O Morto-Vivo

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

De um soldado da Primeira Grande Guerra, o Zé Cardosa, nasceu em 1921 um rapaz a que puseram o nome de Zé, como o pai, mantendo a tradição de, ao filho mais velho porem o nome do pai e à filha mais velha o nome da mãe, a ponto de, com nomes iguais, se confundirem nos registos paroquiais e não se saber quem é quem.

Quadrazais (foto de José Carlos Callixto)

Quadrazais (foto de José Carlos Callixto)

O Zé foi crescendo e chegou à idade de ir à Inspecção, data marcante para todos os mancebos que, durante uma semana, dançavam ao som da concertina.
Iam na véspera lavar-se na Ribeira, ritual que, para alguns, sabia a primeira vez. Nesse dia envergavam fato novo e calçavam caturnos bordadas às amêndoas pelas namoradas, privilégio só repetido na festa da Sant’Ófêmia, o feriado da aldeia, que todos guardavam como feriado nacional.
O nosso Zé esperou que o pai lhe comprasse um fato novo, como era tradição, que o próprio o não ganhava nas lides do contrabando ou nas jornas para algum empregador.
Não é que fosse malandro no trabalho. Mas o Zé não trabalhava para terceiros e não tinha sido iniciado no contrabando. Trabalhava nos campos dos pais, trabalho que não era remunerado, pois entendiam os progenitores, que gastavam tanto em dar de comer aos filhos, que tinham o direito a ressarcir-se dos gastos. Esta a razão por que tinham de ser os pais a comprar-lhe roupa e calçado.
Aproximava-se o dia festivo e de fato novo não havia conversa nem indícios.
Mas o Zé entendeu que tinha direito a um fato novo. Como? Magicou, e tanto puxou pela cabeça que a solução surgiu.
Conhecedor da tradição, talvez herdada de judeus, que vestiam os mortos com fato e sapatos a estrear, pondo alfaiates e sapateiros a dar-lhes prioridade no trabalho, o Zé, aproveitando uma saída dos pais, estende-se no meio da sala, fingindo-se morto.
Chega a mãe e, vendo-o assim estendido, manda-o levantar-se, com palavras acres contra aquele preparo. Do Zé não há resposta. Vai dar-lhe um empurrão com novas ordens de:
– Levanta-te daí.
Sem efeito. Vem-lhe a ideia de que poderia estar morto. Chama-o uma e outra vez, aflita. Sem resposta. Chega o pai, que o empurra com as botas que trouxera da tropa. Nada. A mãe desata em gritaria:
– Ai filho! Quem m’acode! O Zé ‘stá morto!
Acode a vizinhança.
Atão qu’aconteceu?
– O Zé ‘stá ali morto. Qu’há-de ser de mim? Ai filho!
O Zé aguenta tudo sem tugir nem mugir, sem um piscar de olhos ou qualquer gesto que o denunciasse.
Já os vizinhos davam os seus palpites.
– Teria sido mal disto ó daquilo. Não tinha antes sinais de doença?
– Mas o rapaz ficou na cama quando saímos e à noite não se queixou de nada!-respondia a mãe dolorosa.
– Seria ataque? Maleitas? Ar que lhe deu? Coisa que bebeu? Bicho que lhe mordeu?
Fosse o que fosse, o Zé estava morto. Era preciso mandar tocar os sinos, preparar a sala com a candeia e toalha branca dos mortos, ir buscar água benta à igreja e, sobretudo, mandar fazer um fato preto novo ao ti Zé Vinhas, ali tão perto, uns sapatos pretos ao ti Carrapatinho e um caixão ao Rambóia.
Não se lembrou a mãe ou o pai de fazer o teste usado no Vidalegre pela mulher Zabel do Papo ou Zabel do Boi. Desmaiara ou tivera um ataque o marido, já coxo, nas suas terras do Vale da Maria, onde estava a trabalhar com a mulher e outros homens.
Aflita, a mulher começa a gritar:
– Quem me acode! Ai home!
Mas lembrou-se de se certificar se estava ou não morto. Desaperta-lhe a berguilha e toca-lhe no bicho. Este não reagiu, sinal de que estava morto. E morto o trouxeram num cavalo.
O Zé Cardosa fingiu bem. Mas estou certo que se lhe tivessem aplicado o mesmo teste, o bicho não resistiria e o Zé Cardosa não poderia fingir mais tempo.
Assim, na aldeia era a desolação.
– Ora ela, quem havia de dizer?! Um rapaz tão forte e morrer-se sem mais aquela! Os quintos já viam a festa estragada, sem poder balhar por guardar luto.
Vem o alfaiate com o fato e o sapateiro com os sapatos. Já os carpinteiros estavam a caminho de casa com o caixão pronto.
Instalam o caixão no meio da sala em riba de dois bancos atravessados. Redobram os gritos da mãe e das mulheres sempre prontas a descobrir virtudes nos defuntos, que enunciavam em altas vozes, entre soluços chorosos. O pai, com a ajuda de um amigo, arrasta o filho para um recanto onde um caldeiro com água morna servirá de banheira para lavar o Zé, que já não irá ao ritual do banho na Ribeira. Vestido a rigor, lá o colocam no caixão.
O Zé, rapaz de coragem, nem um movimento ou pestanejo que o denunciasse.
Estava morto, pois morto se fingiria!
Com a sala vazia por momentos, espreita o Zé, levanta a cabeça e prepara-se para saltar do caixão, que a fome já apertava. Assoma a mãe à porta.
– Ai Zé que enviveu!
E abraça-o de contente.
Vêm outras mulheres ver o milagre. O pai desconfia desta ressurreição. Vê o filho de fato e sapatos novos e palpita a marosca. De cinto em riste, o Zé apara a primeira cinturada.
– Tudo bem, mas o fato já cá canta! Já posso ir à inspecção como os outros.
Apurado, esperado ou livre, a fita vermelha, verde ou branca assentar-lhe-ia que nem um cravo na lapela do casaco novo. Trabalharia um pouco mais para pagar estes gastos aos pais, que corpo tinha ele para ganhar bem a vida. Por isso ficara apurado para a vida militar, que cumpriu em Mafra juntamente com o Valhé Panto. Quem era capaz de retirar da carga um saco de cem quilos e colocá-lo debaixo de um braço e fazer outro tanto para debaixo do outro braço e transportar os dois sacos para a loje onde os assentava, é homem para arrancar cepas com o enxadão ou cavar poças para plantar castanheiros.
E génio também não lhe faltava. Assim o mostrou um dia em que a burra lhe caiu no caminho pedregoso do Soito, fosse porque tropeçasse ou porque ia demasiado carregada. O Zé insultou-a com toda a ladainha que conhecia e pontapeou-a bastas vezes, Mas como a burra se não levantasse:
Macago na puta madre!
Pega-lhe com os dentes no pescoço e com os braços por debaixo da barriga e: ó burra, que tens de te pôr em pé! E ela lá se levantou e continuou o caminho.
É este Zé que irá calcorrear as estradas do Alentejo, primeiro com um cavalo carregado de fazenda portuguesa, com uma ou outra peça espanhola escondida entre aquela, gritando às portas dos possíveis clientes:
– Barato, fino!
A vida, com muitos sacrifícios, ia medrando. Estava pronto a formar família. Casou-se com a prima Palmira, filha do tio Manel Fracisco, ambulante de carroça.
Foi este que, ao ouvir o seu nome para mordomo do Senhor, ao que julgo, nomeado pelo padre na igreja em último lugar se saiu com esta:
– Pois, por ser o último, não aceito!
O cavalo do Zé Cardosa fora trocado por uma mula que puxava uma carroça. Assim transportaria cinco vezes mais fazenda e a vida podia subir mais depressa.
Mas aquilo não era vida para ele. Era ambicioso. Queria viver melhor que o sogro, que o iniciara nesta vida de ambulante, e que tantos outros ambulantes que não saíram da cepa torta, apesar de só virem a casa uma ou duas vezes por ano, sempre gritando: barato, fino!
Alguns até tiveram de vender terrenos para pagar aos fornecedores e outros ficaram caloteiros. Ele não queria aquela vida dos que na terra tinham por ricos, mas que para poucos era de remedeio.
No Alentejo encontrara-se com ourives ambulantes, que apenas transportavam uma caixa de ouro numa bicicleta. Não precisavam de comida para a mula, nem sempre fácil de arranjar, nem de estalagem para a mula e para guardar a carroça, nem descarregar a fazenda para a tornar a carregar na manhã do dia seguinte.
Que diabo! A bicicleta sempre andava mais depressa que a mula.
Mete mãos à obra. Vende a carroça e a mula e mete-se a ourives pelas mesmas terras onde vendera fazenda. Sempre tinha já uns clientes que poderiam também comprar oiro!
Dessa actividade sobrou-lhe um relógio de marca Argus com que presenteou o seu falso afilhado, que lhe chamava padrinho e como tal o estimava, e que ostentei no pulso, como primeiro, durante muitos anos, até que, velhinho, foi acabar os seus dias como brinquedo do meu sobrinho Tijó.
Mas esta vida também não o satisfazia. Alguém lhe falou em Angola.
– Isso! Emigrar.
Lá partiu para Carmona, onde fez vida com uma roça de café. Até que os mentores da descolonização exemplar, eufemismo de descolonização de qualquer maneira com que os comunistas e quejandos enganaram papalvos e quiseram fazer o mesmo aos restantes portugueses, o fizeram fugir, abandonando o produto de anos de trabalho, regressando à terra que o viu nascer.
Mas, homens como o Zé Cardosa, não se deixam abater. Há que continuar.
Com o pouco que trouxe, associa-se ao Simão Bicheiro a quem ele dera carta de chamada para Angola, com quem, também regressado, reinicia a vida de comerciante, desta vez com um comércio de mercearia e bugigangas no Sabugal.
Pelos setenta e cinco anos, perdida a companheira Palmira, acaba com a sociedade.
Refugia-se na sua casa de Quadrazais.
Sozinho, com os dois filhos longe, ingressa no Lar de Santa Eufêmia onde, com 94 anos, faleceu no Verão de 2015, apesar de permanecer lúcido e sem grandes mazelas, para além de moclino, com a caixa da música já avariada há longos anos.
Aí esperou que os sinos tocassem a dobrar por ele e alguém perguntasse:
– Quem se m’rrariê?
Mas, desta vez, seria a sério!

Notas:
Caturnos
– meias de algodão de homem.
Enviver – ressuscitar.
Apurado – aprovado para a o serviço militar.
Esperado – terá de voltar no ano seguinte à inspecção militar.
Moclino – mouco.
M’rrariê – morreria.

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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

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