Casteleiro – Recordo coisas belas

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Gosto de voltar atrás no tempo e recordar como era a minha geração ali pelos anos 50 – e gosto de recontar algumas histórias que ouvia quando era «menino e moço» por aqueles vales e serras…

Tear

Tear

O que é que vestíamos quando éramos pequenos? Quem preparava as peças de roupa? Íamos ao alfaiate para as festividades. Antes da nossa geração, o linho era a solução para quase tudo…

O cultivo do linho
Havia linho na minha aldeia. As pessoas cultivavam-no.
Já no século XVIII tinha havido uma tinturaria (no Tinte, precisamente), a caminho de Catargalo e de Gralhais – nesse tempo ia-se por aí.
Como era o ciclo do linho?
Tudo começava pela sementeira. Depois a rega – o linho precisa de muita água.
Dava muito trabalho – dizem-me.
Como por exemplo: arrancar, levar para a ribeira para curtir, enterrado na água e tapado com areia durante quinze dias, estender na areia para secar em molhitos encostados uns aos outros, levar para casa… e aí outra série de tarefas infindáveis e duras, até à fiação e à feitura / costura das peças desejadas: lençóis, toalhas etc..
Logo para começar, era preciso bater o linho de forma bem forte, com uma maça própria, de madeira e durante muito tempo. Havia até quem passasse dias inteiros a bater o linho num passeio de pedra que lá havia ou num banco de pedra. Bater muito. Quase até à exaustão.
Segue-se outra operação dura: esfregar à mão para limpar até saírem as praganas todas.
Depois, o linho era espadelado – com um instrumento específico chamado mesmo espadela. Essa operação era feita contra um cortiço, mas, fazem-me notar, sem bater na cortiça para não partir o linho.
Havia teares da aldeia. Três ou quatro.
No tear, o fio de linho era manobrado com a ajuda de um pequeno instrumento oval comprido chamado «canela».
As peças de tecido de linho iam por fim para a ribeira durante mais alguns dias para corar ainda mais ao sol – tinham de ser sempre regadas permanentemente.
Só depois é que eram cortadas em casa para fazer as utilidades (roupa de cama e outra, as utilidades para a casa etc.).
Um dia escrevi mais isto:
Um pequeno registo sensitivo final: o cheirinho dos lençóis de linho daqueles tempos é inesquecível. Perdura uma vida inteira.

Antigas formas de trajar

Antigas formas de trajar

Estranha variedade de tecidos
Quando éramos pequenos, o Sr. Tó Pinto vendia os tecidos para tudo: para as nossas calças e para os vestidos das raparigas.
E havia, sobretudo para elas, apesar da pobreza geral, uma estranha variedade de tecidos à escolha. Eram muito variados. Os vestidos, as saias e as blusas, as calças e os casacos, as combinações com a sua rendinha obrigatória ou os saiotes podiam feitos decoisas como:
– riscado,
– crepe,
– organza,
– sarja,
– popeline,
– gargorina,
– flanela,
– vual de lã,
– jorgete,
– chita,
– cretone,
– piqué,
– chorrebeque,
– cotim,
– fazenda de lã,
– fazenda fina,
– tirilene,
– seda,
– nylon,
– fioco (mistura barata à base de lã),
– merino de algodão.
Não é estranha tanta fartura naqueles dias de dificuldades incríveis hoje?
E havia ainda, claro, o linho e a estopa.

Carro antigo

Carro antigo

Carros no Casteleiro de há um século
No Casteleiro houve automóveis muito cedo. Pelo menos dois com histórias populares bem engraçadas. Quem os tinha, não eram as pessoas do Povo: eram os senhores das terras: primeiro, o Dr. de Santo Amaro; depois, o Sr. António Mendes, da Quinta das Mimosas.
De facto, em 1905, o Morgado de Santo Amaro comprou um dos primeiros carros de Portugal e sem dúvida o primeiro da nossa região. Foi titular da primeira carta de condução do País, datada desse ano (1905). Foi obra…
Pouco depois, mete-se no carro e vai pela Europa fora (Europa sem estradas a sério…). Mas foi indo: atravessou a Espanha, a França, «subiu» e chegou à Flandres (Bélgica). Deixou de entender o que diziam: até ali, falavam-lhe espanhol e francês. Ali começaram a falar outra coisa (flamengo) e ele não entendia nada.
Por isso, voltou para casa…
E terá comentado (contava ele depois):
– Aqui me ladram, além me mordem.
E voltou.

Daquele outro grande lavrador, o Sr. António Mendes, e do seu carro conta-se também uma história que sempre me encantou. Vou resumir.
Estava-se nos anos 30 do século passado: há quase 0 anos, portanto.
Um dia foi à cidade (Guarda).
Aos zigue-zagues pelas estradas, como sempre, e o criado a ir à frente nas curvas, para mandar parar tudo o que mexesse para o senhor passar…
Uma viagem muito vivaça: Santo Amaro, Enguias, Carvalhal, Belmonte, cruzamento do Ginjal, Gonçalo, e por aí adiante, depois serra acima, serra abaixo, subida para a Guarda…
Entrada na cidade da Guarda. Nesses dias, o trânsito de automóveis era pouco ou quase nulo. Mas já havia sinaleiro, talve por causa exactamente da falta de habilidade dos «condutores».
Pois bem: quando o Sr. Mendes chegou ao pé do local onde estaria o sinaleiro e era suposta parar… não parou ou seja, quando o polícia mandou parar o Senhor António Mendes, o homem atrapalhou-se, não consegue parar o carro, desata a esbracejar para o polícia, grita para o criado que mande sair o sinaleiro.
O sinaleiro esbracejava para o mandar parar. O carro não pára. Avança para o estrado do polícia. Leva o polícia no «capot», vai direito à muralha em frente, o polícia dá aos braços a segurar-se com dificuldade.
Valeu que a velocidade era pouca, felizmente, e tudo acabou em bem: não houve feridos.
Mas houve troca de piropos.
Diz o polícia, a arrumar-se e a limpar-se:
– Que diabo é isto? O senhor não me viu?
Resposta pronta e tranquila do sr. António Mendes (que bem sabia que a ele nada podia acontecer naquele tempo):
– Eu vi, que diabo. E o senhor não me viu a mim? Por mais que o avisasse o senhor não me saía da frente, o que é que quer?
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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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