centrada no bucho raiano, o texto fala sempre em Riba-Côa e Beira-Côa.
É precisamente nas duas margens do rio Côa, que a Confraria ambiciona implantar-se, até porque o bucho é um produto regional: produz-se no Sabugal, mas também nas terras da Guarda, Almeida, Pinhel e Penamacor.
A Confraria tem que ser agregadora de todo esse território. E, como somos bairristas e conhecemos o valor e o mérito da nossa terra, defendemos e afirmamos o Sabugal como capital da boa gastronomia raiana, em especial do bucho.»

Esta é uma posição que, sendo correta, me levanta, no entanto, as seguintes dúvidas:
– Se o bucho sabugalense é idêntico ou semelhante ao que se produz na Guarda, Almeida, Pinhel e Penamacor em que pé fica a ideia tão propagada, mesmo pela Confraria, de que o nosso bucho seria um fator diferenciador e impulsionador de uma maior atração de visitantes?
– E, ainda, se o nosso bucho é idêntico ao dos outros concelhos marginando o rio Côa, para quê iniciar processos de certificação se já existe um bucho certificado, sob a designação de «Bucho da Guarda»?

A estas duas questões tenho a minha própria opinião, que passo a expor.
Não é mais possível ignorar-se as dinâmicas que em torno dos enchidos da Beira Interior Norte se têm registado, nomeadamente, a  Feira do Fumeiro, dos Sabores e do Artesanato do Nordeste da Beira em Trancoso.
Temo que tenhamos partido tarde, mas ainda vamos a tempo, pois, como muito bem diz o Paulo Leitão, a Confraria poderia e deveria ser o elo dinamizador e agregador dos Concelho raianos da Beira Interior, em torno não só do bucho, mas igualmente de outros tipos de fumeiro, aliás, servidos, normalmente, nos almoços da Confraria.
Esta questão é ainda mais premente, pois penso não errar ao dizer que, para além do processo de certificação, liderado pela Associação do Comércio e Serviços do Distrito da Guarda, muito há, ainda a fazer.
Na verdade, não chega ter produtos certificados, torna-se necessário depois, operacionalizar/motivar/apoiar no terreno os potenciais produtores e, tão importante ou mais, criar eventos divulgadores dos produtos.
E este é um trabalho que, podendo ser liderado por uma Confraria como a nossa, tem de, obrigatoriamente, envolver Municípios, Produtores Pecuários, Produtores de enchidos, etc.
É um desafio muito grande, mas espero que os novos dirigentes com o Paulo Leitão à frente estejam à altura do mesmo.

Um atentado à democracia participativa
Foi esta semana publicado uma alteração à lei que obriga a que uma lista independente tenha, para se poder candidatar, pelo menos 3% dos eleitores.
Para se perceber o que isto quer dizer, e olhando para o Sabugal, tal significa que uma lista independente à Câmara teria que ter, no mínimo, 436 proponentes!
Ora nas autárquicas de 2013, só o PSD e o PS tiveram mais que 436 votos em urna! E nas legislativas de 2015 só o PSD/CDS, o PS e o BE ultrapassaram aquele valor!
Saliente-se que até agora, o número de proponentes exigidos não chegava a metade deste valor.
E assim vai a democracia no País!…

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ps1. Incapaz de fazer uma oposição séria e competente, o «coitado» do Passos continua a dar tiros para o ar, à espera que algum atinja um alvo. Agora são os nomes para o Conselho de Finanças Públicas.
Mas quem são estes vetados? Um, Luís Vitório, foi chefe de gabinete do secretário de estado dos Assuntos Fiscais no tempo do governo Sócrates, tendo-se depois mudado com armas e bagagens para chefe de gabinete do Ministro da Saúde do governo Passos/Portas. O outro, uma italiana sinistra de nome Teresa Ter-Minassian, é bem conhecida dos portugueses, quando nos “lixava” durante o resgate do FMI na década de 80.
Por mim, ainda bem que António Costa vetou os nomes!

ps2. Sou um profundo admirador de Antonio Tabucchi o escritor italiano mais português que conheço. Em boa hora a D. Quixote traduziu e editou um livro de 1975 «Praça de Itália», mas que só agora surge em português.
Comprei e li de um fôlego só. Espantoso!!
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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

2 Responses to O sabugal como capital regional – a questão do bucho

  1. leitaobatista diz:

    Ramiro
    Quando digo e defendo que o Sabugal pode ser capital regional (não no conceito de «sede administrativa», mas no de «fundamental», «mais importante», «primordial») refiro-me à capacidade do Sabugal liderar processos. Isso, acho, é visão de futuro.
    A Confraria do Bucho Raiano, com sede no Sabugal, tem, felizmente, confrades naturais e até residentes noutros concelhos, como os da Guarda, Almeida, Pinhel e Penamacor. Ao afirmar que a Confraria aspira a defender o bucho da região, quero também transmitir a esses confrades que se deixem estar na nossa Confraria, porque ela defende também o bucho dessas terras, por ser um produto regional. Eles não precisam de se desvincular da nossa para formarem a Confraria do Bucho de Pinhel, a Confraria do Bucho de Penamacor, e por aí fora. Não, defendo uma Confraria agregadora e de vistas largas, que tem sede no Sabugal e está portanto aqui centrada, mas serve toda uma região gastronómica. Aliás, já em devido tempo propusemos formalmente à Câmara Municipal do Sabugal, que colocasse nas entradas do concelho outdoors com a mensagem: «Sabugal capital do bucho raiano» ou «Sabugal – aqui nasceu o bucho raiano».
    Quando, em 2009, registámos formalmente e oficialmente a Confraria quisemos designá-la tão só de «Confraria do Bucho», mas impediram-nos e obrigaram-nos a acrescentar mais uma palavra.
    Quanto ao processo de certificação, independentemente de haver já uma certificação do «Bucho da Guarda» nada impede que se venha a certificar igualmente o «Bucho Raiano». Com uma diferença, a meu ver – o Bucho Raiano é de uma região (o conceito de Raia não pode ser restrito, como alguns pretendem, fixado à margem direita da Côa e excluindo terras como a Rapoula e a Miuzela).
    O processo de certificação está em curso, sendo liderado pela Câmara do Sabugal, e a confraria colabora. Espero que em breve a Câmara faça certificação e que os produtores de bucho do Sabugal requeiram o respectivo certificado. O mesmo almejo para os produtores dos concelhos vizinhos, que requeiram e que exibam nos seus estabelecimentos uma certificação outorgada pela Câmara Municipal do Sabugal. Isso é que nos dá força, dimensão e influência no plano regional. Os que se querem fechar na sua concha, ostracizando-se, não darão ao nosso concelho qualquer futuro.
    No fundo, Ramiro, acho que estamos de acordo no essencial – fazer o Sabugal mais importante e mais influente, dotado de capacidade de liderança, procurando a centralidade regional que pode efectivamente ter.

  2. Ramiro Manuel Lopes de Matos diz:

    caro Paulo

    Estou no geral de acordo contigo. Uma retificação. O bucho certificado, como bucho da Guarda, abrange todos os concelhos raianos, do distrito da Guarda. Não seria preferível aproveitar o processo de certificação e mudar-lhe o nome para bucho raiano?
    E a Confraria está de acordo em que o bucho do sabugal certificado, venha a englobar processos de fabrico não tradicionais? E a utilização de porcos não bísaros?

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