Pela cultura popular

Jesué Pinharanda Gomes - Carta Dominical - © Capeia Arraiana

A imprensa cultural com origem nas regiões para além da capital constitui uma realidade a vários títulos interessante e, todavia, é raro vê-la noticiada ou apenas recensionada nos massivos meios da comunicação social.

O Mensário foi mestre da cultura e da portugalidade

O Mensário foi mestre da cultura e da portugalidade

Revistas ou colectâneas de estudos publicadas por Municípios ou por associações dedicadas ao estudo dos costumes e valores locais, preenchem um elenco que parece já não ser tão extenso como fora outrora. Neste elenco não contamos com publicações de âmbito nacional, apesar de localizada origem (vejamos a Revista Lusitana de Filosofia, Braga, ou a Humanística e Teologia, Porto, a Biblos, de Coimbra, entre outras…) mas apenas as de situado âmbito, em que lamentamos o desaparecimento da Gil Vicente (Guimarães) ou de O Tripeiro (Porto). Numa listagem que não cabe neste espaço, citamos Brigantia (Bragança), Beira Alta (Viseu), Ebvrobriga (Fundão), Estudos de Castelo Branco, Boletim da Póvoa de Varzim, Aqua Flaviae (Chaves), Almansour (Montemor-o-Novo), Sabucal (Sabugal) e Praça Velha (Guarda), a mero título de exemplo. Um elenco exaustivo, pelo menos até 1961, pode ser verificado no já desactualizado «Repertório das Publicações Periódicas», editado pela Biblioteca Nacional.
Sem saudosismo patológico, parece-nos bem neste momento evocar uma publicação dedicada à pesquisa e divulgação da cultura popular e regional: o Mensário das Casas do Povo (propriedade da respectiva Junta Central daquelas Casas) que se publicou desde o mês de Julho de 1946 até ao mês de Dezembro de 1971, num total de 306 números, com a média de 24 páginas A4 por número.
O primeiro grupo de trabalho foi constituído pelo Dr. Mário Madeira (falecido em 1985), e por duas personalidades de cultura: o Dr. Álvaro Ribeiro (falecido em 1981), na qualidade de Editor (era também, de facto, o principal redactor) e o artista plástico e etnógrafo Manuel Couto Viana (falecido em 1970), responsável pela orientação artística e gráfica, que é um dos aspectos valiosos da revista. Este grupo manteve-se até à extinção do mensário, exceptuando os casos do cargo de Director que foi assumido pelo Dr. Cid Proença desde 1949, e de Manuel Couto Viana, falecido uns poucos meses antes da revista ser extinta.

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A colecção integral pode ser consultada na Biblioteca Nacional (cota J4412B) e talvez na Hemeroteca Municipal de Lisboa, pois terá sido incerta a sua preservação pelas Casas do Povo espalhadas pelas províncias.
Na altura em que a publicação chegou ao fim, o Dr. Álvaro Ribeiro, previamente autorizado, ofereceu-nos uma colecção completa que mandámos encadernar em cinco pesados volumes (1946-1950, 1951-1955, 1956-1960, 1961-1966, 1967-1971). Houve o cuidado de os responsáveis terem editado um Índice da Colaboração publicada nos 306 números. O Índice está organizado por ordem alfabética de autores e, sob o nome de cada um dos títulos da colaboração. Colocámos este Índice no início do 1º volume que tem o nosso nome da cidade do Sabugal – poucas colecções completas como esta existirão.
O Mensário itinerou por vários endereços na capital, conforme a mobilidade da Junta das Casas do Povo. Começou na Rua Gomes Freire, no nº 98 (talvez fosse este o motivo para Álvaro Ribeiro alugar casa ali perto), seguiu para a Avenida Duque d’Ávila, nº 169-3º, depois no edifício do Ministério das Corporações, na Praça de Londres, nº 2, 14º andar, e, por fim, na Rua Joaquim Bonifácio, nº 8-3º. Lembra-nos que colaborámos a primeira vez no Mensário em 1964, quando sedeava na Duque d’Ávila, e que fomos levantar a colecção que nos foi ofertada na Rua Joaquim Bonifácio. De tão pesado volume recorremos ao serviço de um táxi.
A Junta Central das Casas do Povo foi instituída pelo Decreto-Lei nº 34.34373, de 10/01/1945. O primeiro presidente foi o Dr. António Júlio de Castro Fernandes, a quem se deveu a contratação de Álvaro Ribeiro e Couto Viana. Aquele, licenciado em Filosofia pela antiga Faculdade de Letras do Porto, com fama de anarquista e um pouco tartamudo, não conseguia trabalho condigno, sobrevivendo à custa de ocupações inferiores à sua formação, no Fundo de Desemprego e na Câmara de Lisboa. Ficou grato a Castro Fernandes, a quem dedicou o livro Sampaio (Bruno), editado em 1947, em reconhecimento por o ter ajudado a ganhar honestamente o pão de cada dia. Acerca deste pensador sugerimos a leitura de «Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa» (1995) escrito por vários autores. Couto Viana abandonou o curso de Engenharia que desejava prosseguir na Alemanha, participou na I Grande Guerra, foi artista plástico de muito bom gosto, escritor, e pai de Maria Manuela (poetisa), de António Manuel Couto Viana (poeta) e de Maria Adelaide, uma senhora muito bonita, minhota pura.
António Manuel compilou os escritos do pai em dois volumes, sob o título Ferro Velho. Memórias e estudos (1990) e, no segundo volume transcreveu o artigo intitulado «Um dos Nossos», incluído no Mensário (nº 295, Janeiro de 1971), em que o falecido orientador gráfico era evocado. António Manuel incluiu este texto no 2º volume do Ferro Velho, atribuindo-o a Álvaro Ribeiro. No entanto o artigo não é dele que, aliás, quando o colega faleceu se encontrava doente, pelo que o artigo só podia ser do Dr. Cid Proença. Elucidado, António Manuel procedeu à correcção.

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O que movia o Mensário?
A resposta acha-se no artigo de abertura, ainda assinado pelo Dr. Castro Fernandes: «não será um seco boletim». Será um veículo formativo para o povo e para os dirigentes do mundo rural. Há-de preservar as aldeias e os campos do cosmopolitismo inovador. Enumera e salienta a necessidade de prestar atenção aos valores artísticos, trajes, pequenas indústrias artesanais, cantares, músicas, literatura oral, etc., próprios das aldeias. Em suma, «escutar a gente do povo». Amava-se a interioridade, que ninguém esperava viesse a ser um deserto.
O sentido rural é tónico de toda a vida do Mensário, a começar pelas ilustrações, assinadas por diversos artistas (Juan Soutullo, neto de Couto Viana, Maria Helena, Barata Moura, Couto Viana, etc.), na capa do 1º número, uma bonita e jovem lavradeira minhota a guiar as juntas de vacas atreladas a um carro de bois, carregado, no regresso de uma lide campestre.
A documentação oficial poucas páginas ocupava, registando a legislação institucional, havendo também lugar para o recreio – jogos, palavras cruzadas, adivinhas… tudo o mais sendo preenchido por estudos de carácter cultural e etnográfico, estudos esses elaborados com o conhecimento directo das fontes, por via de regra por autores de lá naturais. Por isso, no Mensário podemos ler textos relativos a linguística, legendário, hagiografia, economia, agronomia, sociologia, gastronomia, vestuário, teatro, rifoneiro, ciclos festivos e romarias, cancioneiro, poesia popular, educação feminina, pedagogia familiar, direitos das mulheres, etc. etc. uma secção memorável foi a «Antologia Rural» em que, em cada número se transcrevia um texto de autor consagrado sobre as paisagens e as vidas do mundo rural, deste modo promovendo o gosto pela leitura dos nossos escritores, em páginas de oiro.
O elenco de autores consta do Índice Geral, mas, a título de exemplo, citamos uns poucos, a esmo: Amorim Girão (geografia), Adriana Rodrigues (educação social), António Mourinho (costumes transmontanos com danças e cantares), Luís Chaves (etnografia e artesanato), José Manuel Landeiro, de Penamacor (que assinou o mais extenso rol de festas do Espírito Santo em todas as regiões nacionais, que bem mereciam ser compiladas em volume), Azinhal Abelho (teatro popular), Francisco Ventura (peças teatrais para usos dos serões nas Casas do Povo), F. Falcão Machado (extenso e contínuo rifoneiro popular), Fernando da Silva Correia, médico com raízes na Ruvina (Sabugal) que assinava artigos de higiene e saúde com o pseudónimo «Velho Galeno», e, sem dúvida, devido a autor anónimo, o registo do cancioneiro popular, com ênfase para as quadras, suas origens e formas. Enfim, um mundo de saber, talvez que o Mensário seja a maior enciclopédia portuguesa de cultural popular/ rural.
No que à região do Sabugal respeita, apenas identificámos os artigos de Virgílio Afonso e os do autor destas linhas acerca de Quadrazais e de outros temas reunidos mais tarde no volume Práticas de Etnografia (1964).
A revista expirou ao nº 306. Cid Proença teceu o responsório final. Um «pós-escrito» percorrido por sensível desencanto, mas seguro de ter sido um «réu confesso e impenitente» das Casas do Povo.
Podem ter existido várias publicações etnológicas, mas, a nosso ver, nenhuma se compara à extensão e variedade do conteúdo das sete mil e trezentas e tantas páginas do Mensário, que foi mestre da cultura, da lusofonia e da portugalidade provincianda das serras para as cidades. A Capeia é já um serviço equivalente.
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«Carta Dominical», Pinharanda Gomes

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