Retratos do Sabugal (1) – Turismo

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

Há retratos que valem mais do que mil palavras. Mas não basta só contemplar. É preciso analisar, depreender, refletir e tirar conclusões. Iniciamos um ciclo de análise socioeconómica da realidade do nosso concelho onde irão ser retratadas várias temáticas centrais da vida quotidiana. A primeira análise é sobre o turismo no nosso concelho. Podia ser uma outra qualquer. Mas é esta a primeira. Assim estamos nós por cá…

Turismo Encerrado - Sabugal - César Cruz - Capeia Arraiana

A aposta no turismo tem sido uma não aposta

Segundo os dados mais recentes foi de 2,6 noites a estadia média de hóspedes estrangeiros no concelho do Sabugal em 2015. Sendo uma média acima dos concelhos vizinhos é de estranhar que estes números não consigam acompanhar outros dados. Assim vejamos. O nosso concelho apresenta uma capacidade de alojamento das mais baixas de toda a Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela. Se é verdade que os hóspedes estrangeiros ainda pernoitam em média mais de duas noites também é verdade que só um em cada dez hóspedes é estrangeiro. Um valor muito baixo, comparativamente com os concelhos vizinhos. Se atendermos à economia gerada verificamos que os proveitos de aposento, por capacidade de alojamento, cifram-se, em 2015, em setecentos euros, apresentando o valor mais baixo de toda a Região Centro. Se a estadia média dos hóspedes estrangeiros é aceitável, o mesmo não sucede com a média de alojamento. Em 2015 os hóspedes permaneciam em média apenas uma noite e meia. O concelho apresenta um número de hóspedes inferiores aos da maioria dos concelhos da CIM Beiras e Serra da Estrela, sendo o mesmo refletido no número de dormidas.
Para constatarmos o fraco peso e da dinâmica de turismo no concelho basta atendermos a que a taxa de ocupação/cama situou-se nos 13,4 porcento, querendo isto dizer, na prática, que a ocupação/cama foi inferior a 50 noites por ano, da capacidade total do concelho.
O concelho do Sabugal, em 2015, apresentava uma capacidade de alojamento de 250 turistas, possuindo três alojamentos locais e dezasseis de turismo no espaço rural e de turismo habitação. Ao não possuir hotelaria, em 2015, o concelho do Sabugal é detentor do maior número de estabelecimentos de Turismo no espaço rural e Turismo de habitação de toda a Região Centro (?). A quantidade destes estabelecimentos e a tão baixa taxa de ocupação e de rentabilização deveria ser preocupante e geradora de questões cívicas e sociais. Na verdade deveríamos interrogar como tem sido a sua gestão, quem a possuiu e como a conseguiu. Contudo há diferenças que têm de ser salvaguardadas. A ausência de unidades hoteleiras e de estabelecimentos de maior dimensão não permite aumentar substancialmente a capacidade de alojamento. Simultaneamente a capacidade, tal como constatámos, é muito inferior à da maioria dos concelhos da nossa região. A questão maior e primeira é a captação de turistas e de hóspedes. É notório e bem visível nas ruas das nossas terras a ausência de turistas. É estranho verificar que possuindo o concelho um vasto património classificado não consiga atrair turistas, à semelhança dos concelhos vizinhos. De referir que o concelho do Sabugal possui 16 monumentos, 2 conjuntos e um sítio, sendo que existem 3 monumentos nacionais, 14 imóveis de interesse público e dois de interesse municipal. A ausência de um museu que cumpra os critérios de seleção é uma grande lacuna na preservação patrimonial, segundo dados dos finais de 2016 recentemente divulgados. Isto pode exemplificar o facto de que a despesa em atividades e equipamentos desportivos no concelho do Sabugal, seja percentualmente grande face às despesas em cultura e património, nomeadamente em comparação com os concelhos de toda a Região Centro.
Em 2015 registaram-se no concelho 6.885 hóspedes que equivaleram a 11.050 dormidas. Isto representou apenas 186 milhares de euros em proveitos totais de aposentos. Só os concelhos de Pinhel e Mêda apresentam menos hóspedes e menos dormidas do que o concelho do Sabugal. Da totalidade de hóspedes, 6.172 eram oriundos de Portugal; 592 do resto da Europa (França com 175, Espanha com 173, Alemanha 61 hóspedes são os mais representativos). O continente Americano surge como segundo maior continente de origem dos hóspedes no concelho do Sabugal. De verificar que a ideia feita e preconcebida de que o Sabugal acolhe muitos estrangeiros, nomeadamente franceses e espanhóis, é errada e ilusória. Apesar da forte ligação que o concelho tem com a França e com a Espanha, não consegue atrair um número significativo de turistas oriundos destes países. Com efeitos os outros concelhos da nossa região conseguem atrair e dar alojamento a um número bem superior, não só a estes mas a todos os restantes turistas. Os hóspedes oriundos de Portugal representaram 9.222 dormidas enquanto os de França e os de Espanha representaram apenas 701 e 363, respetivamente.
Se a dinâmica do turismo pode e deve ser quantificada pelo índice de estadia, os dados apresentam-se muito desoladores. Muitas vezes culpamos a escala regional ou nacional da culpa das nossas metas não atingidas mas nesta panorâmica podemos constatar que os números são deprimentes para o nosso concelho em particular.
A análise de dados quantitativos e qualitativos apenas terão mérito se forem transformados em políticas locais de desenvolvimento. Infelizmente, neste campo, neste domínio é ponto assente que a aposta no turismo tem sido uma não aposta!

Fontes: INE, I.P., Estatísticas do Turismo e Direção-Geral do Património Cultural, Direção Regional da Cultura dos Açores, Direção Regional dos Assuntos Culturais da Madeira.
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«Desassossego», opinião de César Cruz

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