Casteleiro – O interior das casas antigas

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Há alguns anos que me sinto dominado pelo «habitat» das casas da minha infância. As pessoas com mais de 40 anos, de certeza que todas se lembram destes dois «enfeites» das nossas casas: o alçapão e o postigo. É a essas aberturas especiais que me dedico hoje outra vez… Gostei de revisitar estas escritas. Você também vai gostar de ler…

O postigo de uma casa antiga

O postigo de uma casa antiga

O postigo
O postigo era uma peça engraçada cuja utilidade só percebi já com a juventude a ir-se embora. Primeiro: os postigos da minha terra são diferentes de outros.
Os postigos ao que me parece são muito diferentes de terra para terra.
No Casteleiro, o postigo era uma meia porta: do meio da porta para baixo, havia outra portada. Mesmo que se abrisse a porta inteiriça, ficava sempre fechada aquela meia porta.
Para quê? Segurança? Não, na altura essa questão era completamente desconhecida nestas paragens. Mas tinha funções:
– arejar;
– iluminar;
– namorar…
São exemplos, claro.
Sobre estes namoros de postigo e de janela… há cantigas populares por estas terras acima até fartar.
Trago apenas dois exemplos.
Primeiro:
Ó Ferreiro, casa a filha,
Não a tenhas à janela,
Que anda aí um rapazinho
Que não tira os olhos dela.

Outro:
Eu quero namorar contigo
Da janela para o postigo,
Eu quero namorar com ela
Do postigo para a janela.

Casa com alçapão

Casa com alçapão

O alçapão
O alçapão não era mais do que isto: um caminho abreviado entre um piso e o outro.
O alçapão era fundamental nas casas em que existia.
O frio é muito, em certos meses, no Casteleiro. Isso, todos sabemos.
As casas dantes por norma tinham, não uma escada interior, mas um balcão por fora, para ligar os dois andares habituais (quase todas as casas tinham dois andares e muitas ainda um sótão). Em geral, em baixo são as lojas (para lenha, vinhos, produtos agrícolas etc.). Em cima, a habitação. No sótão, quando havia, mais arrumos.
Ora, no que se refere ao constante movimento entre a loja e a casa, a miudagem era particularmente «castigada». Era preciso cozinhar umas batatas, «Ó não sei quantos, vai lá buscar as batatas à loja». Era preciso queimar mais lenha, «Ó fulano, vai lá buscar uns cavaquinhos».
Claro que os adultos não eram poupados às viagens constantes entre os dois patamares…
Ora, é aí que entra o alçapão.
Muito mais frio se raparia se não houvesse essa passagem: um buraco quadrado de meio metro de lado ou pouco mais, uma escada quantas vezes bem tosca – e pronto, escusava de se ir à volta ela rua a perder mais tempo e a apanhar muito mais frio, muito mais.
É que naqueles dias de antanho ainda nevava no Casteleiro…
E, grande evento: este ano voltou a nevar – o que já não acontecia há anos e anos.
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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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