Casteleiro – Terra de encanto, sim!

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Há quem não saiba que o Hino da minha terra começa assim: «Ó Casteleiro, terra de encanto». E é mesmo! Se não, leia-me semana a semana e conclua.

Casteleiro visto do alto da Serra d'Opa

Casteleiro visto do alto da Serra d’Opa

Recordo para nunca se esquecer algumas das nossas realidades colectivas na aldeia de há 60 anos. Venha daí e acompanhe-me, por favor.

unnamed

Dois brasões
Uma aldeia que tem dois brasões… não é para brincar.
Pois bem: na minha aldeia, encontramos dois brasões.
O do Morgado de Santo Amaro e o do solar do Largo de São Francisco, o Terreiro de antigamente, na casa que foi do Sr. Joãozinho Rosa.
Vale a pena recordar uma história do Dr. Tavares de Melo.

image (47) copy

O Morgado
O brasão está na Quinta de Santo Amaro, do Morgado de Santo Amaro, Dr. Tavares de Melo.
Uma figura ímpar, de que mal me lembro como era fisicamente, mas cuja aura e fama se prolongam muito para lá do físico. Ou seja: todos sabemos quem foi esta personagem. Todos já ouvimos histórias diabólicas das suas aventuras. Eu próprio já divulguei algumas, como por exemplo aquela de ele ter chegado de carro à Bélgica, talvez em 1908 ou 10, e, como não entenderia muito bem a língua (certamente na parte da Flandres, onde se fala um «dialecto» do holandês, o flamengo), terá dito:
– Aqui me ladram, além me mordem… Vou mas é para a minha terra.

image (48) copy

Comidas do arco da velha
Comidas do outro mundo.
Havia comidas do arco da velha naqueles tempos da minha meninice. Tudo era tão bom… Impossível recordar aqui tudo. Mas deixo algumas bem saborosas só para aguçar o apetite…
Torresmos, que se chamavam carne gorda bem retchinada – eis algo absolutamente proibido hoje. Queijo curado a sério, daquele de apeguilhar com o pão.
Lá de vez em quando, uns tartulhos e talvez até uns míscaros. Sempre com muito cuidado, por causa dos venenos destes «bichinhos». Para prevenir, punha-se um objecto de prata dentro da panela quando estavam a cozer. Se escurecesse – alto e pára o baile, que é venenoso…
E o requeijão. Ena! Que maravilha.
As iscas de fígado, a taborna (pão frito em azeite, mas de forma muito especial). A verdadeira taborna era aquela que se fazia no lagar no dia em que se ia lá fazer o azeite.
O caldudo ainda nos lembra de vez em quando. Era um sabor especial: as castanhas secas, piladas, feitas em caldo. Uma coisa castanha, bem líquida, com as castanhas a boiar. Delícia, também.
Por vezes alguém recorda:
– E as sopas de cavalo cansado?
Sabe o que é isso? Água, um pouco de vinho, açúcar, pão lá dentro… Muito bom!
Do porco, três especialidades muito apreciadas cá para estes lados, sem deitar fora nada do resto: a bucheira, a morcela (a única feita a sério é a da minha terra, mas a daqueles tempos de quando eu era jovem: sem artifícios: só sangue, gorduras, pão e cominhos); e ainda os ossos do porco (a coluna vertebral do bicho), que se comiam pelo Carnaval.

… E a luz chegou
Vou lembrar um dia muito especial, de facto: o dia da inauguração da luz eléctrica.
Era assim mesmo que se dizia: a luz eléctrica. Foi em 1956. Meteu Governador Civil e tudo. Coisa séria. Coisa importante. Então era preciso receber a autoridade com pompa e circunstância. Aquilo foi uma farra, uma grande festa popular. Muita alegria, a electricidade era sem sombra de dúvida uma grande aquisição, mesmo com meia dúzia de lâmpadas na rua e de fraquíssima potência – muito sumidinhas, pareciam velas. Arranjou-se um grupo coral de jovens (rapazes e raparigas – coisa nem sempre aprovada, esta de misturar os sexos). E cantou-se o hino da terra… Foi uma festa e pêras: ainda hoje a tenho na minha retina.
:: ::
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

3 Responses to Casteleiro – Terra de encanto, sim!

  1. carlos gonçalves ribas diz:

    Sr . José Mendes agradecia se poder informações sobre André Gonçalves Ribas meu avo paterno que residi no Casteleiro no solar de São Francisco .

  2. José Carlos Mendes diz:

    Caro Sr. Gonçalves Ribas,
    Procurei uma foto do seu antepassado, mas não encontrei.
    Mas na CM Sabugal deve encontrar, quase de certeza.

    Outras notas:
    1
    Entrada do solar, no Largo de São Francisco, no Casteleiro:
    http://capeiaarraiana.pt/2015/03/02/casteleiro-terra-rica-no-seculo-xix/

    2
    Se abrir este link, tem uma perspectiva global do solar (na altura em obras de restauro por parte dos novos proprietários):
    https://www.google.pt/maps/@40.3025591,-7.2313042,3a,75y,342.49h,97.19t/data=!3m6!1e1!3m4!1sZQS_wmnerOKsyc6PeQ7PYA!2e0!7i13312!8i6656

    3
    Brasão da portada:
    http://capeiaarraiana.pt/2014/09/15/casteleiro-um-brasao-na-aldeia/
    Aqui, leia sobretudo a parte da história do solar trazida a comentário por Ana Rita Amaral Paiva.

Deixar uma resposta