Viagem a Coimbra

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

«Mais vale um ano de Tarimba que quatro anos em Coimbra» (ditado popular).

Coimbra

Coimbra

Muitos jovens viajam a Coimbra para estudar na Universidade de Medicina. No nosso caso concreto, privilégios da idade, a única Licenciatura que nos interessa é a Sobrevivência. Uns queimam as pestanas nos manuais escolares, outros são sujeitos a exames médicos. Não por falta de inteligência, mas de saúde, inserimo-nos na segunda categoria.
Assim partimos para o Hospital da cidade do Mondego via Viseu, a primeira paragem de alguns utentes, ou melhor dito, doentes. O bom de viajar, mesmo quando o destino é um hospital, é a oportunidade de conhecer novos amigos. Logo na linha de partida, encontro quatro irmãos escuteiros. Digo para os meus botões: «querem ver, como ando meio tonto, que entrei numa carrinha de escuteiros a caminho de um acampamento em Arganil?» Todos impecavelmente fardados, para esconder o pijama por baixo, a indumentário oficial de qualquer doente.
No percurso, vêem-se muitas florestas calcinadas, poucos braços a trabalharem os campos, rebanhos de cabras em recintos pelados, colossais fantasmas de granito queimado que só não assustam a temerária Morte. A esterilidade desoladora da paisagem confronta-se com os milhares de camiões carregados de produtos estrangeiros (alguns de qualidade duvidosa) que já não conseguimos produzir.
Não muito longe, um pastor e um cão aparecem em primeiro plano. O Homem abre a parca sacola à procura da merenda e o cão esfaimado uiva como um louco. Em redor, algumas flores explodem em mil cores, sinal de que a Primavera sempre ressuscita.
Chegados a Coimbra, a lista de clientes é extensa. Muitos aguardam a chamada para o exame. O corpo está fraco, o pijama convida ao sono e estamos extáticos, com a cabeça bem segura para não fugir e garantir o sucesso do exame. É com alívio que saímos dali. Apesar de doentes, as marmitas são logo ingeridas e só lamentamos não poder beber um copo de tinto. O motorista, sentindo a presença de homens de bom alimento, sugere uma peregrinação desviante à Tasca do Costa, junto ao convento do Carmo, onde esteve enclausurada a irmã Lúcia. Talvez por isso, os odores que emanam da tasca têm qualquer coisa de celestial, facto comprovado quando metemos o dente num bife a cavalo, verdadeiramente divinal, dir-se-ia imbuído de espiritualidade.
Na conversa à mesa, alguns covilhanenses defendem com unhas e dentes que a capital do Distrito deveria ser a Covilhã. Fala-se da Caixa Geral de Lanifícios, segundo os comensais indevidamente furtada à Covilhã por Castelo Branco, cidade com muitas qualidades mas sem tradição no ramo. Para as rivalidades históricas não estragarem o almoço, alguém sugere discutir a literatura covilhanense. Aqui o consenso reinou, todos conhecem Manuel da Silva Ramos, «o filho do alfaiate no Refúgio e autor do “Café Montalto”». Um dos leitores, motorista de profissão, é um indefetível da sua obra: «para mim os melhores livros do Manuel levam-nos às putas». Outro responde: «Putas ou operários, o melhor livro dele é o “Café Montalto”». Um doente propõe uma votação para eleger o melhor livro do autor em discussão. Cada um rasga um bocadinho de papel da mesa e escreve secretamente o título do livro preferido. Os «boletins» são colocados num saco de plástico de uma churrascaria. Contados os votos pela Assembleia eleita, “Café Montalto” foi eleito o melhor livro por 60% dos eleitores (maioria absoluta), seguido de «Três Vidas ao Espelho» com 30%. Quem nos vê, julga tratar-se de um banquete de eruditos ou de doentes fugidos do Sobral Cid.
Saídos da Tasca do Costa, abeiramo-nos da Penitenciária, devidamente guarnecida. Três carros de alta gama passam por nós. «Um» – diz um companheiro -, «leva 35 mil euros, o outro 25 mil e o último leva 20 mil». Um trolha, ouvindo o comentário, aproxima-se de nós com uma galinha debaixo do braço e conta-nos uma pequena história: «Um dia roubei uma galinha à minha vizinha. Armou-se tal sarilho que chamaram as forças de segurança e levaram-me para os calaboiços com a galinha. Como não estava autorizado a ter animais na cela, a pobre galinha foi encaminhada para o pátio prisional e no dia seguinte serviu de ementa à Raposa. O trolha ficou a chupar no dedo».
No caminho de regresso ao Hospital, vemos o Costa da Tasca e o Costa do Governo a apertarem as mãos. Somos informados que o Professor Marcelo está a caminho. O ambiente é de festa, afinam-se as gargantas para o fado de Coimbra e todos levam uma cana de pesca com a máquina fotográfica.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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