É Natal?

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

Entre a agitação de um dia comum feito de hábitos diários e de rotinas corriqueiras, o Natal vem até nós. Mesmo que o não queiramos. Vem engalanado, vestido a rigor, presenteia-nos com a resolução de todos os problemas e aponta-nos o caminho da felicidade, o de pararmos e ficarmos de boca aberta a contemplar a sua beleza. Tudo está bem. Tudo é belo.

É Natal - César Cruz - Capeia Arraiana

O Natal tem muitas faces. Cada um constrói a que quer…

Não basta parecer. É necessário ser. O Município do Sabugal está de parabéns pelo presépio e envolvência bem conseguida que se encontra patente no largo da Fonte desta cidade. Tem havido um esforço notório para que este evento tenha projeção exterior. E não é para menos. O bonito é para se ver ou para se mostrar. Então pois. É Natal. É tempo de colocar enfeites, luzinhas, arvores, troncos ou raízes, colocar umas imagens e voilá, é Natal. O Natal é assim… constrói-se com umas ideias, com uma câmara e ação… Mostra-se o presépio e fala-se de economia local. O menino Jesus até ajuda a desenvolver esta economia e o sector turístico e cultural, que de tão estagnados estarem já não movem qualquer moinho. Na verdade é preciosa a ajuda do divino para alterar isto! Ainda bem que nasceste há dois mil anos, menino Jesus, e ainda bem que se lembraram de ti agora para desenvolveres a economia local. Mas a verdade é que já andas por estas terras há muito tempo. Andas há séculos na arte religiosa e espiritual edificada, construída e constituída pelas gentes de outrora mas as gentes de hoje não valorizam esse património… talvez pelo douto desconhecimento. Nasceste nestas terras tal como nasceste em Belém há dois mil anos. Nasces em cada homem, em cada mulher, nas crianças, nos jovens que sem futuro aqui, à semelhança dos seus avós, partem para outras paragens, a menos que queiram ficar devedores de favores a quem lhes concede um trabalhinho que, sendo público, é gerido numa esfera privada. Ainda bem, ó menino Jesus, que José e Maria eram livres nas suas opções.
O menino Jesus nasceu. É Natal. Mas será mesmo Natal? Chamem as luzes as câmaras, os fotógrafos para revelarem a ação do presépio da real vida. O despovoamento (desertificação é um lugar sem árvores e coisas assim, ok?), a clivagem da estratificação social, o empobrecimento, a diminuição das condições de vida, o agravamento dos índices das condições materiais de vida… Com uma população ativa muito baixa, população juvenil em decrescendo e sem ideias para reverter. Bem… pelo menos há presépio. E bem bonito que ele é. Não estou a ser irónico, é mesmo. Mas o presépio da vida real é bem diferente. Esse não tem publicidade nem quem o queira promover. Esperemos que pelo menos o queiram resolver!

Mas é Natal… ouve-se pela música que toca lá fora… vê-se pelas luzinhas, sabe-se porque é noticiado à hora de jantar… O Natal tem muitas faces. Cada um constrói a que quer…
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«Desassossego», opinião de César Cruz

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