Casteleiro – Presto as minhas homenagens

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Nesta crónica, basicamente, várias homenagens: uma aos heróis que precederam o 25 de Abri, aqueles que a 16 de Março de 74 tentaram derrubar Marcello a partir das Caldas da rainha; outra aos companheiros que procuram manter a tradição do Bucho Raiano – e de caminho, como que a talhe de foice, ao Restaurante Casa da Esquila que no Casteleiro recebeu a Confraria com todas as honras – já sei; e, finalmente, hoje apeteceu-me prestar aqui a minha homenagem singela a uma família de artistas de há 60 anos e que muitas vezes vinham ao Casteleiro: Delfim Pedro Paixão e a sua Troupe.

A Confraria do Bucho Raiano no Casteleiro

A Confraria do Bucho Raiano no Casteleiro

Há semanas assim: são os dias de honrar tradições, movimentos e pessoas. É o caso. Juntei nesta crónica várias das situações que apelam para a nossa sensibilidade em vários domínios.
Quando assim é, mistura-se tudo cá dentro: a emoção, a razão, a alegria e a tristeza. Tempos idos, tempos passados.
Somos o que fomos. Seremos o que somos.
Todos o sabemos.
Quem merece um elogio, deve ser elogiado.

Convívio do Bucho Raiano
Há uns dias, a Confraria do Bucho Raiano foi principescamente recebida na minha aldeia – já o sei. O restaurante da terra prima nestas e noutras coisas. É bom deixar também isso registado para memória futura. Pode ver as imagens todas da festa do bucho aqui, num vídeo da própria Casa da Esquila, pois claro.

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As brincadeiras dos miúdos
Quando eu era criança, a aldeia estava sempre cheia dos gritos e das brincadeiras da miudagem.
Hoje, sabemos que não é assim.
Mas há 60 anos… até a ida e saída da escola era uma festa…
As raparigas da nossa idade tinham lá as suas bonecas com as quais se entretinham horas e horas e na rua brincavam às danças de roda. Também as víamos a jogar em quadrados desenhados no chão, saltando ao pé-coxinho alternadamente de quadrado em quadrado. Acho que lhe chamavam o jogo do «mata». E jogavam à corda e ao «Ti Limão».
Nós, os rapazes, jogávamos ao pião, corríamos a aldeia de alto a baixo com o arco, íamos para o olival atrás do Sr. Tó Pinto e do Sr. José Mourinha brincar aos canais com regos de água que não sei de onde vinham e com represas de onde «canalizávamos» a água através de gargalos de garrafas partidas. As garrafas dos pirolitos davam ainda os berlindes para jogarmos a tarde inteira se preciso fosse.
Ah! E jogávamos muito à «tchôna»: um pau grande, um pauzinho pequeno (esse é que era a «tchôna»), duas pedras com um intervalito de uma mão fechada entre elas. Em volta das pedras, uma roda de um passo. Punha-se a tchôna em cima das pedras. Com o pau grande (era a «belharda»), deitava-se ao ar até pouca altura e daí, mandava-se-lhe uma trancada valente para o mais longe possível. O adversário tinha de atirar a tchôna para dentro da roda… etc. Encontrei as regras aqui.
A ribeira era naturalmente uma atracção irresistível: andava-se lá a tomar banho toda a tarde em grupos de três ou quatro.
Mas o futebol ou lá o que aquilo era – isso, sim, era o máximo. Podíamos andar quatro ou cinco horas a jogar que ninguém se cansava. Qualquer largo de terra batida nos servia mas o «campo» propriamente dito era no largo em frente do Lar, ao pé da padaria desse tempo.

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As comédias vinham à aldeia
Quando havia comédias, era uma alegria.
As comédias eram trazidas pelo «Delfim e a sua Troupe», incluindo a mulher, Maria Estrela. A maior parte das vezes, «acampavam» nos «Italianos», onde eu, um dia, fiz um mural gigantesco, na parede exterior, com carvão – deve ter sido um dos primeiros «grafittis» do País!!! Esse mural, que nunca nenhum adulto teve a boa ideia de fotografar antes da demolição dos fornos, continha o desenho de um autocarro (a carripana do Delfim parecia-me enorme – devia ser uma carrinha parecida com a da foto… e desculpem ter lá inserido a homenagem ao Delfim, meu herói de infância). Volto ao meu «graffito»: nas portas do autocarro, na tal parede, desenhei também uma legenda: «Companhia Delfim Pedro Paixão / Comédias e Trapézio»). Penso que, sem pensar nisso, era já uma prova do meu apreço pela «Companhia» dele. Não faço ideia de que idade teria quando fiz aquilo, mas lembro-me de que os meus tios e os amigos acharam imensa piada e a coisa ficou por lá anos na parede lisa dos fornos.

Nota – Efeméride
Passa dentro de dias o aniversário da primeira grande tentativa de tomar o poder e derrubar o Estado Novo.
Foi a 16 de Março.
Visto hoje, e na altura visto de Cabinda onde prestava serviço militar, apenas ficou nos nossos cérebros uma pequena mancha. Pequena mas importante.
Presto aqui a minha homenagem aos valentes das Caldas da rainha que tentaram.
«O Levantamento das Caldas, também referido como Intentona das Caldas, Revolta das Caldas ou Golpe das Caldas, foi uma tentativa de golpe de Estado frustrada, ocorrida em 16 de Março de 1974, em Portugal» – pode ler-se algures na net sobre esse dia…

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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