O homem merecia!

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

O Zé integrava a petizada fervilhante da escola primária da minha aldeia há mais de quatro décadas. Oriundo de família numerosa e abastada, cedo sobressaiu tanto pela traquinice como pela sapiência curricular.

Estórias contadas no regresso à aldeia

Estórias contadas no regresso à aldeia

Havia de tornar-se engenheiro, apetência denunciada pelo esboçar das muitas malandrices. Partiu para Lisboa logo após o exame da quarta classe. Na capital já estudavam duas das suas irmãs mais velhas. Regressava em períodos de férias quando a aldeia constituía o reencontro dos putos que iam medrando enquanto estudavam em seminários e demais estabelecimentos. Trazia na cartola estórias da capital que contava de maneira devota e compenetrada. Proseador nato, narrava peculiarmente utilizando invulgares amalgamas de palavras sábias e galhofeiras. Gastámos, pela vida fora, milhentas tardes e outras tantas partes de noite em saborosos bate-papos. Os assuntos poderiam emergir do passado, surgir em cada presente ou ser auguros do futuro. Deixo, então, ao leitor, um excerto de um desses palratórios.
Deslocava-me, na aldeia , com um destino que já não recordo quando, rua abaixo, vejo o Zé fazendo-me veemente sinal de paragem. Era estória pela certa:
– Então como andas pá?
– Faço os possíveis.
– Vamos beber um copo? Quero pedir-te uma opinião.
Acompanhámo-nos, ombro a ombro, e esperei que ele iniciasse:
– Quando cá estive, pela última vez, não me apetecia nada abalar. Ao final da tarde meti-me na adega com o meu pai intercalando uns calistos com umas fatias de presunto e umas rodelas de chouriço. Foi até que o velhote me disse “vai-te embora Zé que, daqui para Lisboa… tarde e bem bebido!” Mas, acredita, não me apetecia nada ir. Entrei no carro contrariado. Segui devagar e quase tentado a voltar atrás. Fui rolando a autoestrada, até que, junto a uma saída enxerguei, do lado esquerdo, num enorme parque alcatroado, uma multidão de carros estacionados. Resolvi investigar. Era uma discoteca. Não resisti. Entrei e por lá fiquei duas longas horas bebericando uns uísques. Quando me dispus a prosseguir dei com uma viatura da Brigada de Transito imobilizada no largo.
O Zé falava cada vez mais pausadamente mas continuava:
– Os agentes observavam-me. Antes de me sentar ao volante um deles dirigiu-se-me e perguntou:
– Para onde é que o senhor vai?
– Ó Sr. Guarda não me diga que é por causa do álcool que quer saber.
Ao que o Guarda acrescentou:
– O que é que lhe parece?
– Pois vou para Lisboa Sr. Guarda.
Apontando o edifício o agente ia informando:
– Oiça lá o que eu lhe digo. Isto aqui, a partir do primeiro andar, é um hotel. Arranje um quarto, meta-se na cama e vá para Lisboa amanhã.
– Ora essa Sr. Guarda! Então saí da aldeia e não chego a Lisboa? O que é que a família vai pensar?
– Olhe que o hotel também tem telefone, homem.
Após curto intervalo o Zé finalizou:
– Acabei por acatar a ideia do Guarda. Dormi que nem um justo e no dia seguinte, quando acordei, fui à GNR, agradeci e deixei uma garrafa de uísque para o agente da noite anterior. O homem merecia, não achas?
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

One Response to O homem merecia!

  1. José Leitão Baptista diz:

    Boa história, Fernando Capelo.
    A restrições ao álcool com álcool se pagam.

    Abraço
    José Leitão Baptista

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