Faleceu Mário Soares (1924 – 2017)

Obituário - Capeia Arraiana

Faleceu hoje Mário Soares, ex-presidente da república e primeiro ministro, que o Partido Socialista considerou ser o «pai da Liberdade e da Democracia». Esteve por diversas vezes no Sabugal, destacando-se porém duas: em 1977, quando participou num convívio no Soito a convite do empresário António Oliveira, e em 1988, quando visitou oficialmente o concelho, pernoitando em Sortelha e inaugurando a nova Junta de Freguesia do Sabugal.

Mário Soares

Mário Soares

Mário Soares foi uma figura ímpar do socialismo democrático português e europeu.
Numa nota hoje divulgada, o PS, partido de que era o militante nº.1, considera que “este é um momento de profunda dor para todos os socialistas, que sabemos partilhada por tantos e tantos portugueses, que reconhecem em Mário soares uma figura maior da nossa democracia”.

Mário Alberto Nobre Lopes Soares, nasceu em Lisboa, em 7 de Dezembro de 1924, filho de João Lopes Soares, professor, pedagogo e político da Primeira República, e de Elisa Nobre Soares.
Casou na prisão com Maria de Jesus Simões Barroso Soares (em 1949), teve dois filhos – Isabel Soares e João Soares – e cinco netos – Inês, Mafalda, Mário, Jonas e Lilah.

Formação académica e actividade profissional
Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1951, e em Direito, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 1957.
Foi professor do ensino secundário (particular) e director do Colégio Moderno, fundado por seu pai.
Exerceu a advocacia durante muitos anos e deu aulas nas Universidades de Vincennes (Paris VIII), da Sorbonne (Paris IV) e da Alta Bretanha (Rennes).

Oposição à ditadura
Foi um activo resistente à ditadura de Salazar. Pertenceu ao MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista) e foi membro da Comissão Central do MUD (Movimento de Unidade Democrática). Esteve envolvido na candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República, em 1949. Integrou o Directório Democrático-Social (1955), dirigido por António Sérgio, Jaime Cortesão e Azevedo Gomes e, em 1958, pertenceu à comissão da candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República.
Como advogado foi defensor de presos políticos e participou em numerosos julgamentos no Tribunal Plenário e no Tribunal Militar Especial. Representou a família do General Humberto Delgado na investigação do seu assassinato pela PIDE.
Foi membro da Resistência Republicana e Socialista, na década de 50, redactor e signatário do Programa para a Democratização da República em 1961, tendo sido candidato a deputado pela Oposição Democrática em 1965 e pela CEUD, em 1969.
Em resultado da sua actividade política contra a ditadura foi 12 vezes preso pela PIDE (cumprindo um total de quase 3 anos de cadeia), deportado sem julgamento para a ilha de S. Tomé (África) em 1968 e, em 1970, forçado ao exílio em França.

Fundador do PS
Em 1973, no Congresso realizado em BadMünstereifel, na Alemanha, a Acção Socialista Portuguesa, que fundara em 1964, transformou-se em Partido Socialista, do qual Mário Soares foi eleito Secretário-Geral e sucessivamente reeleito no cargo ao longo de quase treze anos.

Acção após o 25 de Abril
Face ao 25 de Abril de 1974, Mário Soares regressou de Paris a Portugal, de comboio.
Participou nos I, II e III Governos Provisórios, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, e no IV, como Ministro sem Pasta, de que se demitiu em protesto pelo chamado “caso República”, abrindo-se assim a crise governamental que levou à queda desse Governo e, depois, à contestação ao V Governo Provisório e à demissão de Vasco Gonçalves, período que ficou conhecido por “verão quente” (1975), em que tiveram lugar o célebre comício da Fonte Luminosa, ao qual acorreram muitas centenas de milhares de pessoas em protesto contra a ameaça de uma nova Ditadura, e, mais tarde, o “25 de Novembro”, movimento militar que repôs o espírito democrático da Revolução de Abril.
Em 1976 foi Primeiro-Ministro do I Governo Constitucional (1976-77), tendo também presidido ao II (1978).
Entre 1978 e 1983 liderou a oposição, viabilizando a primeira revisão da Constituição da República.
Entre 1983 e 1985 voltou a ser Primeiro-Ministro, do IX Governo Constitucional, com base numa coligação partidária PS/PSD, tendo-se aí empenhado no processo de adesão de Portugal à CEE.
Em 1986 foi eleito presidente da República, tendo tomado posse e prestado juramento no dia 9 de Março.
Em 13 de Janeiro de 1991 foi reeleito Presidente da República, logo à 1ª volta, tendo obtido a maior votação de sempre (70,40% dos votos expressos), tendo terminado o segundo mandato em 9 de Março de 1996.
Tornou-se membro do Conselho de Estado desde 1996, por inerência.
Em 1996 assumiu a presidência da Fundação que havia sido fundada em 1991 com o seu nome e em 1997 foi eleito presidente da Fundação Portugal-África.
Em 1999 foi eleito Deputado ao Parlamento Europeu, tendo cumprido toda a legislatura (1999-2004).
Em 2006 concorreu, de novo, a Presidente da República, pelo PS, tendo perdido as eleições para Aníbal Cavaco Silva.

Mário Soares no Sabugal
Mário Soares passou pelo Sabugal, nomeadamente no decurso das inúmeras campanhas eleitorais em que esteve envolvido. Mas há a relevar duas ocasiões em que aqui esteve mais demoradamente.
Em 1977, Mário Soares visitou o Soito, quando era primeiro-ministro, a convite do empresário Toninho Oliveira, seu amigo.
Ainda que fosse chefe do governo, a visita foi de carácter particular. Visitou a fábrica de confecções Ranking, de Toninho Oliveira, e almoçou, juntamente com mais de 100 convivas, na quinta do anfitrião.

Mário Soares com Toninho Oliveira, no Soito

Mário Soares com Toninho Oliveira, no Soito

Em 1988, no dia 31 de Março, já como presidente da República, Mário Soares visitou oficialmente o concelho do Sabugal, sendo recebido na Câmara Municipal e pernoitado em Sortelha – era presidente da Câmara Joaquim Portas.
Esta passagem pelo Sabugal aconteceu no quadro da quarta Presidência Aberta, centrada no distrito da Guarda, tendo o presidente aceitado o convite que inopinadamente lhe fez o presidente da Junta de Freguesia do Sabugal, Manuel Rasteiro, seu camarada do PS, para inaugurar o edifício da nova sede, fora do quadro da visita oficial.

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Mário Soares trocou as voltas aos assessores e aos seguranças, e sem protocolo, mas acompanhado pela comitiva, descerrou a placa evocativa, perante uma guarda de honra formada pelos Bombeiros do Sabugal e o aplauso efusivo de centenas de populares.
plb

4 Responses to Faleceu Mário Soares (1924 – 2017)

  1. Ramiro Manuel Lopes de Matos diz:

    A morte de uma pessoa é sempre um acontecimento triste.
    A morte de Mário Soares é ainda mais triste.
    Não pela pessoa em si, que não conheci, mas pela forma com que marcou a história de Portugal.
    Morre o homem, fica a obra.
    Todos os democratas estão hoje de luto, mas, estou certo, ainda mais motivados para lutar por uma sociedade mais justa, mais livre e mais democrática, que foi a luta constante de Mário Soares.

  2. António Emídio diz:

    Mário Soares já está na História como um dos maiores lutadores pela Liberdade e pela Democracia que teve Portugal, e também como um dos grandes estadistas europeus do século XX.

    António Emídio

  3. JFernandes diz:

    Goste-se ou não, ha coisas que ninguém pode ignorar quando se faa de MARIO SOARES
    vou apenas referir 3 situações:
    No apoio à criação de partidos de todo o espetro politico principalmente mais à direita (nos primeiros tempos da revolução).
    No combate à hegemonia politica da esquerda mais radical a seguir ao 25 de Abril (discurso na fonte luminosa).
    No combate à direita quando pretendia banir do espectro politico as forças à esquerda (25 de Novembro)
    Foi como se vê, um homem que acaba por ser responsavel não só pelo nosso sistema politico, pela democracia que vivemos e pelo pluripartidarismo.
    Por tudo isto merece o nosso apreço e agradecimento.
    JFernandes

  4. Luis Carriço diz:

    Sem comentários à morte que é sempre triste, sem comentários ao Homem cuja obra fala por si (goste-se ou não), porque também protagonista, não posso deixar de dar uma achega aos últimos parágrafos do texto, pelo caricato da história:
    A placa foi realmente descerrada pelo então Presidente Mário Soares, mas no dia 1 de Abril e não no 31 de Março, como estava previsto; Previsto pela Junta, já que no programa do Presidente não estava, o que levou o chefe de protocolo a não o deixar ir no dia 31 como ele pretendia.
    Terminada a visita, jantava e pernoitava em Sortelha, pelo que o Presidente da Junta aí foi e conseguiu que o Presidente viesse no dia seguinte, em visita particular, inaugurar a sede.
    Sem redes sociais ou outras formas rápidas de passar a mensagem, andou um carro dos bombeiros que tinha sistema de som (AT1 – FORD, tripulado pelo então subchefe(?) ou Adjunto (?) Joaquim Bogas e outro), a avisar a população que o Presidente da República vinha ao Sabugal às onze horas.
    Acontece que era o dia 1 de Abril, dia das mentiras; Muita gente ainda achou mal que os Bombeiros se imiscuíssem em brincadeiras do 1 de Abril… mas era mesmo verdade e cerca das onze e trinta lá se descerrou a lápide.

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