Ideologia ou falta de ideias?

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

Vivemos num tempo em que a ideologia volta a ocupar um espaço vital. As políticas sociais seguidas por qualquer governação e a aplicação das mesmas, nacionalmente e localmente, dependem diretamente da corrente ideológica de quem as elabora. Mas pior do que não ter uma ideologia é mesmo não ter ideias…

César Cruz - Capeia Arraiana

Mas pior do que não ter uma ideologia é mesmo não ter ideias…

A organização das Nações Unidas mostra-se profundamente preocupada com Portugal. Ainda com o calor da meritória presença de António Guterres à frente daquele órgão mundial, a ONU vem a público afirmar a sua preocupação para com Portugal.
Os efeitos das políticas neoliberais de austeridade, impostas e seguidas pelo anterior governo, conduziram a população portuguesa, nacional e concelhia, em situações que hoje, mais do que nunca, começam a ser verdadeiramente nítidas e que irão marcar o futuro próximo.
À crise económica seguiram-se políticas de austeridade que colocaram a sustentabilidade financeira acima da proteção dos mais fracos. Com isto a sociedade portuguesa viu aumentar a clivagem da desigualdade social e a subida drástica dos índices da pobreza, tal como tenho referido neste espaço ao longo destes últimos anos. Não acreditamos que, pese o esforço, as novas políticas seguidas neste momento consigam inverter rapidamente o estrago causado. Os relatores da ONU, que efetivaram o seu estudo no terreno, consideram que a legítima preocupação pela sustentabilidade financeira nos tempos de crise, não deveria ter ignorado a proteção aos mais vulneráveis. São linhas ideológicas o que separam as políticas sociais colocadas em prática. Não é uma questão de partidos políticos. É mesmo sobre as ideias seguidas.
Na verdade a ideologia, tantas vezes esquecida e enfiada nas gavetas, tem vindo a assumir um novo papel territorial, quer no mundo global quer na escala micro do nosso território. Portugal afirma-se recentemente como o bastião da autêntica social-democracia, mesmo que lhe chamem geringonça, ao colocar a dignidade humana num papel central. É tempo de afirmar a ideologia para implementar ideias e as mesmas serem transformadas em ação. Quando o ser humano for esquecido das políticas da causa pública, em detrimento dos interesses financeiros, ele perderá o espaço que conquistou na Carta dos Direitos Humanos.
O que nos separa neste momento, no mundo, no país, neste concelho, não são cores, raça, religião ou a forma como governados e governantes retiram dividendos mútuos. Na verdade ainda há quem pense que Deus é de direita. Será mesmo assim? O que nos separa é o lugar onde a pessoa humana é colocada quando se elaboram e aplicam as políticas sociais. Ao invés de a pessoa humana ser instrumentalizada em favor de benefícios próprios, credores de dividendos, ela e a sua dignidade terá de ser o motivo, a causa e o motor de toda a intervenção na causa pública. Mas sejamos também francos. Pior do que não ter ideologia é não ter ideias do caminho a seguir…

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«Desassossego», opinião de César Cruz

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