Diálogo tonto com o bucho raiano (2)

Joaquim Tenreira Martins - Capeia Arraiana

Estava sentado a ler a vida de Isaac (Fernando) Cardoso e a perceber que este grande judeu beirão setecentista, afinal, tinha tido pelo menos três vidas – uma na corte da Espanha, outra pelas cidades italianas do norte da Europa, mas antes destas tinha estudado em Salamanca e exercido a profissão de físico, médico e clérigo, em Valhadolid.

Isaac Cardoso - Joaquim Tenreira Martins - Capeia Arraiana

Isaac Cardoso à mesa com o Bucho Raiano

Sentia-me absorvido nas inquietações daqueles tempos em que era proibido pensar e agir de maneira diferente daquela que era imposta pela santa madre igreja e sobretudo a pensar na proibição de praticar a religião judaica. Aqueles que quisessem seguir a voz da sua consciência não restava outra solução senão a clandestinidade ou o exílio. Este brilhante beirão, Isaac Cardoso, preferiu o exílio, depois de ter trabalhado na corte do Filipe IV, em Madrid. Quando percebeu que a santa inquisição o queria julgar, fixou-se em Amesterdão e, posteriormente, nas cidades italianas do norte – Veneza e depois em Verona –, onde prestou ajuda aos seus companheiros judeus que também tiveram de deixar a Península Ibérica.
Quando o prato de Bucho chegou à minha mesa, já dispunha de uma adiantada fome. Quis colocar o livro de lado, mas notei que que já não havia cadeiras livres. Todas a gente estava sentada, uns a comer Bucho e outros com apetite de Bucho, arrependidos de não terem pedido esta iguaria.
Meti a faca e o garfo para esfarrapar o meio Bucho que me foi colocado no prato e tive a sensação de ter diante de mim uma espécie de máscara, ainda a fumegar. As minhas ideias não deviam estar ainda muito bem assentes.
O Bucho parece ter ficado incomodado por eu ter «atacado» logo. Pudera! A fome não perdoa! Mas notei que estava um pouco desinibido.
– Hoje pareces um embaixador! És o único que se apresenta com fato e gravata! E tudo isto para vires ao restaurante! – desembuchou ele com uma frase deste calibre que quase me desestabilizou.
Tive a curiosidade de deitar uma vista de olhos para os presentes e constatei que não era verdade o que o Bucho me estava dizendo.
– Bucho, não estejas a dizer asneiras porque há outros senhores, e tenho aqui um bem ao lado da minha mesa, que vestem também fato e gravata!
– Mas tu és o único que tem um fato preto e uma gravata azul e branca!
– Não me admira que com essa cara redondinha e vermelhinha tenhas vontade de delirar. A mim até me apetece apertar-te bem essas bochechas e dizer-te que tens de continuar sempre bem disposto, sem muitos delírios.
– Eu pretendia apenas lisonjear-te e acordar-te da tua leitura.
– E tens toda a razão. Não se vai ao restaurante para estar sentado a ler, sobretudo quando se trata da uma iguaria como a de Bucho. Haja maneiras!
– E então que tal? Está saboroso? – percebi que estava a fazer o seu inquérito, aquele malandro!
– Poderia estar melhor. Os grelos é que devem ser dos congelados. Não têm aquele sabor da raia sabugalense, nem foram regados com as águas do rio Côa ou dos riachos seus afluentes. Além disso, as batatas esfarelam-se um pouco.
– Estás a mostra-te muito exigente! O Bucho tem de ser comido lá onde nasceu e na altura certa, isto é, por volta do Carnaval. E nem vale a pena comer muito, antes de entrar na quaresma, como desforra dos jejuns e abstinências que se observavam naquela época litúrgica. Agora come-se todo o ano.
– Tens razão. E até estás a dar-me a sugestão de me deslocar à zona de onde tens as tuas origens para ir àqueles restaurantes que tiveram a boa ideia de apresentar uma ementa de Bucho. Tomarei subrepticiamente as minhas notas e na próxima vez irei dá-las a conhecer.
– Já sei que estás a ler a vida de Isaac Cardoso. Ele era marrano, como o meu pai! – e fez um gesto de conformismo que me estarreceu.
– Ó bucho, vê-se mesmo que és um autêntico ignorante! Claro que ele era marrano, mas não tem nada a ver com a tua família. O Isaac Cardoso era descendente de uma família de judeus, de Trancoso, onde teria nascido pelos anos de 1603-1604. Era marrano porque pretendia praticar a religião judaica ou em família, sem que os outros soubessem, ou no exílio. E ele viu-se obrigado a partir, porque naquele tempo a inquisição era implacável, sobretudo para com os intelectuais como ele.
– E achas que Isaac Cardoso teria passado pelo Sabugal? E teria comido Bucho?
– São duas questões que me colocas e às quais não te poderei dar cabalmente uma resposta. Que o Isaac Cardoso tenha passado pelo Sabugal é bastante provável. Nas suas diversas viagens entre Trancoso e Salamanca, nos tempos de estudante, e entre Trancoso e Valhadolid, enquanto ali trabalhava, passou certamente pelo Sabugal. Sendo um homem curioso e zeloso para com os seus irmãos judeus, teria vindo ao Sabugal pelo menos para tomar contacto com a comunidade judaica que aqui existia. Quanto à questão, bastante curiosa e quase provocadora da tua parte, em saber se Isaac Cardoso teria comido Bucho, a questão é mais complexa. Como cristão-novo que era, não faria talvez questão de o comer em casa de goys, embora evitasse; mas em sua casa nunca o teria comido, certamente.
– Mas não leves a mal! Nem todas as pessoas podem gostar de tudo.
– Comigo é que tu tiveste sorte! Eu é comer e gritar por mais! – confessei-lhe eu.
– Nada de exageros. Poupa-te que eu é que sei o que vai por aí!
Olha lá… – pensei eu para os meus botões! E eu a acreditar que o Bucho não perceberia nada de nada, mas dos efeitos da sua culinária deu-me a impressão de ter algum conhecimento. Terei de investigar.
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«Pedaços de Fronteira», opinião de Joaquim Tenreira Martins

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