Casteleiro – Falas da sabedoria do Povo

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

A minha «vidração» com as maneiras de falar do meu Povo não tem limites. Em cada dia que passa vou lembrando centenas de expressões que às vezes penso que ninguém da Ponte para lá entende. Mas se calhar engano-me…

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Profissões, modos de vida, modos de falar. Mas também: a sabedoria popular traduzida em regras de vida. Resultado de séculos e séculos de experiência e da síntese das diversas vivências, traduzidas para uma espécie de mandamentos da Lei dos Homens (aforismas que nos ensinam coisas muito sérias, como pode ver adiante…).

Profissões no Casteleiro
As pessoas trabalhavam quase todas no campo. E de sol a sol.
A agricultura era de sobrevivência, ou seja, cada qual cultivava para si os legumes, batatas, pão – e não dava nem para a família quanto mais para outros brilharetes…
Mas havia outras profissões:
– as peixeiras,
– os pedreiros,
– os ferreiros,
– os comerciantes, cada um com a sua loja,
– os taberneiros,
– os alfaiates,
– as modistas,
– os sapateiros,
– os homens que trabalhavam a madeira – fossem carpinteiros ou torneiros,
– etc.
No tempo da azeitona, alguns eram lagareiros.
Havia também os que moíam o centeio e faziam a farinha nos moinhos: eram os moleiros.

Palavras e expressões do nosso Povo
Metade destas palavras e expressões só a vai perceber quem é da terra. Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso – como se costuma dizer…
Pois bem: na minha aldeia há maneiras de dizer que sempre me deixaram «banzo».
Por exemplo: sabem o que é um fraca-tchitchas?
E zarinzel?
Ou então:
– Está ali a prender o tchebinho.
– Apareceu aí um imbalde…
– Está aqui uma grande balquêrada.
– Anda ali a coxambrar.
E as expressões da tradicional sabedoria popular?
Exempos:
– A rico não devas e a pobre não prometas.
– Julga que se benze e parte o nariz.
– A tudo Nosso Senhor nos chega se a vida dura.
– Muito fala o são ao doente.
– Quem muito fala pouco acerta.
– Cão que ladra não morde.
– Tenho de fazer de Manelzinho de Sousa.

Palavras de outros tempos
Alguns exemplos.
– Ir ao rebusco,
– Dar aqui uma barredela,
– Fazer uma barrela,
Mas há mais e a linguagem do Povo não tem fim…
Sabem o que é na minha terra a «aldraba»?
Já agora, fique a saber que pôr o pão de costas para baixo era pecado…
E que quando um carro fica «am’lancado», isso quer dizer que levou uma batida na chapa e ficou… amolgado.
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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

One Response to Casteleiro – Falas da sabedoria do Povo

  1. LUIZ CARLOS PEREIRA DE PAULA diz:

    Sou um curioso dos falares dos nossos povos (povoados). Obrigado

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