Crónicas da Costa do Sol

Citações curiosas, episódios rocambolescos, notas indiscretas, rábulas, curiosidades, anedotas de ocasião, atitudes peculiares e ditos de espírito – eis as «Histórias de Almanaque». Citamos as «Crónicas da Costa do Sol» de Correia de Morais.

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Correia de Morais foi jornalista, pintor, galerista e, sobretudo, grande estudioso e defensor da Costa do Sol, especialmente de Cascais e do Estoril.

As vírgulas
Correia de Morais detestava o excesso de vírgulas nos textos:
«Não gosto das vírgulas e nunca sei qual o melhor destino a dar-lhes. Além disso, desenhar vírgulas não prova coisa nenhuma, tanto assim que se gasta nelas que é um louvor a Deus e os resultados estão à vista. Não, as vírgulas não interessam nada. E cada cidadão pode não ter mais regalias, mas vírgulas, é seu inalienável direito usar as que entender, democrática e anarquicamente, por tendência delinquente ou por analfabética herança de seus maiores.»

O Dr Esaguy
O jornalista Correia de Morais foi íntimo de Augusto de Esaguy, o ilustre médico e presidente da Junta de Turismo, filho de Ruben Marques Esaguy, o judeu que serviu como secretário na Câmara Municipal do Sabugal.
Sendo o Dr Augusto Esaguy Presidente da Junta de Turismo, visitou a galeria de arte que o escritor e pintor Correia de Morais possuía em Cascais:
«Chegou um cavalheiro, cheio de ar de comprador em potencial, e visitou o salão demoradamente. Viu todos os quadros, apreciou de perto e longe, e acabou por se fixar numa paisagem minhota, simples e fresca. Chamou o empregado da Junta e manifestou desejo de falar ao expositor. Fui-lhe apresentado, tratou-me muito gentilmente, e mais tarde declarou:
– Quero este seu quadro, sem dúvida a melhor coisa da exposição, se bem que qualquer merceeiro preferisse um dos muitos trabalhos decorativos que você para aí tem. Fico com este e não lho pago, o que ainda é um excelente negócio para si. Sou uma pessoa muito conhecida e uma autoridade em pintura. Você é um pintor ainda desconhecido e a necessitar de criar um público e de se impor como artista. Eu fico com esse quadro, e se bem que lho não pague, autorizo a que lhe coloque um grande cartão dizendo: “vendido ao Dr. Augusto Esaguy”. E você verificará o prestígio e as vantagens que isso lhe trará…».

O maldito boato
O Boato vive ali em cima, em lugar indeterminado, mas quando amanhece, escorrega até à vila e enche-a de lés-a-lés. Sempre muito atarefado, o Boato conta com dois empregados activos, eficientes, empreendedores: o «Diz-se» e o «Ouvi Dizer». Ambos trabalham por amor à arte, desenvolvem reacção em cadeia e reproduzem-se de moto-contínuo.
São de levedura activada, férteis e fertilizantes, de autogestão e reprodução anárquica, espiritualmente cancerosa. O Boato é inexpugnável e invencível, versátil, sinuoso, intrometido: o Boato está em toda a parte, amolda-se, ajusta-se, adapta-se; é imprevisível, anónimo, encapuçado. O Boato deflagra, gesta-se, o Boato É!
Não se vence o Boato, mas pode-se combatê-lo, contra o Boato não há remédio na farmácia, no tasco ou num canhão.
Só o tempo dá luta ao Boato. O tempo e a indiferença, ou a grande coragem de pegarmos no nosso próprio Boato, transportá-lo ao colo, rir com ele e rir dele.
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(por Paulo Leitão Batista)

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