Manuel Leal Freire – um homem do povo

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

Na homenagem promovida pela Confraria do Queijo Serra da Estrela a Manuel Leal Freire, deixámos uma mensagem que procurou enaltecer o que caracteriza o poeta raiano – um homem que veio do povo e que se sente bem junto à sua gente.

Manuel Leal Freire é nome grande da nossa cultura

Manuel Leal Freire é nome grande da nossa cultura

Manuel Leal Freire é, podemos afirmá-lo com toda a propriedade, um homem do povo. Aliás, a melhor e mais reveladora imagem de quem é Manuel Leal Freire, foi-nos legada pelo filósofo seu conterrâneo da raia sabugalense, Pinharanda Gomes:
«Ele imerge no povo e molha-se todo».

O jovem raiano
Nasceu na Bismula, em 1928, no seio de família de pequenos proprietários rurais. Da família Leal saiu uma distinta prole de professores, sacerdotes, médicos, oficiais do exército, advogados, e outras ocupações qualificadas…
Filho de guarda fiscal, passou a meninice transitando entre as aldeias da primeira linha de fronteira onde o pai exercia serviço, e a terra natal, onde amiudadamente a família se deslocava.
Ainda na tenra idade percebeu que na raia de desenrolava quotidianamente um jogo do gato e do rato, que amiúde redundava em drama: o contrabando. De um lado os que vigiavam a fronteira, tentando impedir que as mercadorias circulassem entre os dois países sem pagamento dos direitos alfandegários. Do outro os muitos populares que, querendo melhorar a sua vida, praticavam o comércio transfronteiriço, desafiando proibições e enfrentando os perigos da prisão, da apreensão das cargas ou até da morte a tiro.
Mau grado a actividade do pai, impoluto defensor da lei e cumpridor do dever, o jovem Manuel depressa tomou um partido: o dos contrabandistas. É que na Bismula e demais terras raianas o contrabando era delito mas não era pecado, e essa actividade era afinal a tábua de salvação para boa parte dos pais dos amigos com que Manuel Leal Freire convivia. Aliás, o contrabandista era o verdadeiro herói destas terras agrestes. Ele era o percursor dos que mais tarde, de fato e gravata e nas mais altas instâncias, defenderiam o livre-trânsito das mercadorias. O Contrabandista, cantado na poesia de Manuel Leal Freire, lutava já naquele tempo pelo que se conseguiria muitas décadas depois – a União Económica entre os países europeus e o consequente comércio livre.
Rapaz arguto e com assinalável compleição física, numa terra em que, ao tempo, os jovens eram de estatura meã, Manuel foi precocemente aceite na Confraria dos Solteiros. Também chamada Ronda, a Confraria era uma reminiscência das antiquíssimas milícias populares, quando os povos tinham que resguardar-se de eventuais investidas militares inimigas.
Paga a cantarada da regra, foi na Confraria, por entre os outros jovens aldeanos, que se impôs como pessoa cordata, inteligente e muito dada à convivência. Conheceu os caminhos da noite, na terra e nas aldeias vizinhas, participou nas contendas, apaziguou as iras, praticou os costumes e cimentou o espírito de entreajuda e de camaradagem. Na Quaresma, altura em que a Ronda tinha que garantir o respeito pelo recolhimento, ele era quem dirigia os famosos martírios, fruto da sua capacidade para memorizar e dizer de cor toda a longa ladainha que era requerida nessa função nocturna, transformada em sons guturais que ecoavam na noite escura e fria.

Os estudos e a profissão
Saindo da aldeia natal, frequentou o Seminário do Fundão e tirou depois o curso do Magistério, na Guarda.
Regressou à sua aldeia como professor primário, mas foi sol de pouca dura, pois em breve voltou a partir para prosseguir os estudos.
Frequentou a Universidade de Coimbra, onde foi aluno distinto, tendo concluído duas licenciaturas: Filologia Clássica e Direito.
Já formado, regressou à Guarda, onde foi secretário do governador civil, e rumou depois a Castelo Branco, onde exerceu funções de técnico superior da Administração Pública.
Sentindo porém forte atracção pelas ciências jurídicas, acabou por se instalar no Porto como advogado, abrindo escritório próprio. Numa caminhada segura e serena, o Dr Leal Freire tornou-se num causídico prestigiado, com empenhamento meritório em grandes causas forenses.
Para além da advocacia, dedicou-se a outras causas, de entre elas a da docência, tendo sido professor dos quatro graus de ensino (primário, secundário, médio e superior).

O poeta e o escritor
Leitor inveterado e profundo conhecedor da obra dos maiores autores da nossa literatura, também ele se sentiu tocado pela veia da escrita, colaborando em diversos jornais, de âmbito nacional e regional, e escrevendo e publicando livros de diversas temáticas.
Atento à evolução política do país, integrou a corrente de pensamento designada por «integralismo lusitano», desenvolvendo reflexões acerca do destino pátrio que o levariam a publicar os livros de ensaio Na Segunda Hora Portuguesa (1966) e Cartas Políticas (1968).
Empenhado ideólogo e publicista, dirigiu e manteve, com Fernando Araújo de Barros, o mensário portuense A Palavra, de forte cariz nacionalista.
Na vertente histórica, publicou, de entre outros trabalhos, Pêro da Covilhã (1964), livro biográfico, e As Misericórdias na História.
No campo da poesia, as suas obras de referência são Pátria, Mátria, Terra Patrum e Sementes na Rocha Nua (1971).
Na área jurídica, publicou também alguns trabalhos de prestígio. De entre eles, As Misericórdias e as IPSS em Geral, na Legislação, na Jurisprudência e na Prática Administrativa (1995), obra que espelha a sua profunda ligação às Misericórdias, nomeadamente à do Porto, de que chegou a ser provedor, realizando um notável trabalho de renovação e afirmação da instituição.
Mas a maior obra de Manuel Leal Freire está, sem margem para dúvidas, na vertente etnográfica, a que dedicou vastos escritos publicados em variados órgãos da imprensa regional. Para além da publicação regular de artigos de sabor etnográfico em inúmeros jornais nacional, regionais e associativos, escreveu o livro Por Terras do Sabugal, publicado em 1969, que se tornou numa referência, ao reunir os aspectos essenciais da cultura popular vivenciada nas aldeias da raia sabugalense. Ainda neste âmbito publicou dois livros de contos, onde a ficção e a realidade das suas vivências de juventude se misturam com a descrição dos usos e dos costumes do povo raiano, falamos de Ribacôa em Contra Luz (1996) e em Contrabando, Delito mas não Pecado (2001), que, no campo da Etnografia, emparceiram com os seus livros de poemas Coração Poeta (1976) e Cantigas da Pátria Chica (1996), que são valiosas recolhas da poesia popular raiana.
Aliás, sobre a sua criação poética, de forte sabor popular, voltamos a Pinharanda Gomes:
Nele «não há poesia-artifício. O ritmo brota do sangue, através das pedras e das árvores, e dos abrolhos. Ele recua o ritmo e as imagens até às origens do povo, ele recria com o povo».

Uma homenagem merecida

Uma homenagem merecida

Sempre com o povo
Ainda que sendo advogado prestigiado, professor, jurisconsulto e escritor consagrado, Manuel Leal Freire nunca deixou de visitar as suas terras de origem, onde ia amiudadamente e onde sempre imergia no povo. Querendo encontrá-lo, não valia a pena procurá-lo em casa. Os dias em que estava na aldeia frequentava a taberna, a adega, o mercado, a sombra do adro, a festa e o convívio. Onde estivesse o povo ele estanciava também, falando o charro, ouvindo e contando histórias antigas, declamando quadras à desgarrada, bebendo e comendo com os muitos amigos que tinha em toda aquela corda de povos de Portugal e de Espanha.
Senhor de uma invulgar capacidade de memorização, ele apreende o que lê e o que ouve. Detém um saber enciclopédico, fenomenal, que nos deixa boquiabertos.
O seu primo padre Manuel Leal Fernandes, que o visitou na Quinta de Santo António em Gouveia, onde passava tempos de retiro e de simbiose com a natureza, testemunhou como ele se agarrava à máquina de escrever para preparar de um fôlego os artigos destinados à sua colaboração em diversos jornais. Citamos o que escreveu esse parente que assim o observou:
«Quadras populares ou de grandes poetas, citações de romancistas ou de filósofos, factos históricos e suas datas, tudo lhe sai ao bater da máquina, numa prodigiosa espontaneidade, como o fluir claro e sereno da água da ribeira, a pouca distância».

Um homem de causas
Terminamos referindo o seu contributo para a defesa e a valorização dessa iguaria gastronómica que é o Queijo Serra da Estrela, preparado a partir do leite da ovelha bordaleira, apascentada na serra, onde o pastor e o inseparável cão as guardam. Apreciador dos bons sabores da gastronomia portuguesa, Manuel Leal Freire dedicou textos em prosa e em verso a esse grande queijo dos Hermínios, um dos melhores do mundo, que emparceira com o Queso de Cantábria e com outros de renome, tendo em relação a todos o facto de ser puro e artesanal, provindo do leite que «passou da ferrada para o acincho, donde apertado pelas sábias mãos da roupeira, saltou para a loja, onde por quarenta dias as mesmas mãos o limparam, viraram e reviraram…».
Foi um dos percursores do movimento confrádico da gastronomia portuguesa, desde logo aderindo ao projecto da Confraria do Queijo Serra da Estrela e estando também na génese da formação da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas.

Manuel Leal Freire é pois nome grande da nossa cultura, dos maiores escritores da Beira, mas homem que se manteve sempre ligado ao povo raiano.
Mau grado a sua dedicação ao estudo e à leitura, podemos afirmar o seu maior saber adveio afinal do abundante e continuado convívio com as suas gentes.
Em boa hora a Confraria do Queijo Serra da Estrela decidiu homenagear este homem do povo e em melhor hora nós, que também somos povo, reunimos aqui para o testemunhar.
Oliveira do Hospital, 11 de Março de 2017
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«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista
leitaobatista@gmail.com

One Response to Manuel Leal Freire – um homem do povo

  1. António Alves Fernandes diz:

    Texto completo que retrata a vida e obra de um GIGANTE da cultura, da literatura e da poesia portuguesa,

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