Retratos do Sabugal (2) – Constrangimentos populacionais

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

É tema recorrente escrever-se sobre a demografia, ou sobre o despovoamento do nosso concelho. De tanto se referir esta questão ela vai caindo no esquecimento e na relativização, em detrimento de uma atenção mais séria e profunda que se exigiria. Não somos apenas um concelho envelhecido ou de baixa densidade populacional. O problema demográfico que se criou é mais grave e complexo do que as opiniões, de senso comum, apontam. Por isso não se pode deixar de escrever, analisar e indicar perguntas para as graves condicionantes que existem neste momento.

População no Sabugal -César Cruz - Capeia Arraiana

Constrangimentos populacionais no concelho do Sabugal

Um dos maiores constrangimentos do concelho do Sabugal é a baixa demografia e o envelhecimento populacional. Ou seja, falta-nos população e os mais velhos são cada vez mais representativos da nossa sociedade local. Sabemos, pelos índices demográficos, que as previsões apontam atualmente para uma população com menos de 11.500 residentes.

A – A baixa incidência populacional recai nas camadas mais jovens. Os mais jovens, até aos 24 anos, não conseguem representar um quinto da totalidade da população residente. Em média, e por aproximação, por cada 100 residentes existem 7 residentes com menos de catorze anos, 8 residentes entre os 15 e 24 anos, 46 residentes entre os 25 e os 64 anos e 39 residentes com mais de 65 anos (ver tabela 1). Em todos os escalões populacionais existem mais homens do que mulheres, exceto no grupo dos mais de 65 anos e no de mais de 75 anos.

B – O concelho do Sabugal apresenta um índice de longevidade de 65,6 sendo o mais elevado na Comunidade das Beiras e Serra da Estrela e um dos mais altos do país. Não pensemos, de uma forma simplista, que isto é fruto apenas da maior qualidade de vida e de melhor saúde dos nossos idosos. Infelizmente não é assim. Se atendermos ao facto de que este índice consiste no número de residentes com mais de 75 anos que existem por cada 100 pessoas com mais de 65 anos, constataremos que quanto mais elevado for este índice, mais envelhecida é a população idosa. Ou seja, temos um problema populacional com diversas frentes e de diversos âmbitos. Se por um lado nos deparamos com uma menor representatividade da população mais nova, por outro, a nossa população idosa, está cada vez mais idosa. Como verificamos mais à frente, a população idosa perdeu drasticamente população (como seria expectável) quando comparada com os valores atuais.

C – O concelho do Sabugal tem cada vez menos residentes e os jovens representam, percentualmente, cada vez menos a nossa sociedade. A população em idade ativa está a diminuir e o índice da sua renovação é dos mais baixos da Região Centro. Os mais idosos representam uma parte bastante significativa dos nossos residentes. O envelhecimento populacional é extensivo aos idosos, onde o grupo que está a entrar na casa dos 75 anos é bem inferior ao grupo dos que têm mais desta idade. Trocado por miúdos: somos uma população envelhecida, sem renovação de gerações e com distanciamentos etários que podem colocar em causa a sucessão geracional. Perigo maior? O de o saldo natural diminuir ainda mais e mais rapidamente. Neste momento perdemos, em saldo natural, mais de 250 residentes por ano. Este valor é minimizado por uma taxa de emigração baixa e por alguma imigração.

Escrever sobre demografia pode ser constrangedor por diversos motivos. Há fatores exógenos, externos, sobre os quais não temos controlo. Neste âmbito surgirão vozes a proclamar que se está a falar sempre no mesmo. Contudo há fatores endógenos sobre os quais poderemos exercer pressão e afetação de medidas. E aqui entram os analistas sociais. Pelo balancear da sociedade conseguimos depurar as pegadas das intervenções políticas locais. Senão vejamos os seguintes pontos:

1 – O concelho do Sabugal apresenta uma demografia que se encontra a decrescer
2 – Os grupos populacionais mais novos perderam quase metade de população desde 2001.
3 – Os grupos populacionais dos 35 aos 55 anos viram perder significativamente a sua população nos últimos 6 anos, pese o aumento paulatino na primeira década deste século. Não estranhemos o facto de ser o grupo dos mais idosos o que mais aumentou no peso da população residente.
4 – Os escalões populacionais situados entre os 50 e os 59 anos verificam uma subida populacional, de quase 300 pessoas, quando comparados com iguais escalões de 2001.
5 – Os escalões populacionais situados entre os 60 e os 69 anos apresentam uma diminuição drástica populacional quando comparado com igual escalão em 2001 (no final de 2015 registaram-se menos 900 residentes nestes escalões etários);
6 – Da mesma forma existem menos 950 residentes com idades compreendidas entre os 70 e os 79 anos, face a 2001.
7 – Os residentes com mais de 80 anos viram a população residente subir em mais de 400 pessoas, face aos valores de 2001.
Se alguns autarcas locais advogam que é um eufemismo a designação de «territórios de baixa densidade», o que dizer do facto de apresentarmos uma densidade populacional de 14 residentes por km2, sendo das taxas mais baixas da Região Centro. Dirão que o território geográfico é enorme. Correto. Mas não explica tudo! Ao longo de anos, o que existiu foi uma baixa densidade de políticas ativas de desenvolvimento local. Desmistifiquemos. A nossa população é das mais envelhecidas da zona centro e de Portugal. Mas se analisarmos por grupos etários verificaremos que o envelhecimento populacional verifica-se, fundamentalmente, porque as gerações de renovação da idade ativa se ausentam. Analisados os dados e correlacionados com os de outros municípios, a verdade, nua e crua, é que deixámos ao longo de anos os nossos jovens sair do concelho e não lhes demos condições para ficar ou voltar. Por isso o caminho a trilhar é olhar cada sector populacional em si mesmo, sem esquecer o seu todo, e traçar políticas efetivas de atração demográfica. As iniciativas avulsas ou de propaganda já não pegam e não apagam as inércias passadas.

Tabela - César Cruz - Capeia Arraiana

População Residente no Concelho do Sabugal

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«Desassossego», opinião de César Cruz

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