A pastorinha

António Emídio - Passeio pelo Côa - © Capeia Arraiana

Idílio de luz entre aves que cruzam o cristalino Céu e uma manhã de Primavera em que o Sol beija a Serra da Malcata.

Autumn Pastoral - François Boucher - António Emídio - Capeia Arraiana

Autumn Pastoral de François Boucher

Uma imensidão de luz caía da distante serra de Espanha, era o dia a nascer, era o Sol, os olhos da pastorinha eram o espelho onde estava reflectida a bucólica e paradisíaca paisagem, a felicidade e a mística luz que lhe enchia a alma de alegria, sentou-se nas margens de um pequeno regato, as águas deslizavam num murmúrio para não interromperem esse angélico sonho, a mansidão e a bondade das ovelhas e cabras que pastavam placidamente, não profanavam a felicidade da pastorinha. Aproximei-me silenciosamente, mais silenciosamente que o brando sussurro da folhagem acordada por um suave vento.
– Quem és, pastorinha?
– Sou a Estrela da Manhã, sou o Espírito desta Serra, dentro de mim estão todos os seres que a povoaram.
– Invoca-os! Deixa-me ter essa visão do Paraíso…
– Senta-te junto a mim, a esta sombra do tempo, não fales, mas se quiseres, chora.
Lá estava a aldeia com as suas casas de negra pedra, místicas moradas de humildes almas, das chaminés saía fumo perfumado de giesta em flôr, à primeira ténue luz do Sol partiram para os campos, lá vão os carros de vacas com as rodas chiando através dos caminhos, lá vai o burrinho carregado com sacos de grão até ao moinho, as mulheres caminham para a fonte, enchem seus cântaros de água abençoada pela Natureza, outras estão fiando a roca junto à lareira,uma alma sofredora caminha para o cemitério, vai falar com a morte, a professora atravessa o pontão do Côa, vem da Vila, as crianças esperam-na em inocentes brincadeiras, almas de corpos cansados arrancam a urze em horas morosas. O sino da Igreja toca de alegria anunciando o nascimento de uma nova alma, obra prima do amor.
– Guardarei para sempre a lembrança da tua imagem Estrela da Manhã, também a destes seres místicos que vi.
– Que Deus te bendiga peregrino da Serra.

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«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

One Response to A pastorinha

  1. Rui Manuel Fernandes Chamusco diz:

    Um retrato literário fiel e ameno de outros tempos que, sem qualquer relutância, assino e subscrevo como tendo acontecido na terra que me viu nascer e que muito amo. Parabéns!…

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