Exercícios de hipocrisia

António Emídio - Passeio pelo Côa - © Capeia Arraiana

Jeroen Dijsselbloem, socialista, e presidente do Eurogrupo, afirmou no Frankfurter Allgemine Zeitung o seguinte: «O pacto dentro da zona euro baseia-se na confiança. Na crise do Euro, os países do euro do Norte mostraram a sua solidariedade com os países em crise. Como social-democrata considero a solidariedade extremamente importante. Mas quem a exige também tem obrigações. Não posso gastar todo o meu dinheiro em licor e mulheres e a seguir pedir ajuda. Este principio aplica-se a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu.»

Mulheres

«Não posso gastar todo o meu dinheiro em licor e mulheres e a seguir pedir ajuda…» (Jeroen Dijsselbloem)

O senhor Dijsselbloem de certeza que não se referia aos trabalhadores do Sul da Europa, aqueles que não aparecem nos jornais, nas revistas do «beautiful people» e na televisão, aqueles que todos os dias caminham para os seus locais de trabalho, nas fábricas, nas minas, na construção civil, no campo, no mar, nos restaurantes, nos escritórios, e que ganham salários de fome, sendo muitas e muitas vezes trabalhos precários. Ele referia-se às elites políticas e económicas! Também a uma classe média alta que parasita essas mesmas elites, o que acontece em Portugal. No nosso País, de onde têm saído os maiores escândalos de corrupção? Não se encontrou já droga na posse de motoristas de carros oficiais? Quem faz orgias? Quem viveu como um nababo em Paris? Quem foge com dinheiro para paraísos fiscais? Quem levou bancos à falência para ficar com as poupanças de quem toda uma vida trabalhou honestamente? Tudo isto, e muito mais, foi feito por políticos, banqueiros e grandes empresários. Os hipócritas zangaram-se com o que o senhor Dijsselbloem disse, pediram a demissão dele, exigem pedidos de desculpa, e como é lógico, já surgiram as palavras malditas: «racista» e «machista» (podiam juntar-lhe: nacionalista e populista, está na moda…). Nós, portugueses, a quem estas minorias selectas tiram o dinheiro (digo tirar, para não usar outra palavra) para levarem uma vida de luxo, não nos devemos ofender, antes pelo contrário.
O que eu estou desconfiado é que os ultras (Neoliberais) farão tudo para o destituírem, ele é social-democrata.

O senhor Dijsselbloem disse que não tinha nenhuma intenção de se demitir e que o seu estilo «directo» de falar é assim, «próprio da cultura calvinista, da sinceridade holandesa.» Agora digo eu, com razão ou sem ela: se a Reforma Protestante tivesse tido êxito em Portugal, o País neste momento seria outro, a nível ético, político e económico, seria diferente, para melhor.
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«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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