O bucho raiano em Bruxelas

Joaquim Tenreira Martins - Capeia Arraiana

Não vão dizer que se comeu Bucho Raiano em Bruxelas em plena quaresma. Mesmo se esta cidade foi sempre uma terra acolhedora de dissidentes políticos e religiosos de outros países, convém não espalhar a notícia que pode sempre ferir susceptibilidades menos bem formadas.

Os confrades Joaquim Pinto da Silva e Joaquim Tenreira Martins prontos a degustar o bucho

Os confrades Joaquim Pinto da Silva e Joaquim Tenreira Martins prontos a degustar o bucho

Não é que eu tenha algum receio de servir bucho em qualquer altura do ano. Não. É por respeito pelo Senhor Bucho, pois nunca se sabe como é que este poderá reagir. Não pensem que ele não se dá conta que não se encontra no seio meio natural. Por mais que pensem o contrário, o Bucho é deveras inteligente. Bem, mas estas apreensões de doutrina foram superadas pela companhia amiga do confrade portuense, da Foz, se-faz-favor, que invocou a teoria da justificação para ultrapassar os pruridos de servir e comer o Bucho fora do tempo, fora de Portugal e fora da raia sabugalense, onde tinha nascido. Que alívio!
Eu bem sei que alguns nem teriam dormido bem com a descrição que um outro amigo fez, dois dias depois do anúncio do evento, retirando lembranças do baú da sua infância, de quando ia a Vilar Formoso a casa da avó para comer, no domingo gordo, o tal bucho que, confirmou ele, estava igualzinho em sabor e em qualidade ao que nos era servido. Não fosse ele da cidade da Guarda, zona ainda delimitada do Bucho Raiano!
Claro que quem não conhece esta tradição do Bucho Raiano, olha para aquela peça enorme, arredondada, fumegante e de cor acastanhada com muita curiosidade e apreensão. E quando o confrade o começa a esventrar, meu deus, que cheiro se espalha pelos ares! Os olhos dos convivas concentram-se no Senhor Bucho. Mas, todo vaidoso, não lhe apetece dizer nada. Observa e regala-se, ao sentir que é o centro de todas as atenções e está convencido que vai convencer mais que dois a tentar aquele regalo. Ele é o Senhor Bucho! E, quando já esventrado, começa a pingar de untuosidade, então coloca-se à espreita das reacções dos comensais. Constata que as narinas já estão repletas do delicioso cheiro bem característico que exala do seu corpo, que os lábios não param de mexer de ansiedade e que a saliva não tem mais paciência para ficar sozinha na boca, sem se privar do famoso dito cujo, não cessando de engolir em seco.
O confrade, ao cortar o Senhor Bucho, não perde a oportunidade em comunicar algumas informações sobre o mesmo, sobretudo de o situar no contexto do Carnaval em que a gula pecaminosa poderia ser tolerada para dizer adeus à carne, pois era necessário fazer reservas para os quarenta dias de jejum e abstinência que se seguiriam a partir de quarta-feira de cinzas!
O garfo entrou logo à primeira e notei que a faca não encontrava o melhor sítio para começar a dividir o bucho ou talvez este mesmo estivesse reticente em se dar a comer. Olhei para ele mais uma vez. Não, não tinha vontade de protestar porque, pouco a pouco ia sentindo um feliz ambiente de camaradagem, rendido à curiosidade de ser provado pela primeira vez por muitos presentes.
O bucho ficou rendido. Já estava nos pratos, ao lado das batatas belgas e dos grelos italianos e olhava em contre-plongée para a cara de cada um dos eventuais apreciadores. Mas este bucho, curioso como é, não resistiu à pergunta:
Então, que tal? Gostam, meus caros citadinos europeus?
E começaram logo todos a desembuchar
Que excelente iguaria! Que delicioso sabor!
E a curiosidade levou-os a escarafunchar com o garfo e a faca, à procura de descobertas anatómicas do porco: o focinho, o rabo, o soventre, a faceira, tudo bem condimentado com alho, pimentão e colorau.
E o bucho ouvia, com satisfação, o consolo de todos os comensais inicialmente reticentes.
Não sei se o Chanceler vai ficar satisfeito ao ver os dois confrades da confraria do Bucho raiano apenas com as insígnias e sem a farda apropriada. Como homem tolerante que é, vai certamente apreciar, pois o Senhor Bucho portou-se à altura na prova de divulgação desta iguaria que tanto tem honrado a zona da raia sabugalense.
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«Pedaços de Fronteira», opinião de Joaquim Tenreira Martins (joatemar@gmail.com)

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