Um Demo algo mitigado

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

O sol ainda cheirava a Páscoa oferecendo-se festivo. A saída deu-se quando a manhã ultrapassava as nove horas. A convite de uns amigos tínhamos decidido revisitar as Terras do Demo.

Carregal - casa onde nasceu Aquilino Ribeiro

Carregal – casa onde nasceu Aquilino Ribeiro

O rolar distraído do carro levou-nos primeiro a Trancoso. Um café quente e curto puxou-nos a uma visita breve pela antiguidade da Vila.
Continuámos a viagem encontrando, em cada curva da estrada, a paz quente da paisagem primaveril. Nos sítios mais fecundos, viam-se alguns pomares folhados. Na rudez dos montes, as flores das giestas esboçavam alguma brancura.
A estrada seguia preta e lenta cortando pelo meio a sucessividade das aldeias. Sem quase darmos por isso surgiu, à direita, a placa de Sernancelhe. No mesmo cruzamento, à esquerda, estava indicada a Senhora da Lapa. Havia, no entanto, que seguir em frente até Vila da Rua porque a hora já justificava o almoço.
Repasto consumado, era chegada a altura de visitar, na garbosa Vila, a fonte e o tanque que Aquilino evocou no livro “Via Sinuosa”.
Dali seguimos para Moimenta da Beira. Acolitámos as águas do Távora e visitámos, de caminho, a barragem de Vilar que amenizou, desde há anos, a severidade da paisagem. Lá mais acima chegámos á Vila ancestral reclinada na encosta onde um Demo algo mitigado (comparado com o de Aquilino) rotulava quase tudo, o vinho tinto, o espumante e até encabeçava cartazes de stands de automóveis.
Impunha-se, ainda, a passagem pelo Santuário da Lapa epicentro de todas as peregrinações, sítio carismático da vida de Aquilino Ribeiro que prosseguiu estudos no colégio da Lapa.
Rumámos, a seguir, a Soutosa em busca da sentimentalidade de Aquilino impressa numa literatura meticulosamente beirã. Lá estava o museu instalado na modesta casa e as tílias que o escritor plantou.
Ousando retornar ao início, seguimos para o Carregal, revisitámos a casa natal de Aquilino, o pátio e os ciprestes. Quase acreditávamos que o escritor pudesse surgir a qualquer momento, numa qualquer rua, explicando o gemer das velhas árvores embaladas pelo vento ou mostrando o seu carreirinho para a escola. Evocávamos um passado tão verdadeiro que quase parecia presente.
Chegava assim o final da tarde. A noite preparava-se para encerrar todas as visitas e estendia o seu manto negro. Tornava-se necessário equacionar o regresso e vencer alguns quilómetros de viagem.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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