O Candidato (sátira)

António Emídio - Passeio pelo Côa - © Capeia Arraiana

Bebi bem, coisas do Carnaval, e quando bebo bem tenho o meu American Dream, ou seja, sonho que estou a casar-me em Las Vegas, com a Tina Turner (já sei que está entradote na idade, mas…) vestido tipo Elvis Presley, e a cantar – Love me tender – tendo como testemunha (espécie de padrinho) George Walker Bush. Vejam como está o meu cérebro!!! Pedi então a um heterónimo meu, por acaso um pedaço de asno, que escrevesse o artigo, leiam só o que essa besta escreveu…

Las Vegas - Terra dos sonhos e das ilusões - Capeia Arraiana

Las Vegas – Terra dos sonhos e das ilusões – Capeia Arraiana

Uma cidade do Interior do País, campanha eleitoral para eleições autárquicas, um dos candidatos, pessoa socialmente rejeitada, mas não parvo, foi chamado ao conventículo político do chefe de partido para este lhe explicar quais eram o sectores da sociedade para quem ele deveria falar, ou seja, para aqueles a quem ficaria a dever o poder se ganhasse. O candidato, homem moralmente íntegro, não foi, mandou dizer ao chefe de partido que não se vendia a ninguém, e que sabia perfeitamente o que tinha a dizer. Vamos ler umas palavras do discurso de apresentação…

«(…) não quero acreditar que um Povo justo e honrado como vós, escolha alguém para o governar que se caracterize só pela sua capacidade de prometer e ludibriar (…) às vezes dá a impressão que não quereis ser governados por aqueles que pelo seu comportamento diário vos mostram o que deve ser o Império da Razão (…) porque gostais tanto que vos encham os ouvidos de promessas? Eu não vos prometo paraísos terrenais, só vos digo a verdade, e a verdade é esta: se for eleito, a vida das nossas terras não mudará substancialmente, porquê ? Sabeis o que é governar nos dias de hoje? É tropeçar com situações extremamente complexas, com problemas irresolúveis, é dar de caras com interesses instalados desde há muitos anos, e que será difícil erradicar (…)»

Começou então a ouvir-se na assistência: «é melhor entregar já o poder à oposição!» «O gajo é parvo! Toda a gente sabe o que ele é, para que o escolheram? O que o gajo quer é tacho pá!! E não fazer nada…»

«(…) não estou aqui a ocultar realidades, não falo a linguagem a que estais habituados a ouvir, nunca ninguém vos falou das tragédias humanas que existem nas nossas terras? Da pobreza? Da angústia de perder empregos e negócios? Daqueles que não podem gritar a viva voz a sua dor ? Dos trezentos e cinquenta euros, e menos, de pensões de reforma?»

Um burburinho na assistência… – Rua! Rua! Este filho da puta tem a mania de andar sempre a falar em pensões de reforma e salários!!! Rua com este cabrão! – As pessoas começaram a sair – então qual foi a solução que este gajo deu para o progresso das nossas terras? E o que é que esse burro sabe? (Conversa entre dois políticos profissionais desde 1974!).
Quase toda a gente saiu da sala, só ficaram meia dúzia de pessoas que aceitaram e compreenderam o que o candidato disse.

«(…) quero dizer-vos o seguinte: ninguém consegue mudar, transformar estas terras radicalmente, podem fazer-se algumas pequenas reformas de pouca monta, mas transformá-las por completo é impossível. Alguns falam, dizem e prometem coisas mirabolantes, mas nem eles próprios compreendem o que dizem, são uma espécie de actores secundários a quem deram um papel para desempenhar, e esses discursos que deitam cá para fora estão condicionados pela disciplina do partido.»

Levou algumas palmas, e um dos assistentes disse-lhe:
-As suas honestas palavras não o levam a lado nenhum politicamente, mas podem ser o principio de uma mudança, já que mais não seja, na retórica barata.

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«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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