Sabor das palavras que contam

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Neste interior encostado à Estrela a primavera tem-se feito anunciar em períodos revezados de três dias. Nos três dias de carnaval a chuva entremeou-se com sol. Seguiram-se mais três dias de neve que precederam outros tantos de sol que alternaram com mais três de chuva até chegar ao dia de hoje em que um sol que foi de quase verão ameaça ser substituído pela inoportunidade da chuva tardia ou, quiçá, pela extemporaneidade da neve às portas da primavera.

O chão contiguo da Serra, onde a natureza se renova

O chão contiguo da Serra, onde a natureza se renova

Do carnaval apagam-se, agora, os sons e as imagens de festanças disfarçadas. Sobram os paladares dos petiscos tradicionais e o sabor das palavras que os contam. Desgostou-se o bucho encarnado e engrelado de verde. Descarnaram-se os ossos do espinhaço e acompanharam-se com batata farinhenta. Experimentou-se a morcela e houve, até, quem conseguisse comê-la doce. Torrou-se a farinheira que a brasa empertigou. Bebeu-se o tinto que a geada avinhou.
Recordaram-se mocidades mais distantes e espicaçaram-se juventudes mais recentes. Assim se mantém a esperança acreditando que atrás deste tempo outro tempo virá e que a tradição não sucumbirá por enjeitamento.
Não obstante, a Serra, na sua mutabilidade, vai fazendo um caminho que se eterniza em repetições anuais. Recebeu todas as neves, todas as chuvas, todos os sóis e, por agora, sobreleva-se, em fundo verde, cevando os cabritos que a páscoa sacrificará. Não declina a impetuosidade nem abdica de nenhuma das suas missões seguindo por dentro do ano, verdoenga, até que o estio a amareleje ou o sol a faça loira.
Enquanto isto pairam no ar sensacionalismos uns mais de perto, outros mais de longe. Alguns representantes dos media seguem sem que se lhes vislumbre notável mudança, insistindo na transmissão de casos inesperados e emotivos capazes de comover qualquer pacato cidadão. Em matéria de assombro vejo essa comunicação como legitima sucessora da panfletagem musicada que, em tempos, susteve as velhas canções do ceguinho.
Remoendo tal sorte de pensamentos não consigo evitar um suspiro temperado de amargor já que a alegria nem sempre convive com toadas emotivas. Falo de azedume não assinalando culpados. Tão só sublinho realidades.
E assim se vai vivendo neste interior onde cada vez menos gente povoa o chão contiguo da Serra e onde a natureza se renova sem grandes mutilações apesar de muitas outras mudanças se quedarem perante o esgotar de um tempo que ninguém sabe ao certo para onde irá escoar.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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