Coisas que não queria saber

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

Na minha estadia no Sabugal, para além do prazer de rever família e amigos, tive vários desgostos.

Casa da Memória Judaica da Raia Sabugalense - Casa do Castelo - Ramiro Matos - Capeia Arraiana

Casa da Memória Judaica da Raia Sabugalense (foto: Município do Sabugal)

1. A Casa da Memória Judaica
Tinha referido há algum tempo a satisfação pela transformação da antiga Casa do Castelo na Casa da Memória Judaica.
Ora este fim-de-semana tive a possibilidade de visitar a Casa e, tenho de o dizer de forma clara, fiquei estarrecido com o que vi. Uma decoração do espaço a roçar o ridículo, em materiais como o pinho e PVC (mas a casa não era em granito?), a que se associa uma exposição que nada diz ao visitante e pouco ou nada esclarece sobre a memória judaica no Concelho do Sabugal.

…(Já agora, se vierem uns visitantes estrangeiros, quem lhe traduz o que está escrito? E no tempo dos romanos já havia judeus no Concelho?)…

Por outro lado o acesso só é possível a pessoas com boa mobilidade, pois a criação de três níveis expositivos não permite a sua visita a pessoas com deficiência ou a idosos com alguma dificuldade de locomoção. Mais valia fechar a Casa de novo e reabri-la com tempo, refazendo os espaços e a decoração, e apoiado em pesquisas de quem sabe do assunto e de quem quer mostrar como o Concelho foi um pólo importante das comunidade judaicas portuguesas.

2. A certificação do bucho raiano
Antes de ir ao cerne da questão, deixem-me dizer que existe já um «bucho da Guarda» certificado.
Este bucho é, segundo o legislado, «um enchido fumado obtido a partir da carne da cabeça, rabo, costelas, cartilagens, osso da espinha, focinho e orelha de porcos de raça Bísara na sua linha pura ou de animais resultantes de cruzamentos, em que pelo menos um dos progenitores seja da raça suína Bísara, inscrito no respetivo Livro genealógico. E também está legislado que «(…) prontos para a fumagem, que se realiza em contacto direto com o fumo, em fumeiros tradicionais ou sem contacto direto, em lareiras. Para este efeito, utiliza-se lenha de carvalho, castanheiro, giesta e pinho, podendo ser admitida a utilização de lenha de azinho. O período de secagem ou fumagem dura cerca de uma e meia a três semanas.»
Mas será verdade o que me disseram, de que está a ser preparado o processo de certificação do bucho raiano, autonomizando-o do bucho da Guarda, com recurso a outras formas de cura que não o fumo ou o calor da lareira? Dizem-me que há produtores que investiram em formas de cura mais modernas, mas então, mais valia apoiar estes produtores na transformação das suas salas de seca em fumeiros tradicionais.
E será também verdade que em degustações oficiais de bucho raiano, realizadas no nosso Concelho, estão a ser servidos buchos produzidos no Concelho da Guarda? Será porque esses são certificados de forma que, parece, não irá ser seguida no Sabugal?

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ps1. Os meus parabéns ao Sporting do Sabugal pelos êxitos desportivos alcançados quer no futsal, quer, espero, no futebol de 11, quer ainda nas artes marciais.

ps2. Não concordo com os sucessivos concursos das ditas sete maravilhas que não passam de uma forma enganosa de uns senhores enriquecerem. Agora são as aldeias. Do Sabugal candidataram-se Malcata, Sortelha e Vilar Maior. Ter o título ou não ter pouco importa, pois qualquer uma das nossas aldeias já é maravilhosa.

ps3. Há um indivíduo nos programas matinais de televisão que, vai e não vai, insinua que os presos das cadeias deveriam fazer justiça pelas suas próprias mãos em relação a determinados presos. O senhor até pode babar-se de prosápia e vaidade, mas que isto é incitamento puro e duro a barbárie, lá isso não deixa de ser. A sorte é que aquela hora poucos portugueses e, espero, ainda menos presos estão a ver este programa.
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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

One Response to Coisas que não queria saber

  1. Nv diz:

    Caro Ramiro Matos, parabéns pelo desassombro e sem hipocrisias com que dizes as verdades. A coragem de enfrentar os medos coletivos não é para todos. Um Abraço.

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