Portugal, o Interior e os Jovens ‘Nem-Nem’

José PIres Manso - Fóios - Colaborador - Capeia Arraiana

As estatísticas mostram e as agências noticiosas relataram uma diminuição significativa dos mais novos em Portugal, que em 2015 havia menos 203.655 crianças dos 0 aos 14 anos e menos 604.703 jovens que em 2001. Com alguns dos municípios mais envelhecidos do país por falta de jovens e por excesso de reformados como está a Beira Interior e a Cova da Beira neste cenário?

José Pires Manso

José Pires Manso

Segundo o portal Pordata a percentagem de jovens dos 15-29 anos portugueses baixou seis pontos de 2001 para 2015, sendo agora de 16%. Os números mostram uma diminuição significativa dos mais novos em Portugal, de crianças, e especialmente de jovens. Comparando 2001 com 2015 verifica-se que neste ano havia menos 203.655 crianças dos 0-14 anos e menos 604.703 jovens do que no 1º ano. Isto no período 2001-2015 (15 anos) em que houve a uma diminuição da população total portuguesa de apenas 4.646 pessoas. Por sua vez a percentagem de crianças do escalão 0 aos 14 anos em relação à população total passou de 16% para 14%, logo baixou 2%, de 2001 para 2015, enquanto na faixa dos jovens dos 15 aos 29 anos a queda foi ainda maior pois passou de 22% para 16%, uma queda de 6%.

Faltam jovens ao Interior

Faltam jovens ao Interior

Repartição por concelhos: Os dados mostram também que Ribeira Grande e Lagoa, nos Açores, são os municípios com maior percentagem de crianças (21,6% e 18,9%, respectivamente), seguindo-se Alcochete e Mafra e Câmara de Lobos (da Madeira). Quanto aos jovens são também municípios dos Açores e Câmara de Lobos os que apresentam maiores percentagens. Os Açores são aliás, a região mais jovem do país. No outro extremos temos os municípios com menor percentagem de crianças em que Vila Velha de Rodão lidera pela negativa com 4,8%. Seguem-se Almeida, Oleiros, Alcoutim e Penamacor (neste caso com 6,9%). Destes quatro concelhos três são da Beira interior Sul e um é da Beira Interior Norte. Por sua vez no que diz respeito a jovens entre os 15 e os 29 anos é Alcoutim no Algarve o que tem menor percentagem, seguindo-se Idanha-a-Nova, Corvo, Pampilhosa da Serra e Sabugal, um do Algarve, dois municípios da Beira Interior Sul, um da Beira Interior Norte e outro dos Açores. O concelho de Alcoutim, no Algarve, é, também, o concelho que tem menos jovens logo o mais envelhecido nesta faixa etária.

Os jovens, a emigração, a idade do casamento e de procriação: O cruzamento de dados da Pordata permite ainda saber que em 2014 a faixa etária entre os 15 e os 29 representou uma importante parcela da emigração, precisamente 39,5% do total de emigrantes permanentes e 43% dos emigrantes temporários. Outros dados do portal estatístico indicam também que os jovens casam e têm filhos cada vez mais tarde. Em média os homens casavam aos 27,8 anos em 2001 e passaram a casar aos 32,5 anos em 2015, ou seja, 4,7 anos mais tarde. Nas mulheres a idade passou dos 26,1 para os 31 anos, logo 4,9 anos mais tarde. Por sua vez o primeiro filho nasce agora aos 30,2 anos enquanto antes (2001) era aos 26,8.

Taxa de abandono precoce da escola, taxa de escolarização: Na área da educação, os números revelam que a taxa de abandono precoce dos estudos das pessoas entre 18 e 24 anos que não completam o ensino secundário (12º ano da escolaridade), é das mais elevadas da União Europeia. Contudo, a situação melhorou muito desde 1992, altura em que era de 50%. De facto, ela passou de 44,3% em 2001 para 13,7% em 2015, um decréscimo no bom sentido de 30,6%. Por género ou sexo verifica-se que em qualquer dos anos em causa foram sempre mais os rapazes que abandonaram os estudos do que as raparigas. Outro elemento importante é que a percentagem de matrículas no pré-escolar, do total de crianças entre três e cinco anos, era de 0,9% em 1961, passou para 51,7% em 1992 e atingiu em 2014 os 87,8%, isto é quase 90% das crianças até aos 5 anos está matriculada no pré-escolar, um movimento em sentido positivo.
Taxa de desemprego dos jovens, por cá e na Europa: Quanto ao emprego dos jovens, ou antes o seu desemprego, o cruzamento de dados mostra que são cada vez menos os jovens que estão no mercado de trabalho e que são eles os mais penalizados, pois a taxa de desemprego é quase três vezes superior à taxa média de desemprego geral do país. De facto, para pessoas dos 15 aos 24 anos, a taxa de desemprego que era de 18,3% em 1983 – e comparava com a taxa global de 7,8% -, passou para 32% em 2015 – valor que compara com a taxa média de 12,4%.
Confrontando com o que se passa na União Europeia temos a seguinte situação: em 2015 a taxa de desemprego dos jovens entre os 20 e os 24 anos em Portugal era de 29,4% contra 19,1% na União Europeia, ou seja, lá era menos 10,3%. A mesma taxa de desemprego era de 15,8% para a faixa etária dos 25-29 anos enquanto a média desta faixa etária era na União Europeia de 12,4%. Só a Grécia, a Espanha, a Croácia, a Itália e o Chipre tinham taxas de desemprego entre os jovens mais elevadas. Do outro lado, a Alemanha, Malta e Holanda tinham das taxas de emprego mais elevadas e logicamente as taxas de desemprego mais baixas. Já no mundo digital os jovens portugueses não são diferentes dos europeus pois, de acordo com os números da base de dados de Portugal contemporâneo, há 99,3% a utilizar Internet, praticamente todos os jovens. Em 2002 essa percentagem era menos de metade, 42,8%. Estes e outros números fazem parte de uma comparação de dados estatísticos feita pelo portal Pordata, a que a agência Lusa teve acesso e depois divulgou.

Carência de jovens no Interior - a situação é dramática

Carência de jovens no Interior – a situação é dramática

O drama da geração ‘nem-nem’ europeia e portuguesa: Por geração nem-nem entendemos a população da faixa etária dos 20 aos 24 anos que nem trabalha nem estuda. Os dados sobre os ‘nem-nem’ da União Europeia mostra que há imensas pessoas entre os 20 e os 24 anos que nem estudam nem trabalham, o que revela um cenário dramático para os jovens europeus. De facto, quase uma em cada cinco pessoas entre os 20 e os 24 anos está nessa situação. Aliás, a Europa é o continente mais envelhecido, e, paradoxalmente, é também onde os jovens são mais desperdiçados. Por sua vez o drama dos nem-nem em Portugal está ainda pior do que o da média da UE. Quando se fala de capital humano, esta realidade crua revela uma destruição de valor dos recursos humanos e um travão ao crescimento potencial quer da economia europeia quer da Portuguesa e sendo Portugal um país de escassos recursos, este desperdício chega a ser um crime de lesa-pátria.

Os jovens, a Cova da Beira e o resto do Interior: No que diz respeito aos jovens da Cova da Beira e do resto do Interior beirão a situação é ainda mais dramática porquanto nesta parte do país os jovens são ainda em menor número do que no litoral e desses a maior parte não consegue encontrar trabalho por cá já que o número de empresas aqui instaladas é diminuto e a oferta de empregos é extremamente limitada. De facto, a desertificação e abandono destas terras têm deixado mossas bem marcantes nesta região, e a geração dos nem-nem que têm que viver à custa dos pais ou familiares também aqui é significativa. O facto de nas estatísticas acima referidas aparecerem alguns concelhos da região é sintomático do que acabamos de afirmar.
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José Ramos Pires Manso, Prof Catedrático, UBI e ODES

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