Galramentos entre Códrazenhos (8)

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Galramentos entre códrazenhos – Franklim Costa Braga publica neste espaço dedicado à sua terra natal várias conversas de quadrazenhos em Gíria, com a tradução para Português corrente.

Edifício da antiga cadeia do Sabugal, onde estiveram presos muitos contrabandistas quadrazenhos

Edifício da antiga cadeia do Sabugal, onde estiveram presos muitos contrabandistas quadrazenhos

8- Monte genterna na vagarosa!

– Lá se maquinê a Joja pó Sabuguel. Maquinê-se tótia vestidê de luto, de manterno noiteno, como s’ ule tunhisse acabado alguém.
– Coitada! A dor é acais igual. Atiscar-se sem quem lhe ganharse o artife e indê co trabuco do vejitar tótios lúzios no Sabuguel, sem podunhir êla ir por lúzio…Indê por ribê, tunhe donos gilfos petesgos pa crier. O que le vai valunhir tunhe de sunhir a méria.
– A méria?! S’êla tamém mal tunhe pa soienes e pó manego.
– Já no é a purmeirê que põe os penantes ó andante. Já atisquei a passumpir a Chão, a Sórreição, a Mar’da Luz, a Mar’Luísê, a Mar’sabel, a Gija Marlona, a Saltinê e mai unês q’antas.
– À entrante da vagarosa fazunhem unê filê que darse volterna ó córteirão. É tótios lúzios o mesmerno espectáculo.
– Indê o manego da Mar’da Luz e da Gijê Marlona, vá que no vá. Acabaram atros manês, tunhem de pagarsir o crime.
– Havunhe esquilonas do diantre! Uno por casa da ânsia pa regarsir, atro por casa dunê discussão na beca e lá perdunhiram donos o alento e atros donos a libardade.
– Poi é, inritam-se e debaixo dos nervos perdunhem as estribeirês, sim pensarsirem nas marnas nem nos gilfos. Mar de quem quinou, qu’a vagarosa uno lúzio acabarsirá.
Mas os mai é tútio por casa do contrabando. Que crime cometeram? Trabucar pa darsir de suquir ós gilfos?!
– A desgraça de Códrazais! Passursem o risco tótias choinês pa ganharsir pa suquir e q’ando pensarsem que tunhem o alento mai ó menos d’reito, apareçunhem os fuscos e lá vai tútio por ânsia abaixo.
– Indê se fosse só f’quer presunhido! O pior é o que tunhe de pagumpir à cega, escrivões e aldrabões.
– Vão tunhir de vandunhir o petesgo terrunho que tunhe unê à Cova, atra à Lameirê, atra à Costeirê, atra ós Pelomes, atra ó Soito Cuncelho, atra ó Fôjo, atra ó Rebeiro da Marrã e atra à Maússê p’o preço que les q’runhirem darsir.
– É mai unê famíliê a f’quer na meséria.
– É o fado dos códrazenhos-passumpir meséria e ambre! O contrabando é unê ilusão. Q’ando se pensarse ganharsir algunê coijê, basta uno lúzio de contra e perdunhe-se tútio o que se ganhumpiu e o que no se ganhumpiu.
– Lá vai tunhir de mandarsir os gilfos, indê que petesgos, a maquinar-se p’à Reta Frenha tótios lúzios, pa trazunhirem artife branquinhoso, alâmpio e algunês petesgas coijês encomendadas ou p’a vandunhir, como casquetas, uno corte de pana, pimentão, uno frasco de Ceregumil. Coijês sedosas, mas que deixarsem unos tostões luziários p’a sobrealentar.
– Atisquê toi ó que chegarsimos. Tunhem de os gilfos faltar à inxinadora e fazunhir andantes monte longos p’ à sois brancas pa podunhirem alentar.
– E indê penham sujeitos a que os carabeneiros ó os fuscos os maltratem e les tirarsem tútio.
– Tunhimos de mudarsir d’alento.
– Mas, o quê?
– Sabunho lá! Mudarsir p’à ambulância.
– Ele havunhe já montes na ambulância que, tirando os Bragas, os Domingos, os Gordinhos e pôcos mai, penha tamém tútio impenhado até ós abanos.
– Haja esprança! Havunhe-d’aparçunhir alguno moderno d’alento que nois salvursa.
– Só maquinar-se daqui. Mas pa onde?
– Pó Brasil?, P’Arjantinê? P’Ángola?
– P’Angola é p’ciso papelosa de chamada. Quem ma vai darsir? Pó Brasil e Arjantinê tunhe de se pagarsir baril ganhal pa andante. Quem mo impresta? E sabunhe o Granjeiro se se ganhumpirá lá o alento! No atisquês o que se passa c’ os que se maquinaram pa lá! Do Barraquinho nunca mai s’óvumpiu galrar.
– Tunhimos d’incuntrar una maneirê de saiumpir daquesta situação. Ó merraremos tótios à fomerna.

Tradução para Português corrente

8- Tanta gente na cadeia!

– Lá vai a Rosa para o Sabugal. Vai toda vestida de luto, de manto preto, como se lhe tivesse morrido alguém.
– Coitada! A dor é quase igual. Vê-se sem quem lhe ganhe o pão e ainda com o trabalho de o visitar todos os dias no Sabugal, sem ela poder ir por dia…. Ainda por cima, tem dois meninos pequenos para criar. O que lhe vai valer tem de ser a mãe.
– A mãe?! Se ela também mal tem para ela e para o homem!
– Já não é a primeira que põe os pés a caminho. Já vi passar a Conceição, a Ressurreição, a Maria da Luz, a Maria Luísa, a Maria Isabel, a Luísa Marlona, a Cesaltina e mais umas quantas.
– À porta da cadeia fazem uma fila que dá volta ao quarteirão. E todos os dias o mesmo espectáculo!
– Ainda o marido da Maria da Luz e da Luísa Marlona, vá que não vá. Mataram outros homens, têm de pagar o crime.
– Há horas do diabo! Um por causa da água para regar, outro por causa duma discussão na taberna e lá perderam dois a vida e atros dois a liberdade.
– Pois é, irritam-se e debaixo dos nervos perdem as estribeiras, sem pensarem nas mulheres nem nos filhos. Mal de quem morreu, que a prisão um dia acabará.
– Mas os outros é tudo por causa do contrabando. Que crime cometeram? Trabalhar para dar de comer aos filhos?!
A desgraça de Quadrazais! Passam a raia todas as noites para ganhar para comer e quando pensam que têm a vida mais ou menos direita, aparecem os guardas e lá vai tudo por água abaixo.
– Ainda se fosse só ficar preso! O pior é o que tem de pagar à justiça e advogados.
– Vai ter de vender o pequeno terreno que tem à Cova pelo preço que lhe quiserem dar.
– É mais uma família a ficar na miséria.
– É o fado dos quadrazenhos-passar miséria e fome! O contrabando é uma ilusão. Quando se pensa ganhar alguma coisa, basta um dia de azar e perde-se o que se ganhou e o que não se ganhou.
– Lá vai ter de mandar os filhos, ainda que pequenos a ir a Espanha todos os dias, para trazerem trigo, azeite e algumas pequenas coisas encomendadas ou para vender, como boinas, um corte de pana, pimentão, um frasco de Ceregumil. Coisas leves, mas que deixem uns tostões diários para sobreviver.
– Vê tu ao que chegámos. Têm de os filhos faltar à escola e fazer caminhadas tão longas para a sua idade para poderem viver.
– E ainda estão sujeitos a que os carabineiros ou os guardas os maltratem e lhes tirem tudo.
– Temos de mudar de vida.
– Mas, para quê?
– Sei lá! Mudar para a ambulância.
– Há já tantos na ambulância que, tirando os Bragas, os Domingos, os Gordinhos e poucos mais, está também tudo empenhado até às orelhas.
– Haja esperança! Há-de aparecer algum modo de vida que nos salve.
– Só sair daqui. Mas, para onde?
– Para o Brasil? Para a Argentina? Para Angola?
– Para Angola é preciso carta de chamada. Quem ma vai dar? Para o Brasil e Argentina tem de se pagar bom dinheiro na viagem. Quem mo empresta? E sabe Deus se se ganhará lá a vida! Não vês o que se passa com os que se foram para lá? Do Barraquinho nunca mais se ouviu falar.
– Temos de encontrar uma maneira de sair desta situação. Ou morreremos todos à fome.
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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

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