Galramentos entre Códrazenhos (7)

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Galramentos entre códrazenhos – Franklim Costa Braga publica neste espaço dedicado à sua terra natal várias conversas de quadrazenhos em Gíria, com a tradução para Português corrente.

Quadrazenhas à conversa

Quadrazenhas à conversa

7- Lúzios de baixeza – acabadas

– T’carsiu o tocante a dobrer. Quem se merrariê, Marzabel?
– No façunho ideia, Chão! No m’alembra de nulo que penhasse muto mal.
– Atisquê, ‘stão a galrar que foi o Zé d’Amélia.
– Ah! coitado! Icho que penhava mal já havunhe unos reloijos.
– Lá tunhiremos d’ir aquêsta choina à c’roa. Era baril manêgo.
– Poi é, mas a acabada calh’a tútios. Quem galrariê! Indê no Quente o atisquei a regarsir o terrunho que tunhe junto do de moienes, tútio inchado d’alento. E atisquê! Atisquê lá toienes!
– Tunhimos que darsir os sentimentos à viúvê e à gilfê.
– Aproveitarsiremos a esquilona da c’roa pa los darsir. A c’roa devunhe rezarsi-la a Beda.
– Já o Rambóia penha a tratarsir do tábuas, o Carrapatinho a fazunhir-le unos calcantes novernos e o Zé Vinhês a fazunhir-le a farpela noitena noverna.
– No sabunho porquê aqueste c’stume de vestumpir e calçarsir o acabado de noverno. Se sois vai pá fundurê, pa quê farpela noverna? Tútio acabarsa! E andarsimos nois a acabarsir-nos cum trabuco e às vezes im barulhos p’um bocado de terrunhê! P’acabarsirmos naquisto!
– ‘Stás a óvumpir, Marzabel, já ‘stá a t’carsir pó interro. No sabunho s’habrará Ofícios ó só divinê de corpo presente.
– Acharso que galrarão os Ofícios, Chão. Soi deixurse cá baros suficientes pa pagarsir.
– Maquinemos, que no tardursem as bandeirês da Irmandade das Almas a saiumpir. Já oçumpo os griternos da famíliê.
– Apoi d’acabado é qu’ achursem que soi era o melhor do mundo, sim achaques.
– Hõinje o Amaro vai suquir uno quilotre de xaira, apesar do acabado sunhir soi vezinho.
– P’ó Amaro nentes importa quem sunha. É lúzio d’alegrosa pa soienes. Sempre ganharse mai unos vintenos de galhal.
– Tamém, pa parrondar maralva e donos gilfos tapados, baro podunhe havunhir interro tótios lúzios!
Soi baro s’agarr’ó pesado tótios lúzios. Tunhiu pôco pró!
– No galrava moi a toienes? Aí vunhe já o interro. Vá, maquinemos a galrar adeus ó Zé d’Amélia.
– Indê tunhiremos mai trenos D’mingos pa rezarsir os orações e mai oitenos lúzios de c’roa.
– Poi que seja pa alma de soienes!
– Atisquê! Já penham a galrar qu’acabou uno asadinho.
– Aquisto é terríble. São unos trás dos atros. Só aquêsta trabalhosa já se maquinaram trenos.
– Galram qu’é o tifo ó una coijê assim.
– Sej’ó que for, a vardade é qu’aquisto é unê vindimê. Códrazais vai penhar sim petesgos pá inxinadora.
– Já sabunhes quem é o asadinho qu’acabou?
– Galram qu’é um gilfo do Tátão.
– Ind’ é mê cumpadre. Tunho que maquinar-me a darsir-le os sentimentos.
– Acais no tunhimos reloijo pa ultimar.
– Nem a suquideirê nos sabunhe baro cum monte baixeza.
– Vá que mê cumpadre já tunhe donos petesgos granjeiritos! Mas havunhe genterna que penhou sim nenhuno dos gilfos e já penha em brancas pa no tunhir mai.
– Havunhe de sunhir o qu’o Granjeiro q’runhê! No podunhimos fazunhir nentes!
– Os curadores andarsem nuno corropio. Mas galram qu’aquêsta ingofadez indê no tunhe curê.
– Por aquisso é qu’ind’ havunhe unos lúzios eram q’atrenos asadinhos no mesmerno interro!
– O mercho tamém no tunhe manápulas a medumpir.
– Sunhirá dos ares? No devunhe de sunhir, que nois tunhímos baris ares.
– Atão do que sunhirá? Cá pa moienes aquisto são efeitos da guerra. Deiteram monte gases p’ó ar, qu’agora vunhem pa cá.
– Talvez tunhas certo. Tunhimos de taparsir a aberturê pa suspirar. Qu’o Granjeiro valha a noienes!

Tradução para Português corrente:

Dias de tristeza – mortes
– Tocou o sino a dobrar. Quem morreria, Maria Isabel?
– Não faço ideia, Conceição! Não me lembro de ninguém que estivesse muito mal.
– Olha, estão a dizer que foi o José d’Amélia.
– Ah! Coitado! É verdade que estava mal já há uns tempos.
– Lá teremos de ir esta noite à coroa. Era bom homem.
– Pois é, mas a morte calha a todos. Quem diria! Ainda no Verão o vi a regar o terreno que tem junto do meu, todo cheio de vida. E olha! Vê lá tu!
– Temos que dar os sentimentos à viúva e à filha.
– Aproveitaremos a hora da coroa para lhos dar. A coroa deve rezá-la a Beda.
– Já o Rambóia está a tratar do caixão, o Carrapatinho a fazer-lhe uns sapatos novos e o José Vinhas a fazer-lhe o fato preto novo.
– Não sei porquê este costume de vestir o morto de novo. Se ele vai para a cova, para quê fato novo? Tudo acaba! E andamos nós a matar-nos com trabalho e às vezes em barulhos por um bocado de terra! Para acabarmos nisto!
– Estás a ouvir, Maria Isabel, já está a tocar para o enterro. Não sei se haverá Ofícios ou só missa de corpo presente.
– Acho que dirão os Ofício, Conceição. Ele deixa cá bens suficientes para pagar.
– Vamos, que não tardam as bandeiras da Irmandade das Almas a sair. Já ouço os gritos da família.
– Depois de morto é que acham que ele era o melhor do mundo, sem defeitos.
– Hoje o Amaro vai comer um quilo de carne, apesar do morto ser seu vizinho.
– Para o Amaro não importa quem seja. É dia de festa para ele. Sempre ganha mais uns vinte escudos.
– Também, para governar mulher e dois filhos cegos, bem pode haver enterro todos os dias!
Ele bem se agarra ao enxadão todos os dias. Teve pouca sorte!
– Não te dizia eu ? Aí vem já o enterro. Vá, vamos dizer adeus ao José da Amélia.
– Ainda teremos mais três Domingos para rezar os orações e mais oito dias de coroa.
– Pois que seja pela alma dele!
– Olha! Já estão a dizer que morreu um anjinho.
– Isto é terrível. São uns atrás dos outros. Só esta semana já foram três.
– Dizem que é o tifo ou uma coisa assim.
– Seja o que for, a verdade é que isto é uma vindima. Quadrazais vai ficar sem miúdos para a escola.
– Já sabes quem é o anjinho que morreu?
– Dizem que é um filho do Tátão.
– Ainda é meu compadre. Tenho de ir dar-lhe os sentimentos.
– Quase não temos tempo para jantar.
– Nem a comida nos sabe bem com tanta tristeza.
– Vá que meu compadre já tem dois miúdos granditos! Mas há gente que fica sem nenhum dos filhos e já estão em idade para não ter mais.
– Há-de ser o que Deus quiser! Não podemos fazer nada!
– Os médicos andam num corropio. Mas dizem que esta doença ainda não tem cura.
– Por isso é que ainda há uns dias eram quatro anjinhos no mesmo enterro!
– O padre também não tem mãos a medir.
– Será dos ares? Não deve ser, que nós temos bons ares.
– Então de que será? Cá para mim isto são efeitos da guerra. Deitaram tantos gases para o ar, que agora vêm para cá.
– Talvez tenhas razão. Temos de tapar a boca para respirar. Que Deus nos valha!
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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

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