Poldras Pontões e Pontes (7)

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

:: :: O Pontão de Porto de Ovelha :: :: – Este pontão é o maior pontão do Côa e provavelmente um dos maiores do país. Hoje, o pontão continua a existir no mesmo local mas o seu uso diminuiu com a construção de uma nova ponte a montante.

Pontão de Porto de Ovelha – margem esquerda – montante para jusante

Pontão de Porto de Ovelha – margem esquerda – montante para jusante

O pontão de Porto de Ovelha, assim designado por se localizar perto de Porto de Ovelha, é o último pontão do Côa quando caminhamos para jusante do rio.
Este pontão permitiu, durante muitos anos e ainda permite hoje fazer a travessia do rio Côa entre territórios que sempre foram portugueses e outros que passaram a ser portugueses a partir do Tratado de Alcanizes celebrado em 1297 por D. Dinis. Este pontão permite o acesso directo à Malhada Sorda através de uma calçada romana que terá sido parcialmente danificada com a construção da nova estrada. Quem quiser tentar a calçada romana deve virar à esquerda quando atravessa o pontão vindo de Porto de Ovelha.
Naturalmente que, do ponto de vista histórico/politico, este pontão não existia nessa altura pois a travessia do rio não era uma necessidade, antes pelo contrário, havia interesse em que o Rio fosse, e era, uma barreira para a circulação de pessoas entre um e outro lado do rio que, como sabemos era a fronteira entre os dois reinos até aquela data. Quando falarmos da ponte de Sequeiros e da do Sabugal, provavelmente vamos encontrar argumentos para explicar dentro do mesmo contexto, precisamente a opção contrária.

Pontão de Porto de Ovelha – margem direita – montante para jusante

Pontão de Porto de Ovelha – margem direita – montante para jusante

Este pontão, assim como outros para jusante daquele local, foram certamente construídos muito depois daquela data, não sendo de excluir a possibilidade de naquele local poder ter existido outro, naturalmente mais rude em épocas anteriores.
É que muitas vezes, mesmo hoje, uma coisa são as questões politicas entre países confinantes que determinam regras gerais que na opinião dos governos devem ser seguidas na gestão da respectiva linha de fronteira. Coisa diferente são as relações entre povoações fronteiriças que muitas vezes também se estão “marimbando” para os seus governos e tratam os seus vizinhos como tal estejam eles dum ou de outro lado duma linha divisória que alguém achou que devia ser a fronteira, sem se preocuparem com que lá reside. Um caso paradigmático de situações deste tipo é Rio de Onor no distrito de Bragança em que uma parte da aldeia é portuguesa e outra espanhola mas em que como comunidade, não têm esse tipo de preocupações.
Por este pontão passaram os peregrinos para a senhora da Ajuda na Malhada Sorda, sendo certo que na data dessa romaria, o Côa tem pouca água. (8 de Setembro). Por este pontão ou por aquele que certamente aqui existia antes, passaram tropas francesas e inglesas nas movimentações que antecederam os combates do Côa (Abril de 1811). É que, em Abril “o Côa ainda leva muita água”, como se costuma dizer, e, certamente que atravessar a vau seria complicado.
Por este pontão continuarão a passar pessoas apesar de agora terem melhores condições e segurança quando se deslocam de carro, pela nova ponte construída a montante deste local.
Construtivamente, este pontão é muito mais robusto e seguro do que a generalidade de outros pontões. Se repararmos bem verificamos que as diferentes pedras, para além da sua forma corta-mar estão ligadas por cintas metálicas (a que chamam gatos) que lhe aumentam a estabilidade.
Este pontão como quase todos os restantes, eram pelo menos uma vez por ano, submersos pelas águas do Rio, quantas vezes com resíduos vegetais de grandes dimensões o que podia provocar a sua derrocada se não estivessem seguros.
Por razões óbvias e de caudal, as poldras e pontões localizam-se na parte inicial do curso dos rios, enquanto que as pontes, foram construídas em zonas de maior profundidade das águas e de caudais mais volumosos. É por isso que a maior parte ou quase totalidade destes pontões se localizam em ribeiros, ribeiras ou na parte inicial dos rios.
É por isso que, seguindo as águas do Côa depois deste pontão, apenas encontramos pontes e, algumas, de dimensão e altura apreciáveis. Noutros casos encontraremos o que sobra de pontes que já existiram e que o rio Côa nas suas enchentes anuais ou mesmo por motivos bélicos foram sendo derrubadas.
Este pontão está localizado (aqui) e quem quiser admirá-lo pode deslocar-se entre a Miuzela e a Malhada Sorda seguindo a estrada recentemente construída e quando chegar perto da ponte sobre o Côa, encoste e estacione. Saboreie depois o ar fresco desta altura do ano e delicie o olhar com o leito do Côa que certamente lhe encherá a alma. Mas para a sensação ser completa, desça até ao pontão e ouça as águas do rio que certamente tornarão os seus ouvidos mais apurados em face do silêncio que para além delas o vale possui.
Existe, como elemento adicional uma capelinha no inicio do pontão, na margem esquerda do Côa que vale pela sua localização e beleza, embora rudimentar. Mas, quem disse que o rude não é belo?
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

2 Responses to Poldras Pontões e Pontes (7)

  1. António Roque Reis Anselmo diz:

    Texto muito rico e pedagógico. Para valorizar ainda mais este local foram avistadas recentemente lontras junto ao pontão.

  2. JFernandes diz:

    Caro ARRAnselmo:
    Obrigado pelo apreço. Na verdade, na minha terra natal, Pailobo, sempre ouvi dizer que, águas onde se vislumbrem lontras, são águas puras, sem poluição. Isso parece estar a acontecer nesta parte do Côa.
    Ainda demorará uns tempos para que possamos dizer o mesmo das águas do Noémi. Mas parece que o assunto agora irá evoluir.
    Um abraço e bom ano de 2017.

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