Galramentos entre códrazenhos (5)

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Galramentos entre códrazenhos – Franklim Costa Braga publica neste espaço dedicado à sua terra natal várias conversas de quadrazenhos em Gíria, com a tradução para Português corrente.

Quadrazais (foto de Carlos Nascimento)

Quadrazais (foto de Carlos Nascimento)

5- Alento interno o do contrabando
– Mois no maquinava, mas alembra-me como se fora hõinje, q’ando s’ óvumpiu na reta que tinham acabado o Poím.
– Foi no mesmerno lúzio que mois e mai o Lhalhão, o Salvador, o Cabecho, o Nano e o Brocho maquinámos a Valverde. Nois maquinámos mai pela dereitê, carregados de moca. O Poím e mai unos trenos ó quatrenos já vunhiam de volta pa Marvana. Indê sabunhimos da acabada em Valverde. Nois baro que crunhíamos passarsir por lá. Mas tunhíamos jeca porque os carabeneiros penhavam excomungados. Os colegas, que penhavam escondidos, tentarsiram una distracção de soienes pa sacarsir o Poím. Mal os sentumpiram, começarsiram ós roncos. Tunhiram de maquinar-se. Até que o Poím se esgotarsiu em vermelho!…
Vunhiram mai tardoso buscarsi-lo acabado ó risco. Penhámos una jeca ós carabeneiros!… No sabunho s’ó Déguéis tamém o acabarsiram naquêssa alturê. C’ a noticierna do Poím penhámos de monco caído.
– Baro abastava já a acabada de trenos códrazenhos nunê vagarosa im Valverde, atabafados po fumerno da entrante a que tunhiam deitarsido mistros.
– Alembro-me baro. Era o manês da Vera, o manês da Marisona e atro.
– Galram que, q’ando les acudumpiram já no havunhiê nentes a fazunhir.
– Aquisto sim cuntar cum uno ó atro ronco que atros levarsiram sim granjo dano.
– Penhava-les cara a idê à Reta Frenha. Mas, qu’havunhiam de fazunhir? Os gilfos tunhiam que suquir.
– Pa no cuntar c’os macalos que penhavam estendidos no risco.
– Ò Balhé, mas aquisso era mai c’os soitenhos, que usevam os macalos p’ó minério.
– Aquesses tunhiram mai ganho c’o contrabando, Zé Jaquim.
– Nois, às vezes caiumpíamos em poços, qu’a choinê no deixarsia atiscar nentes, como foi o caso do Sobrélio Maneta. Pró o de soienes que, ao darsirem por falta de sois, voltarsiram atrás a procre-lo e óvunhiram gritos. Lá o treram tótio molhado em choinê frierna.
– A maquinar-se c’o anaco nas alombantes depressa aqueçunhiu.
– Que remédio! Quem arriscarsia a acendunhir um mistro?
– Por aquisso apanharsiu una pneumoniê qu’o ia levarsindo a carepa!
– No foi o purmeiro. Q’antos mai sofrunhiram do mesmerno por tunhirem maquinado esquilonas e esquilonas c’ a tramposa tótia molhada às alombantes!
– Podunhes imaginarsir o qu’era maquinar de Valverde até à Covilhã ó à Çardeirê debaixo d’ânsia ó nevursê?!
– A quem o galras! Q’antas vezes fazunhi aquesses andantes com ânsia! Muto pró no tunhir caído na pildra.
– Icho! O códrazenho tunhiê que maquinar, fejesse amarelo ó fejesse ânsia. As aberturês lá no cardenho pedumpiam artife facho e unas tarroinas.
– O pior era q’ando já uno manego penhava a chegarsir ó destino e apareçunhiê um fusco, vunhido no sabunho donde, e nos apanharsia o anaco. E muto pró se no levarsia noienes presunhidos e tunhíamos de maquinar à cega. Aí era vandunhir o terrunho pa pagarsir ó aldrabão, escrivões e companhiê. Admiram-se que os códrazenhos tunhissem de lutarsir c’os fuscos, à caiadada ó mesmerno a ronco, para salvarsir o anaco que lhe mataria a ambre. Desesperados, quem era capaz de penhar impávido e sereno. E à frente a alta q’os códrazenhos eram naifistas.
– Q’anta genterna penhou arruinada por casa do contrabando!
– Algunos s’aproveitarsiram daquisso. Pedumpiam-les ganhal emprestado p’ós custos e, como no pagarsiam, penhavam-les com os terrunhos. Galram que foi assim qu’abondarsiu o sr. Nacleto.
– Poi é! Mar de quem p’cisê em momento d’aflição!
– O pior é que no havunhe maneirê de saiumpir daquesta má pró.
– Amatriz lá tunhiremos de voltarsir ó risco.
– Leva ó menos a borracha pa t’alegrar o andante.
– Se for baril chingato!…

Tradução para Português corrente
– Eu não ia, mas lembro-me como se fosse hoje, quando se ouviu na terra que tinham matado o Poím.
– Foi no mesmo dia que eu e mais o Lhalhão, o Salvador, o Cabecho, o Nano e o Brocho fomos a Valverde. Nós fomos mais pela direita carregados de café. O Poím mais uns três ou quatro já vinham de volta pela Marvana. Ainda soubemos da morte em Valverde. Nós bem que queríamos passar por lá. Mas tínhamos medo porque os carabineiros estavam muito maus. Os colegas, que estavam escondidos, tentaram uma distracção deles para tirar o Poím. Mal os sentiram, começaram aos tiros. Tiveram de fugir. Até que o Poím se esgotou em sangue!…
Vieram mais tarde buscá-lo morto à raia. Ficámos com um ódio aos carabineiros! Não sei se ao Déguéis também o mataram nessa altura. Com a notícia do Poím ficámos de monco caído.
– Bem bastava já a morte de três quadrazenhos numa cadeia em Valverde, sufocados pelo fumo da porta a que tinham deitado fogo.
– Lembro-me bem. Era o marido da Vera, o marido da Maria Sona e outro.
– Dizem que, quando lhes acudiram, já não havia nada a fazer.
– Isto sem contar com um ou outro tiro, que outros levaram, sem grande dano.
– Ficava-lhes cara a ida a Espanha. Mas, que haviam de fazer? Os filhos tinham de comer.
– Para não contar com os cavalos que ficavam estendidos na raia.
– Mas isso era mais com os soitenhos, que usavam os cavalos para o minério.
– Esses tiveram mais lucro com o contrabando.
– Nós, às vezes caíamos em poços, que a noite não deixava ver nada, como foi o caso do Sobrélio Maneta. Sorte a dele que, ao darem por falta dele, voltaram atrás a procurá-lo e ouviram gritos. Lá o tiraram todo molhado em noite fria.
– A andar, com o carrego às costas, depressa aqueceu.
– Que remédio! Quem arriscava a acender um lume?
– Por isso apanhou uma pneumonia que o ia levando o diabo.
– Não foi o primeiro. Quantos mais sofreram do mesmo por terem andado horas e horas com a manta toda molhada às costas!
– Podes imaginar o que era andar de Valverde até à Covilhã ou à Cerdeira debaixo de água ou neve?!
– A quem o dizes! Quantas vezes tive de fazer esses caminhos com água! Muita sorte não ter caído na cama.
– É verdade! O quadrazenho tinha de andar fizesse sol ou fizesse chuva. As bocas lá em casa pediam pão e umas batatas.
– O pior era quando já uma pessoa estava a chegar ao destino e aparecia um guarda, vindo não sei donde, e nos apanhava o carrego. E muita sorte se não nos levava presos e termos de ir a tribunal.
Aí era vender o terreno para pagar ao advogado, escrivães e companhia. Admiram-se que os quadrazenhos tivessem de lutar com os guardas, à bengalada, ou mesmo a tiro, para salvar o carrego que lhes mataria a fome? Desesperados, quem era capaz de ficar impávido e sereno? E depois a fama que os quadrazenhos eram faquistas.
– Quanta gente ficou arruinada por causa do contrabando!
– Alguns aproveitaram-se disso. Pediam-lhes dinheiro emprestado para as despesas e, como não pagavam, ficavam-lhes com os terrenos. Dizem que foi assim que enriqueceu o Sr. Anacleto.
– Pois é! Mal de quem precisa em momento de aflição!
– O pior é que não há maneira de sair desta má sorte.
– Amanhã lá teremos de voltar à raia.
– Leva, ao menos, a borracha para te alegrar o caminho.
– Se for bom vinho!…
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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

2 Responses to Galramentos entre códrazenhos (5)

  1. augusto simão salada diz:

    Lembras bem o que é nosso. Um abraço amigo Franklim

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