Minha Nossa Vossa Terra

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

Subi ao alto das torres de menagem dos nossos castelos, ao cimo das montanhas – assim começa o texto poético de Alcínio, onde se misturam sentimentos de nostalgia, revolta e inconformismo face ao estado das nossas aldeias e ao futuro que as espera.

Pintura de Alcínio - o castelo do Sabugal

Pintura de Alcínio – o castelo do Sabugal

Subi ao alto das torres de menagem dos nossos castelos, ao cimo das montanhas
Perscrutei até à linha do horizonte , cheirei os odores trazidos pelos ventos contemplei o desfilar imaginário nossa história ouvi os rumores de valorosas batalhas e do brandir metálico nas forjas que temperavam o aço das ferramentas que talharam a pedra que alicerçaram nosso passado.
Descendentes desta linhagem de gentes talhadas do granito das nossas lages megalíticas, dos carvalhos centenários, causticados pelos rigores das invernias e caldeados pelos calores estivais.
Que comeu o pão áspero e duro que o diabo amassou arrancado desta terra estéril que abriu caminhos na escuridão em noites de breu a troco de umas míseras pesetas arriscou a vida carregando pesados fardos ou carregos de contrabando pelas íngremes montanhas da vida.
Habituados a recrear se desafiando feras armadas de hastes córneas, como treinos de solidariedade em momentos de risco.
Quando a vida se tornou impossível vencemos todos os obstáculos cruzando o mundo para todas as partes da terra.
Com os proventos angariados por onde labutamos encheram-se os cofres dos bancos ,concretizaram os seus sonhos que ergueram nas aldeias formosas .Estão agora todos os sonhos e realizações em risco de ruir por inépcia, má gestão ou negócios fraudulentos de gestores ou políticos incompetentes.
É o tempo de nos unirmos e gritarmos em uníssono num grande clamor, fazermos ouvir a nossa voz
E exigir justiça e provarmos a nossa força porque continuamos a ter gente jovem e com competências em todas as áreas do saber na ciência na investigação inovação e tecnologia
Não aceitamos ser condenados a uma grande reserva de idosos inválidos em vias de extinção
Esta terra tem tantas potencialidades ou melhores e conta com gente determinada, mais do que qualquer outra do país e é nos credor pelo que nós e os nossos pais fizeram.
Não nos resignamos a ver morrer todos os sonhos nossos e dos nossos pais, e em última análise encontraremos dentro dos nossos recursos uma solução.
Seria suficiente uma subscrição pública de todos os amigos e naturais do Concelho e criar uma empresa polifacetada, gerida por homens de honradez comprovada para aproveitar ou fundar essa empresa com novas competências assim atrair jovens para a nossa terra.
Nos campos ouve se o silêncio ou o rumor das florestas na sua quietude ou com seus ramos a acenar por socorro no seu lento sufocar.

Tríptico com as tradições raianas - procissão, encerro e lide do forcão (pintura de Alcínio)

Tríptico com as tradições raianas – procissão, encerro e lide do forcão (pintura de Alcínio)

E lá nas lonjuras pequenas e longas planuras com suas vestes aqui ali esfarrapadas sem lavrador para as remendar
Nos píncaros dos montes quais mãos de criança uma ventoinha a girar
E descendo das encostas a serpentear ribeiras de prata sem obstáculos para as retardar
E vi semeadas por toda a paisagem aldeias de casa belas de muitas cores sem respiração ou ruído de gente a resfolegar.
E por caminhos solitários quem passasse para os aplanar
E sonhei com miragens que o tempo gravou e a memória acordou searas ao vento a ondular
Campos cobertos de verdura com uma ténue neblina do seu respirar,
Flores nas árvores com mil cores como andores de santos em procissões a desfilar
Bandos de pássaros em seu esvoaçar
Ouvi estampidos de foguetes no ar
E vi multidões nos campos e ruas correndo desordenadas para o mesmo lugar
E vi cores por toda a parte como manchas numa tela de quem a quer reabilitar.

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«Vivências a cor», de Alcínio

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