Bloco de notas hospitalares

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Acordo internado numa unidade hospitalar, sem ouvido nem achado, com um fardamento novo, uma pulseira branca (não das electrónicas), número de processo clínico, nome e idade. Horas antes, nem um “amén” ou “item missa este” ouvi na Sagrada Eucaristia da Missa Dominical.

Não falta material técnico: máquinas para medirem o ritmo cardíaco, rampas de oxigénio, aspiradores e muitos fios e tubos

Não falta material técnico: máquinas para medirem o ritmo cardíaco, rampas de oxigénio, aspiradores e muitos fios e tubos

Diz-se que cada homem deve procurar fazer filhos, no meu caso três, plantar árvores, já plantei centenas, e, por fim, escrever um livro. Em Aldeia de Joanes, no Dia do Pai, lancei O Nosso Homem e segui para o Hospital. É o ciclo da vida de um simples cidadão.
Dou conta de estar numa acolhedora enfermaria. Vejo uma utente em estágio há mais trinta dias, a incómoda enfermidade não altera a sua boa disposição.
Numa sala acima, não falta material técnico: máquinas para medirem o ritmo cardíaco, rampas de oxigénio, aspiradores e muitos fios e tubos. Apesar do respeito que inspiram estas ferramentas, o ambiente é acolhedor, graças à grande dedicação e afectividade dos profissionais de saúde, que fazem das tripas coração sem as devidas contrapartidas salariais. Dizem-me que uma greve prevista para Março foi desconvocada com os argumentos do costume.
Quando penso estar longe de gente conhecida, eis que aparece um ex-aluno ao meu lado, o Antero, agora funcionário hospitalar. Abeira-se do meu leito e confessa: “Vi o seu nome na lista de doentes. Nunca o esqueço, graças a si completei o 7º ano em Castelo Branco. Ainda me lembro dos seus apontamentos sobre as crónicas de Fernão Lopes”.
A companheira Srª Lurdes de Erada avisa-me: ”quando somos novos temos saúde de ferro, mas com a passagem para a velhice começam as mazelas e a meta aproxima-se do fim”.
No mundo das gentes arraianas, encontro dezenas de conterrâneos. Admiro a sua luta pela vida no estrangeiro, a sua sabedoria de experiênica feita e a memória das suas raízes. Logo na cama ao lado está um doente arraiano com o nome de Alves Fernandes. Rio-me com a coincidência, estarei na ala hospitalar dos Alves Fernandes? Digo-lhe que sou da Bismula, ele diz-me que temos familiares em comum na Aldeia Velha. As nossas almas rejuvenecem quando as sabemos ligadas.
O meu amigo arraiano e parente nunca abandonou a sua Aldeia Velha: “Quero ali morrer: como as árvores, sempre de pé”. Recordamos que passámos fome, frio, os pés calçados com as chancas – tamancos de madeira… Percorremos os caminhos dos contrabandistas, às vezes fintávamos as autoridades, outras eram elas que nos enganavam no jogo do gato e do rato. “Amigo António, a quem entregámos as nossas aldeias?”
Quando fixamos demasiadas horas o tecto de um Hospital é inevitável falar do Céu: “Acho que estes profissionais de saúde vão para o Céu, bem merecem depois deste inferno”. O companheiro arraiano sorri e completa: “além das doenças, ainda aturam os nossos feitios”.
Surge mais uma arraiana na conversa – a Enfermeira Tânia. Sem papas na língua dá um recado: “na minha vila histórica, que já foi concelho, colocaram uma lagartixa em cimento para aceder ao Castelo. Não viram as pedras ali ao lado. Pegaram no chafariz da praça e colocaram-no à entrada do Povo, talvez para lavar os pés aos emigrantes… Este monumento era o símbolo máximo dos namoricos às escondidas dos nossos pais, era o local dos nossos encontros e desencontros. Agora está desterrado…” A nossa arraiana transmite-nos energia e coragem.

Na minha vila histórica colocaram uma lagartixa em cimento para aceder ao Castelo

Na minha vila histórica colocaram uma lagartixa em cimento para aceder ao Castelo

É minha obrigação moral afirmar que estes trabalhadores da saúde, nem sempre reconhecidos em termos monetários ou de carreiras, operam autênticos milagres. O Papa Francisco escreveu há tempos: “a dádiva fortalece a vida, o comodismo e o isolamento enfraquecem-na”.
Resta-me agradecer o muito carinho que recebi durante os dez dias de internamento na unidade de AVC no Hospital da Cova da Beira na Covilhã. Com estes Homens e Mulheres que todos os dias aliviam as dores físicas e psicológicas, a Bondade e a Solidariedade nunca adoentarão.
Um Bem-Haja a todos e votos de uma Santa Páscoa.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

One Response to Bloco de notas hospitalares

  1. Romeu Bispo diz:

    A escrita mostra-nos o António Fernandes que conhecemos. Votos de completa recuperação e Boas Festas – Santa Páscoa.

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