A comunicação de Pinharanda Gomes

Sabugal - © Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CONGRESSO DO FORAL DO SABUGAL :: :: Os trabalhos do segundo dia do Congresso, em 9 de Novembro de 1996, prosseguiram cm a intervenção do filósofo Pinharanda Gomes, que falou sobre o tema «Os Geógrafos da Coa».

Pinharanda Gomes

Pinharanda Gomes

Jesué Pinharanda Gomes nasceu em Quadrazais, em 1939. Foi gestor comercial, ao mesmo tempo que desenvolveu uma paralela e constante actividade literária, sendo autor de diversos estudos sobre a diocese da Guarda e região de Riba Coa, assim como sobre Filosofia Portuguesa. Reeditou as obras geográficas de Carlos Alberto Marques sobre o rio Coa e a serra da Estrela.
Como já se disse, Pinharanda Gomes esteve na génese do Congresso Comemorativo do Sétimo Centenário do Foral, integrando o grupo de trabalho da Casa do Concelho do Sabugal para a organização da cimeira.

Transcrevemos a comunicação apresentada por J. Pinharanda Gomes:

1. O rio Coa! Nomenclatura tardia na nossa cultura. Ribeira, melhor: rebeira, sempre por estas terras soubemos o que fosse. Coa veio por acréscimo, ou por empatia das ciências hidrográficas. É necessário retomar arcaísmos vivos da cultura ribacudana e das circunstâncias de vida. Quando D. Diniz confirmou o foral do Sabugal, é óbvio que esse acto não se tornou de um momento para o outro do domínio público. Nem sequer sabemos hoje como é que ele foi anunciado pelas povoações, tal como ignoramos de que modo os povos foram informados da sua entrada no reino de Portugal, e em que língua o anúncio lhes foi feito (em leonês?), e nem tudo teria ficado claro como água de um dia para o outro. Com efeito, ouviriam arautos do rei de Portugal e teriam noção do tributo a pagar ao reino, mas, nas suas igrejas matrizes, continuavam a ouvir os párocos apresentados pelo bispo de Ciudad Rodrigo, uma vez que o tratado de Alcanizes omitira a transferência da jurisdição eclesiástica para bispo português. E este dualismo manteve-se até muito tarde. Através de crises e crises, Riba Coa foi anexado ao bispado de Lamego, mas só se integrou de modo oficial e canónico, nos princípios do século XV. O sentido de vizinhança municipal era um facto, mas o sentido de participação nacional julgamo-lo inexistente. Éramos uma Irmandade sujeita aos leoneses, e a fortaleza do Sabugal vigiava, de Leão, o reino de Portugal, só depois D. Diniz a recuperando, para a tornar vigia de Portugal face a Castela.
A noção de uma unidade contínua no lugar é complexa para os povos dos ermos. A rebeira, os povos sabem que vem de ali e que corre para acolá. Que haja uma nítida ideia de que se trata de um curso de água com princípio, meio e fim é intelecção mais complexa. Coa! Rebeiras, muitas, cada aldeia tem a sua. Só os ilustrados eventualmente conhecem o percurso na generalidade. Para a cultura popular, é a rebeira de Vale de Espinho, a rebeira de Quadrazais, a rebeira de Sabugal, e por aí adiante. Nos documentos de D. Sancho I chama-se «rio de Pinel», rio de Pinhel! Ao nível epistemológico, os povos não sabem o que é o rio Coa; conhecem, isso sim, fragmentos do rio, o seu próprio fragmento, a sua rebeira. Só a mui tardia introdução da disciplina de Geografia nas escolas, com a memorização dos nomes dos rios, tornou possível a fixação da forma designativa oficial, Rio Coa.
Ora, o povo continua a dizer rebeira. No latim, os nomes relativos aos cursos de água eram do género feminino, e ainda na língua francesa esse arcaísmo se regista, na forma rivière. E os franceses não dizem o Sena, mas a Sena. E assim também por estas nossas terras era comum as pessoas dizerem – quando o nome se vulgarizou – a Coa e raramente o Coa. Coa é mulher, criatura feminina.
Quanto ao significado do nome, dizer ribeira Coa é o mesmo que dizer ribeira – ribeira, pois Coda já significa ribeira, caudal. Coa é o caudal por excelência numa região, esta de Entre Tagus e Durius, aquém Estrela, em que os grandes rios escasseiam. Pequena embora, Coa é pessoa de respeito.
Os escritores romanos lhe chamaram Cuda e por aí se ficaram, na simples menção da correnteza, na qual já os romanos, já os estrategas da Guerra Peninsular abundam, sem outro intuito que não seja o do pragmatismo táctico – os sítios, as vaus, as ribas, enfim, o que se designa por topografia militar. Seria estranho, que fossem os romanos a baptizar o rio. Antes deles, e mesmo sem a total visão geográfica do acidente hídrico, os povos chamariam a esse curso de água algum nome. Nome esse que seria, como sempre foi, rebeira, sem mais nada; e que os romanos traduziram por coda ou cola que significa isso: a ribeira, o caudal. É inevitável, hoje em dia, dizer Rio Coa; mas é repetitivo. Coa é ribeira. E a forma cuda parece espúrea. A forma genuína aberta, ei-la: coda, Coa.
Feminina, a Coa foi, no decurso do tempo, grave acidente na geografia política. Serviu de fosso entre ribacudanos e transcudanos nos tempos tribais, e através da Reconquista; serviu de raia leonesa, na parte de Cima-Coa, face ao novo reino português. E quem construíu o castelo – D. Diniz apenas o reconstruíu e ampliou – fê-lo a par do rio, como que para dispôr de uma fortaleza com fosso, a ribeira. Sem este forte motivo, a cidadela poderia ter sido construída no esporão sobranceiro a nordeste, mais afastado do rio, em vez de ter sido erecta neste esporão, mesmo junto ao rio de tal forma junto que, numa poética descrição de Nuno de Montemor, no romance Maria Mim, se o rio desse uma volta, acabaria por criar ilha e envolver o castelo. Quem o construíu quis ter castelo defendido por fosso. O lugar do rio na topografia militar das campanhas da Restauração e da Guerra Peninsular é imenso, constando das memórias do Duque de Wellington e da História da Restauração do senhor Conde de Ericeira, e também, decerto, dos estrategas franceses, como acidente para tropas que, provindas de Espanha, quisessem atravessá-lo para acharem mais destro caminho rumo a Abrantes e, pois, rumo a Lisboa. Teve igual importância na definição dos limites do chamado «bispado de Riba Coa», ou diocese de Pinhel, instituído por D. José I para reduzir o poder da diocese de Lamego e, sem dúvida, para criar melhores condições de acesso à cultura aos povos ribacudanos. E hoje, a Coa é imagem mediática de primeira instância, espaço sagrado de aparições de enigmas ocultos durante milénios aos olhos humanos, enquanto, por causa de barragens e de não-barragens, leva uns a perder e, outros, a ganhar o político poder.
Ainda se não achou uma indubitável etimologia do topónimo Quadrazais. Nome arcaico, com possíveis e ainda enigmáticas origens leonesas, não está provado que o nome Coa faça parte do nome Coadrazais, e assim escrevemos, por em muitos lugares e em diversos tempos aparecer essa forma. No topónimo Trancoso, o residual de Coa parece mais sensível e justifica-se: o que está além do Coa, por isso que aos da margem direita se chama ribacudanos e, aos da margem esquerda, transcudanos. Todavia, os que estão na margem esquerda também se referem a nós, os da margem direita, como transcudanos, porque em relação a eles estamos de facto no trans-Coa. E, sendo assim, trancoso é relativo; é trancoso para quem está de um lado, ou para quem está de outro. José Leite de Vasconcellos, que viajou muito por trancos e barrancos, preferiu chamar-nos, aos da margem direita, quadrazenhos. Caminhando de sul para norte, a Beira Baixa termina com o campo, ou campina, ainda hoje se dizendo campo e camponeses das terras e povoações da Beira Baixa. Entra-se então na Terra Fria. E diz o sábio etnógrafo: «os habitantes chamam-se serranos. Também ouvi chamar, por extensão, Quadrazenhos aos almocreves que vão do Sabugal negociar para longe». E noutro passo de outra obra, confirma: «Tenho ouvido por longe dizer Quadrazenhos no sentido de habitante da terra Fria: pars pro totta».

Os mais antigos geógrafos militares da época romana chegaram a deixar os exércitos romanos informados de que o rio nasce, umas vezes na Serra da Estrela, outras na Gafe(?). Em que medida esses geógrafos transmitiam informações falsas, por as receberem já corruptas, ou falseadas, pelos informadores aborígenes, opositores à dominação romana? Fr. Manuel de Figueiredo, cisterciense, move a acusação aos antigos escritores romanos e lá diz o que sabe. Porém, quando trata da ribeira da Baságueda, incorre em dislate, assim: a Baságueda, que nasceria na Quinta do Abade, «corre de Quadrazais até o Elga». É evidente que a bonita ribeira da Baságueda é criatura que Quadrazais não vê, por correr na vertente sul da serra da Malcata, e, depois de um percurso de seis léguas entra no rio Elga, ou Erges, para morrer no Tejo. O que ainda se não acha bem claro é quem ocupa o leito de quem: se o Erges o da Baságueda, se a Baságueda o do Erges.
«Ribeira de Coa de Tralosmontes» é o que lhe chama Duarte Nunes de Leão talvez por correr para norte, ainda que, da informação do geógrafo, a ribeira (e neste dizer foi correcto) nasça junto de Alfaiates (e aqui esteve mal informado). Pouco mais ou menos na mesma época, Fr. Bernardo de Brito oferece uma pitoresca descrição da ribeira: e não fosse, também ele, citando outros geógrafos antigos, levado pela ideia da nascente em Alfaiates, tudo seria perfeito, como é perfeito do ponto de vista literário: «É rio de muita cópia de peixe, como são barbos, bogas, bordalos e outros modos de pescaria. A cor das suas águas é pouco clara, tirante a verde escuro: é de malíssima digestão, e mui pesada, causa tristeza, dores de barriga e de cabeça, engrossa o entendimento, e para mulheres formosas é de mui pouco proveito, porque lhe dana o carão notavelmente: só tem virtude para tingir lãs, e caldear ferro, que neste particular é excelente».
Os Fóios é que parece os eruditos não conheciam. Ao definir o território de Riba Coa, Fr. António Brandão escreve: «Uma língua de terra de quinze léguas de comprido, e de largo quatro, aonde tem mais largura. Está lançada de norte a sul, e cingida da parte de Portugal com o rio Coa, que tendo um nascimento na serra da Xalma, que é uma parte da (serra) de Gata, faz uma entrada em Portugal pelos lugares de Fologosinho, Val de Espinho e Quadrazais, donde se avizinha de Sabugal, primeira vila acastelada desta comarca». Onde descobria o cisterciense aquela primeira terrinha que não existe em Riba Coa nem na raia cudana? E o Prior de Seixo do Coa a escrever (em 1758!) que os Fóios são Espanha? Enfim, o rio nasce na própria fronteira e não cria qualquer fronteira. Até se poderia ter dado o caso de a nascente se situar mais no topo, e as águas acabarem a correr, não para este lado, mas para Espanha. E seria um rio leonês, possível afluente do Tejo, ou seu subafluente.
João Bautista de Castro pode ter citado Fr. António Brandão. Primeiro anota, aliás bem, haver dois Coa no reino: o Coa (versão moçárabe: Alcoa) que, juntando–se ao rio Baça, dá o nome à bonita cidade de Cister-Alcobaça. Segundo, regista as versões sobre a nascente (Alfaiates, e Serra da Xalma), e, neste caso, diz que a primeira povoação é Fologosinho. No mais, quanto às virtudes das águas da ribeira arrima-se a Brandão e nem questiona. Talvez, por ser mulher, a Coa não fosse boa de roer pelas outras. Ou talvez os geógrafos preferissem fazer ciência no gabinete, depois dos esgotamentos dos cosmógrafos transoceânicos. Porém, num manuscrito de Brás Garcia de Mascarenhas, tornado público por Cunha Saraiva, o ilustre escritor e militar diz: «O Coa desce pelos lugares de Foginho, Vale de Espinho, Quadrazais do Sabugal que lhe fica de leste». Aqui não restam dúvidas: no século XVII Fóios era vulgarmente conhecido por Fojinhos, de onde a grande contradança de Fologosinho. Coisas de caligrafia e de intérpretes calígrafos! E situa com rigor a nascente na Nave Molhada.
Não obstante os esclarecimentos aportados pelo Inquérito de 1758, a confusão persistiu, já o século XIX tombava para o ocaso. Vejamos o interessante trecho relativo a uma localidade, chamada Valverde, e que só poderá ser o pueblo de Valverde del Fresno, em Espanha: «… aldeia, Beira Baixa, na freguesia de Quadrazais, comarca e concelho do Sabugal. É a última povoação portuguesa por este lado, e terra de contrabandistas incorrigíveis e corajosos. Fica sobre a margem direita do Coa, que divide aqui Portugal de Hespanha».
A informação diverte-nos, por causa das anomalias: nem Valverde pertence a Quadrazais, nem é o último povo português por este lado (que é Fóios do Coa), nem o rio alguma vez serve de fronteira entre Portugal e Espanha, pois nasce no Lameiro dos Lourenços, ou Curral das Moreiras, na serra da Nave Molhada e na sua vertente portuguesa.
O coreógrafo José Maria Baptista, numa viagem que deve ter sido esgotante, visitou o concelho de Sabugal em 1837 e fixou a nascente do rio nos Fóios. E lamenta, por se achar muito cansado após marcha forçada e descanso mui curto, não ter lido a lápide com a quadra que a lenda atribui a D. Diniz.
Não obstante, a sua informação, merecedora de crédito, não colheu o apreço do autor do artigo «Coa» para o Dicionário Popular de Pinheiro Chagas, e as inexactidões antigas agravaram-se: afinal o Coa nasce perto de Sortelha». O prestimoso autor também depreciou a mais clássica informação, ainda constante de Faria e Sousa, que, para não criar novo erro se cingiu aos antigos, aliás como Bernardo de Brito e outros, que eram homens de pouco viajar, pelo menos no profundo interior. E assim Faria e Sousa diz que o rio nasce em Alfaiates.
O inquérito do Ministério do Reino dirigido às Paróquias, em 1758, colocou nas mãos do Ministério uma visão extensiva e compreensiva do rio. Cada um dos párocos das freguesias de ambas as margens respondeu aos quesitos sobre a existência do rio, a sua natureza física e geográfica, características ecológicas e económicas, havendo respostas mais completas umas, menos completas outras. Porque estamos no Sabugal, diremos que as respostas das paróquias concelhias são quase muito precisas e bem elaboradas, com realce para a de Fóios, Vale de Espinho, Quadrazais, e Malcata e para as respostas das duas paróquias da vila – Santa Maria do Castelo e S. João Baptista. Os abades de ambas as freguesias deverão ter conciliado sobre o teor das respostas e, por isso, no que ao rio se refere, o teor de ambas as respostas é idêntico, diremos literalmente idêntico. Assim se constituíu a primeira biografia total do rio, se bem que parcelizada por troços, mas, estando os documentos disponíveis, fácil é juntá-los, e obter o cenário do rio Coa em 1758.

3. Releva de curiosidade rever o que da ribeira sabiam os párocos das freguesias que ora se acham no concelho de Sabugal, em 1758. O questionário sobre os rios fazia parte do terceiro capítulo do Inquérito do Ministério do Reino, constando de dezanove perguntas:
«O que se procura saber do rio dessa terra é o seguinte:
1. Como se chama, assim o rio, como o sítio onde nasce? 2. Se nasce logo caudaloso, e se corre todo o ano? 3. Que outros rios entram nele, e em que sítio? 4. Se é navegável, e de que embarcações é capaz? 5. Se é de curso arrebatado, ou quieto, em toda a sua distância, ou em alguma parte dela? 6. Se corre de norte a sul, se de sul a norte, se de poente a nascente, se de nascente a poente? 7. Se cria peixes, e de que espécie são os que traz em maior abundância? 8. Se há nele pescarias, e em que tempo do ano? 9. Se as pescarias são livres, ou de algum senhor particular, em todo o rio, ou em alguma parte dele? 10. Se se cultivam as suas margens, e se tem muito arvoredo de fruto, ou silvestre? 11. Se tem alguma virtude particular as suas águas? 12. Se conserva sempre o mesmo nome ou começa a ter diferente em algumas partes, e como se chamam estas, ou se há memória de que em outro tempo tivesse outro nome? 13. Se morre no mar, ou em outro rio, e como se chama este, e o sítio em que entra nele? 14. Se tem alguma cachoeira, represa, levada, ou açudes que lhe embaracem o ser navegável? 15. Se tem pontes de cantaria, ou de pau, quantas, e em que sítio? 16. Se tem moinhos, lagares de azeite, pisões, noras, ou outro algum engenho? 17. Se em algum tempo, ou no presente, se tirou ouro das suas areias? 18. Se os povos usam livremente das suas águas para a cultura dos campos, ou com alguma pensão? 19. Quantas léguas tem o rio, e as povoações por onde passa, desde o seu nascimento até onde acaba?»
As respostas, algumas deveras completas, outras muito breves, nalgumas se vendo flagrantes de ignorância, dispostas pela ordem sequencial de situação nas margens, ajudam-nos a compreender melhor a visão que, ao tempo, as populações tinham do rio.
FÓIOS – «1. – Chama-se o Rio Coa. Nasce nos princípios da Serra das Mezas, junto ao pé da raya de Castella no sitio chamado os Currais da Moreyra, lemite deste Lugar, para a parte do nascente. 2. – Nasce quieto e corre todo o anno. 3. – Dentro do lemite deste Lugar nam entra nelle rio algum. 4. – Nam hé navegavel, nem capaz de embarcaçois algumas. 5. – He de curso muito arrebatado dentro do lemite deste lugar, que hé distante de huma légoa, por ser terra muito agreste. 6. – Corre do Nascente para o Poente. 7. – Cria peixes chamados trutas em muita abundância no lemite deste Lugar, e nam cria outra casta de peixes. 8. – Neste nam há pescarias particulares, sam comuns todo o anno para quem quer pescar, excepto nos tres mezes Abril, Mayo e Junho, prohibidos pella Ley deste Reyno. 9. – As pescarias no lemite deste Lugar sam livres, nam tem senhor particular. 10. – Nam se cultivam as suas margens, por ser terra muito agreste, tem muito arvoredo, mas todo silvestre, que nam dá fruto. 11. – Nam tem vertude nenhuma as suas ágoas. 12. – Sempre conserva o nome Rio Coa, e nam sey que tenha nem nunca tivesse outro. 13. – Tenho noticia certa que morre no chamado Douro, ao pé da Villa Nova de Foz Coa, daqui dezoito légoas, o sitio como se chama nam tenho noticia. 14. – Nam tem cachoeyra, repreza, nem açudes nenhuns dentro do lemite deste Lugar. 15. – Tem hum pontam de pao ao pé deste Lugar, em huma estrada que vay para Vila de Valverde, Reyno de Castella, que dista deste Lugar huma légoa. 16. – Tem dois moinhos, cada hum com sua pedra de moer pam centeyo, nam tem mais engenho assim. 17. – Nunca se tirou ouro dele, nem de sua areas, dentro do lemite deste Lugar. 18. – O povo uza das suas ágoas livremente sem pençam alguma. 19. – O Rio tem dezoito légoas desde o seu nascimento que hé no principio da Serra das Mezas daqui meya légoa, passa ao pé deste Lugar para a parte do nascente, daqui vay ao Lugar de Val de Espinho que dista daqui huma légoa, e dahi vay ao Lugar de Coadrazais, que dista daqui duas légoas, e dahi vay a Villa do Sabugal, que dista daqui tres légoas, e sempre pella parte do nascente e das mais povoaçois por onde passa, nam tenho certeza dos seus próprios nomes. (13.5.1758. Padre Cura: Domingos Martins).
VALE DE ESPINHO – Resposta que se dá sobre a Ribeyra deste povo. 1. – Chama-se o seu nome Coa; tem o seu principio ou nascimento no sobredita Serra da Nave Molhada ou Serra das Mezas. 2. – Nam nasce caudalozo, porém corre todo o anno. 3. – Nam entrão por estas partes Ryos notáveis nelle, mais que tam somente innumeráveis regatos que por serem muitos o fazem caudalozo pello discurso, mas não tem nome. 5. – Quazi na mayor parte delle hé de curso bastantemente arrebatado, por ir quazi sempre enfregado. 6. – Do seu nascente athé a Villa do Sabugal, em espaço de tres legoas, corre directamente de Nascente ao Poente, e dahi, virando, corre do Sul ao Norte athé onde fenece o seu nome, posto que em algumas partes faça alguns reflexos, porém pequenos. 7. – Desde o seu nascimento athé este povo, não cria mais que tam somente trutas, barbos, bordallos, e bogas e enguias, porém a mayor quantidade sempre hé de trutas athé o Sabugal, a dahi athé o seu fenecimento, não se cria senão barbos e bogas e enguias. 10. – Nam se cultivão as suas margens, por ser muito enfragado, e aonde o não hé, por ser muito frias; e emquanto se nao aparta o Ryo da Serra, tem muito arvoredo, porém tudo couza muy aspera por ser sylvestre. 11. – Tem vitude particular, mas se entende, nas cezoens. 12. – Conserva o seu nome athé se meter no Ryo Douro, e não consta nem há memória que em algum tempo tivesse outro nome. 13. – Vay ter o seu fenecimento, como assima fica dito no Ryo Douro, junto a Villa Nova de Fozcoa. 15. – Tem neste povo huma ponte de madeyra, outra em Coadrazais de madeyra, outra no Sabugal de pedra, outra junto a Badamalos de pedra, outra junto a Castello Bom de pedra, outra junto a Villa de Almeyda de cantaria, e outra em Val da Madeyra de cantaria. 16. – Tem em todo o seu decurso muita quantidade de moynhos e alguns pizoens. 17. – Haverá dez ou doze annos, vieram huns poucos de homens e no dito Ryo tiraram algum ouro e também em alguns regatos que da Serra emanão. 19. – Tem este Ryo desde o seu nascimento athé onde acaba, quinze ou dezasseis légoas de curso. As povoaçoens por onde passa o tal Ryo, das que eu tenho noticia, são a saber: Foyos, Val de Espinho, Coadrazais, Malcata, Sabugal, Rendo, Val das Egoas, Rapoula, Vallongo, Vadamalos, Porto de Ovelha, Castello Bom, Almeyda, Val da Madeyra, e daly athé onde fenece, não tenho noticia das povoaçoens, e não tenho mais noticias que dar sobre estes interrogatorios, nem de todos os mais. (3.6.1758. Cura: Jerónimo Fernandes).
QUADRAZAIS – Resposta sobre a Ribeyra deste Lugar: 1. – Junto a este povo de Coadrazaes, como já se disse, passa huma Ribeyra chamada Coa. Esta nasce, distancia deste povo duas legoas, perto de huma Aldea chamada Foyos, em hum sitio chamado Currais das Moreyras, de fronte de hum cabeço que chamam o Cabeço Vermelho, na distância de dous tiros de mosquete da Serra já nomeada da Nave Molhada ou das Mezas. 2. – Nasce a dita Ribeyra dando vista ao Norte, logo bastantemente vigoroza, porque em menos de meyo quarto de legoa moem logo nella moinhos. Corre todo a anno por estas vizinhanças, em espaço de outo ou nove legoas, sem embargo de que, haverá seis annos, secou no tempo de Verão, em muitas partes, mas foy cazo que outro se não conheceu dos nascidos. 3. – As Ribeyras de que tenho noticia entram nella, há uma chamada dos Sargaçais, perto da Villa do Sabugal; outra chamada a Ribeyra de Pega, perto de hum povo que chamam Rapoula; outra chamada Ribeyra de Villar Mayor, junto a hum povo que chamam Vadamallos. 4. – Nam me consta, que a dita Ribeyra seja navegável, e só tenho noticia, que lá perto donde se mete no Rio Douro, tem suas barcas de passagem. 5. – Hé de curso arrebatado, em toda a sua distancia, menos em algumas partes, mas em muito pouco espaço, como em alguns açudes ou pedaços de terra que chamam veigas. 6. – Tem a dita Ribeyra o seu nascimento ao nascente do Sol, sem embargo, de quando nasce dá vista ao Norte, como levo dito, e leva o seu decurso a Nordeste para o Poente. 7. – Os peixes que cria nestas vizinhanças, por serem aguas muito frias, sam trutas com suficiente abundancia, cria tambem barbos, bordallos e bogas, no espaço de tres legoas de distancia, e no mais espaço do seu decurso, jaá cria poucas trutas, por serem aguas mais quentes, mas cria em mais abundancia dos mais peixes acima nomeados, e mais criaria se o tempo ou mezes defezos com rigor se observassem, e se prohibissem os materiais que no Rio se lançam para matar os peixes, com que morrem grandes e pequenos. 8. – Em todo o tempo do anno, há na dita Ribeyra pescarias, porque se não observam os tempos prohibidos pella ley do Reyno. 9. – Por estas vizinhanças, em espaço de quatro legoas, não me consta que na dita Ribeyra haja pesqueyros, porem mais abaixo, me consta que alguns há de pessoas particulares. 10. – Em alguns sitios da dita Ribeyra, se cultivam as suas margens, como na Villa do Sabugal, e junto a um povo Vadamallos, e em outros sitios mais; mas nam me consta de que se valham das aguas de tal Ribeyra para a cultura dos campos, o que tudo hé incuria dos habitadores. Athé onde chega a minha noticia, nem me consta que tenha arvores de fructo; sem embargo que as poderá ter, em muitas partes, se houvesse curiozidade. De arvores sylvestres tem bastantes, na mayor parte de seu decurso, como sam amieyros e outras mais de semelhante qualidade. 11. – A este nam há que responder. 12. – Desde o seu nascimento athé onde morre, sempre conserva o mesmo nome, nem consta que em tempo algum tivesse outro. 13. – Vay morrer em hum Ryo chamado Douro, em distancia de dezasseis legoas, nas vizinhanças de huma Villa chamada Villanova de Foscoa, e naquelle sitio hé só que perde o seu nome. 14. – Nam tem a tal Ribeyra capacidade que admita navegaçoens, porque suposto leve bastante agua e hé bastantemente caudaloza, contudo nam se pode navegar, por razam de serem sitios muito fragozos as mais das partes por onde passa, alem de que tambem nam leva aguas bastantes para navegaçoens. Nam me consta que tenha cachoeyra ou reprezas grandes, e só sim pella mayor parte della tem quantidade de assudes e pegos, por razão dos moinhos que nella há. 15. – Athé onde se estende a minha noticia, me consta que a dita Ribeyra tem sette pontes:duas dellas com pilares ou cortamares de cantaria; e o pavimento de madeyra; huma dellas está em huma Aldea chamada Val de Espinho e outra está neste povo de Coadrazaes. Das cinco de cantaria huma está na Villa do Sabugal, outra que chamam a ponte de Sequeyros, perto de hum povo chamado Miuzella, outra junto a Villa de Castello Bom, outra meya legoa distante da praça de Almeyda, e outra perto de hum povo chamado Sinco Villas. 16. – Só me consta que a dita Ribeyra, pella mayor parte della, tem moinhos, e de que tenha lagares ou pizoens me não consta. 17. – Conheço-me lembrado de que haverá vinte annos, pouco mais ou menos, vieram as vizinhanças de este povo certos homens, e que com instrumentos que traziam, tiraram nas areas e entre as pedras desta Ribeyra algum ouro, mas muito pouco, e por tirarem pouco lucro nam repetiram a vinda mais que em duas ou tres ocazioens. 18. – Nam me consta que no uzo das aguas da tal Ribeyra, para a cultura dos campos, haja pençam alguma nestas vizinhanças, mas antes, dellas se uza livremente pelos habitadores, e melhor podiam uzar, se nam foram negligentes. 19. – Tem a tal Ribeyra dezasseis legoas de curso, pouco mais ou menos em direytura, que tantas sam as que fazem da Aldea dos Foyos, aonde nasce, a Villa Nova de Foscoa, onde morre; passa por meyo da dita Aldea dos Foyos, vem á vista do Lugar de Val de Espinho, á vista deste de Coadrazaes, á vista do Lugar da Rapoula, á vista de Val Longo e Seixo do Coa, á vista de Vadamallos e Porto de Ovelha, cujas povoaçoens se acham na distancia de quatro legoas em direitura de tal Ribeyra, e nam chega a mais a minha noticia neste particular. (18.4.1758. Abade: Paulo Correa da Costa).
MALCATA – Informaçam do Rio – Chama-se o Rio Coa. O sitio aonde nasce chama-se a Serra das Mezas, aonde se divide nosso Portugal e Castella, e coatro Bispados – Guarda e Lamego, Portuguezes, e Cidade Rodrigo e Cidade de Coria, Castelhanos. Nam nasce logo caudalozo, e todo o anno corre. Entra no Rio Coa o Rio do Paa, no sitio da Seradecira (?!) Este hé navegavel(sic). Este hé de curso muito arrebatado em parte e nam em toda a sua distancia. Corre este de Nascente a Poente. Cria muito peixe de especie de trutas, e estas em maior abundancia. Algumas vezes hé pescado fora do tempo da criaçam, digo, mais fora do tempo da criaçam. As pescarias sam livres em todo o Rio. Em algumas partes se cultivam as suas margens e tem algum arvoredo silvestre. Nam sei que tenham as suas águas alguma virtude particular. Sempre teve e tem o nome de Rio Coa, e em toda a parte conserva o mesmo nome. Morre em outro Rio que se chama Rio Douro, e nam sei o sitio aonde entra por ficar muito distante o Douro. Tem levadas e açudes, mas nam embarcaçoins e navegaçam. Tem pontes: huma de cantaria na Villa do Sabugal e outra de cantaria e de pao, no sitio do lugar de Coadrazais. Tem moinhos, poizoins, e nam tem lagares, nem noras, nem outro algum engenho. Algum dia se tirou ouro de suas areas e de prezente se tira(sic). Livremente uzam os povos de suas ágoas, sem pençam alguma, para cultura dos campos. Nam sei de certo quantas legoas tem; mas parece tem sincoenta povoaçoins; e parece que tem vinte, pouco mais ou menos, isto hé desde o seu nascimento thé o Rio Douro, aonde acaba. E nam ha couza mais digna de memoria e hé a informaçam que posso dar por saber algumas couzas e outras tambem as procurei e sam as mais. (s.d. Cura: Apolinário José de Jesus Robalo).
URGUEIRA – 1. – Pelo que toca ao Rio Coa, que fica dividindo a dita freguezia com a de S. Maria do Sabugal, com o termo da mesma Villa, e com o bispado de Lamego, partindo pello meyo do mesmo Rio, nasce aonde chamão a Serra das Mezas, que dista quazi sinco legoas, na Raya de Castella, e separam os Reynos e quatro bispados: este da Guarda, o de Lamego, e dois de Castella, convem a saber Cidade Rodrigo e Coria, para memoria do qual se acha huma meza de pedra antiga, com quatro acentos, aonde se diz estão ou podem estar os quatro Prelados dos ditos bispados na mesma meza, cada hum no seu bispado. 2. – Nasce com bastante agoa, mas nam caudalozo, ainda que corra todo o anno. 6. – Corre do Sul contra o Norte e Nascente. 7. – Cria alguns peixes, cria como sam trutas, bogas, bordalos, e a maior abundancia barbos. 10. – As margens cultivam-se na mayor parte; tem arvoredos agrestes, como sam amieyros e carvalhos, e matos sylvestres. 12. – Sempre conserva o proprio nome athé entrar no Rio Douro, aonde fenece, e o sitio o poderão declarar os vezinhos. 13. – 14. – Nada. 15. – Tem nesta freguezia huma ponte de pedra, antiga, de pedra com tres olhais. 16. – Tem hum só moinho, em hum regato que entra no dito Rio por baixo da ponte, e tem tres moinhos e hum pizam. 18. – Não se uza das agoas do dito Rio nesta freguezia; não se uza das suas agoas para regar por não dar o sitio lugar. 19. – 20 – Nam há que dizer, nem outra alguma couza. E por verdade mandey fazer esta que assigney. (8.4.1758. Cura: António Martins).
SABUGAL (SANTA MARIA DO CASTELO) – Sobre os interrogatorios que pertencem a Serra, não há couza alguma que dizer, por se não achar esta Villa nas vezinhanças della. E pello que se refere aos interrogatorios do Rio, se responde o seguinte: 1. – Hé esta Villa banhada do Rio Coa, que corre junto dos muros della, em distancia de hum tiro de pedra, para a parte que olha o Poente para o Norte, cujo rio nasce tres legoas e meya distante desta Villa, na Serra chamadas das Mezas, junto da raya que divide este Reyno do de Castella, e nos contornos donde elle nasce day a divizão de 4 Bispados, convem saber: do de Lamego, do da Guarda, do de Coria e do de Cidade Rodrigo, que muito bem se podiam falar e ouvir os 4 Bispos destes Bispados, se ali se achassem, estando cada hum dentro do seu. 2. – Não nasce logo caudalozo, mas sim de varias fontes, pouco distantes humas das outras, porem quando chega a esta Villa hé já bastante caudalozo, e tem afirmado alguns geografos que hé hum dos rios de Portugal que leva mais agoa em tam pequena distancia; elle corre todo o anno, se bem que no tempo de Verão comummente so leva agoa com que possa moer duas mos. 3. – Thé que chega a esta Villa, se não mette neste Rio outro algum, e somente algum Ribeiro e Regatto, e depois que passa desta Villa, thé sahir do seu lemite, se lhe mettem somente duas Ribeiras de pouco nome: huma que vem do Poente, chamada dos Sargaçais, e outra da parte do Meyo Dia chamada a Ribeira de Arnes. 4 – Não hé navegavel. 5. – Hé de curso brando e quieto em toda a distancia e lemite desta Villa. 6. – Corre do Meyo Dia para o nascente, no destrito desta Villa. 7. – Cria com muita abundancia trutas, e de que algumas tem pezado 8 a dez arrates, barbos, bogas e alguns bordallos. 8. – Nao tem pescarias algumas neste destrito.
9. – Não há pescarias algumas de pessoa particular, e hé livre a todos poderem pescar no dito Rio, menos em alguns pegos, que encoutão os officiais da Camara desta Villa para algumas funçoens particulares. 10. – As suas margens publicas não se cultivam, nem tem arvoredo algum frutifero, e só tem alguns ameeyros em algumas das suas margens. 11. – Não tem virtude nem particularidade alguma as suas agoas. 12. – Conserva sempre o seu nome de Rio Coa, desde que nasce thé que morre, e não há memorea que tivesse em tempo algum outro nome. 13. – Morre no Rio Douro, junto a Villa Nova de Fozcoa, adonde divide o termo daquella Villa do da de Castello Melhor. 14. – Tem varias açudes no destricto desta Villa, as quais porem não sam as que primeiramente lhe impedem o ser navegavel, pois lhe cauza este impedimento a falta que esperimenta de agoas no tempo do Verão. 15. – Tem este Rio, junto desta Villa, para a parte do Poente, huma boa Ponte de cantaria, e no meyo da qual se acha hum marco de ferro, adonde se devide o termo desta Villa do da Villa de Sortelha, e o Bispado de Lamego do da Guarda. Tem mais huma ponte de pao, no Lugar de Coadrazais, e quatro de pedra depois de passar desta Villa the se meter no Douro: huma chamada de Sequeyros, outra junto a Castello Mendo, outra junto de Almeyda, e outra junto a Pinhel. 16. – No lemite desta Villa, tem este Rio hum Pizam e muitos moinhos. 17. – Algumas vezes se tem tirado algum ouro da madre deste Rio pelos homens chamados gandaeyros. 18. – Não se uza das agoas deste Rio, nos lemites desta Villa, para a cultura dos campos. 19. – Tem este rio 21 legoas e meya do seu curso, desde a Serra das Mezas em que nasce, athé o Rio Douro em que morre, e passa junto das povoaçoens seguintes, convem saber: Da parte de Sima Coa,: Foyos, Val de Espinho, Coadrazais, Sabugal, Rendo, Vale das Eguas, Vale Longo, Vadamalos, Castello Bom, Almeyda, Sinco Villas, Castello Milhor. Da parte de Alem do Coa, descorre pelas povoaçoens seguintes: Foyos, Malcata, Rapoula, Seixo do Coa, Porto de Ovelha, Castello Mendo, Sinouras, Pinhel, Muxagatta, e Villa Nova de Fozcoa. (22.4.1758. Abade: Francisco Xavier de S. Paio).
QUINTAS DE S. BARTOLOMEU – Enquanto o que se procura do Rio, respondo: 1. – Passa por esta povoaçam o Rio Coa, que divide o Bispado da Guarda do de Lamego; Nasce nos Foyos, Bispado de Lamego e juntamente no Bispado da Guarda, e dista desta povoaçam tres legoas. 2. – O seu nascimento hé moderado; a quando passa perto desta povoaçam hé caudalozo e corre todo o anno. 3. – Nam entra nelle rio algum; só huma Ribeira neste mesmo lemite, a que chamam dos Sargaçais. 4. – Nam hé navegavel. 5. – Hé de curso arrebatado no tempo de Inverno. 6. – Corre do nascente ao Norte. 7. – Os peixes que cria sam trutas, barbos, e outros mais meudos. 8. – 9. – Hé pescavel em todo o tempo “primi occupantis”. Já fica dito no anterior. 10. – 11. – 12. – Nam há que responder. Sempre conserva o seu nome athé entrar no Rio Douro. 13. – Morre no Rio Douro, supradito. 14. – Nam há que notar. 15. – Perto desta povoaçam tem huma ponte de cantaria bem fortificada, com hum marco de ferro no meio. 1_tar. 18. – Sam as suas agoas livres “primi occupantis”. 19. – Desde o seu nascimento athé esta freguezia dista tres legoas, como fica dito. (15.5.1758. Cura: António Gonçalves).
RENDO – 1. – Fica o Rio Coa com distancia desta terra hum tiro de bala de huma pessa de artelharia; nasce simo do Lugar dos Foyos, que dista deste tres legoas, na Serra das Mezas, junto à Raia de Catella. 2. – Não nasce caudalozo, mas de umas lagoas ou fontes, e neste lemite corre todo o anno. 3. – Entra neste lemite huma Ribeira chamada de Palhaes, e entra ó pé do Cabeço chamado de Caria Talaia, com distancia desta terra huma pequena legoa; e esta tal Ribeira tem os seus principios às Morganheiras, entre Villa Boa e Souto, e entra no Rio Coa. 4. – Não hé navegavel. 5. – Não hé de curso arrebatado neste lemite. 6. – Tem sua corrente do Sul ao Norte. 7. – Cria peixes com abundancia, barbos e bogas, em menos abundancia trutas, bordalos e inguias, enquanto a este lemite. 8. – Em todo o anno se pesca nelle toda a pessoa que quer. 9. – As pescarias são livres, e não senhorio particular. 10. – Cultivam-se as suas margens, e se semeia centeio, trigo, e algumas outras de feijam e milho; tem as suas ribanceiras de huma e outra parte muita arvore silvestre, amieiros e alguns carvalhos. 11. – Não consta as agoas tenham virtude particular. 12. – Sempre tem conservado o mesmo nome de Rio Coa, e não haá memoria tivesse outro nome. 13. – Morre no Rio Douro, a Villa Nova onde chamam Fozcoa. 14. – Não tem cachoeira alguma, somente açudes dos moinhos, e não impede as passajens a pé e a cavalo fora de invernadas. 15. – Não tem neste sitio ponte alguma, de pao ou cantaria, e se passa por poldras ou passadeiras de pedra, e a ponte que dista mais perto hé a do Sabugal, com distancia de huma legoa para sima, e para baixo outra, com distancia de duas legoas, chamada a ponte de Siqueiros, ambas de cantaria. 16. – Todo o rio tem moinhos de moer pam, e neste limite tem trez, e não tem outro algum engenho; e a Ribeira de Palhaes, asima ja relatada, que se mete neste rio, tem quatro moinhos e hum pizão, e tem huma ponte de pedra com distancia deste lugar hum tiro de pessa de dois olhais e baixa, sem goardas, quando se passa para a Ruvina e mais Lugares adiante, e dela para este e Sabugal. 17. – Não consta neste lemite se tenha tirado ouro de suas areas, e principalmente no prezente tempo. 18. – Hé rio que não rega campo algum, nem para este efeito se lhe aproveitam as agoas, por não poderem sair fora delle para os campos; e são livres sem alguma pensão. 19. – Donde nasce o rio thé onde acaba, seram dezassete ou dezoito legoas; passa pelo meio dos Foyos, ó pé de Val de Espinho, Coadrazais, Sabugal, e este de Rendo, Val das Éguas, Val Longo, Vadamallos, e dai, para baixo da Ponte de Siqueiros; e dali para baixo se dará noticia em outras relações; estes povos são da parte de cá do rio; e para a de além hé Malcata, as Quintas de S. Bartolomeu, a Quinta das Vinhas, a de Roque Amador, o Lugar da Rapoula, Seixo do Coa; todos estes são Bispado da Guarda. E para baixo se dará noticia. (3.6.1758. Cura: Domingos de Afonseca).
RAPOULA – 1. – Corre junto a esta terra, hum tiro de bala, hum rio por nome Rio Côa; consta-me que nasce em huma Serra, junto a hum Lugar por nome Foyos, termo da Villa do Sabugal, Comarca de Castello Branco. 2. – Consta-me que nasce em humas fontes e lagoas, mas a breve espasso corre caudalozo; consta-me também ter-se secado alguns annos, principalmente nesta terra athé á Villa de Almeida, e eu o vi sem correr no anno de 1756. 3. – Entra no dito Rio Côa, junto desta terra distante meya legoa, huma Ribeira que tem por nome Ribeira do Boy. 4. – Não hé navegavel, por não ser necessário, e somente tem pontes e poldras para dar passagem. 5. – Nasce este Rio a Nascente, e quando passa junto desta terra corre a Norte.
6. – O curso do tal Rio hé arrebatado em toda a sua corrente. 7. – He muito fecundo de peixes, mas pequenos, por que cria barbos, trutas, inguias, bordallos, bogas, xardas, mas mais de abundancia de barbos e trutas. 8. – Em todo o anno, excepto quando prohibem as leis do Reyno, se pesca nelle. 9. – Na pescaria não há lugares, porem hé comum para quem quer ser curiozo. 10. – São cultivadas as margens do Rio, ainda que padecem algum naufragio com as inchentes; hé povoado de arvores silvestres, como são amieiros, carvalhos, salgueiros. 11. – As ágoas do tal Rio são naturais.
12. – Não me consta, nem consta tenha outro nome senão Côa, desde o seu nascente athé o seu ocaso no Douro, junto a Villa Nova de Foz Coa, segundo as informaçoins. 14. – Não tem o tal Rio couza que lhe impida a sua corrente. 15. – Consta-me tem a primeira ponte de cantaria junto a Villa do Sabugal; e a segunda junto a Villa de Villar Mayor, distante quazi huma legoa, que chamão Ponte de Sequeiros; tem a terceira junto a Villa de Almeida, praça de Armas, cabeça de Provincia, e não sey de mais; somente tem varias poldras, para passarem, mas com muito trabalho, e meses sem darem passagem, e succederem de todos os annos inconvenientemente e contratempos nos passageiros, principalmente em humas poldras que estão junto a este povo, que tem huma estrada para a Villa de Alfaiates, praça de Armas, e desta para a cidade da Guarda, pello que era bem necessario huma ponte neste sitio.
16. – Tem neste Lugar e seus lemites, sinco moinhos de tres pedras huns, e outros de duas, que moem todo o anno, com as agoas do dito Rio, excepto os annos de muita secura, como foy o de 1756. 17. – Não me consta se tenha tirado ouro, nem prata, de suas areas. 18. – São livres as ágoas deste Rio; somente os donos dos moinhos pagão huma certa penção todos os annos ao Comendador desta Comenda. 19. – Este Rio Côa tem principio em o Lugar dos Foyos, que dista deste Lugar tres para quatro legoas; e dahi, segundo informaçoins, vem hum Lugar por nome Val de Espinho, e dai a Villa do Sabugal, e dahi, das Quintas de Sam Bartholomeu, e dahi a este Lugar da Rapoula de Côa, e daqui a Seyxo do Côa, e dahi vem correndo athé a Villa de Almeyda. E os Lugares por onde elle passa, desde o Seyxo do Côa athé fenecer no Douro, o não sey, nem houve quem me dissesse, ainda que eu o procurey, por esta terra não ter homens que tenhão passado pello Rio, ou ao redor delle athé de Foz Côa, que he onde este Rio fenece, e tem o seo complemento finaliza o tal mesmo Rio Côa. ((8.5.1758. Cura: Manuel Gonçalves de Matos).
VALE DAS ÉGUAS – 1. – E pelos lemites desta freguezia passa o Rio Coa, que tem seu nascimento em a Serra das Mezas, freguezia dos Foios deste Bispado de Lamego. 2. – Nam nasce caudalozo e corre todo o anno. 3. – Nele se metem muitas Ribeiras sem nome. 4. – Nam hé navegável. 5. – Hé de curso mediano nesta freguezia, e no seu final hé de curso arrebatado. 6. – Corre para o norte. 7. – Cria trutas, barbos, bogas e bordalos e inguias, tudo em abundância. 8. – Em todo o tempo se pesca. 9. – Sam livres as pescarias para a república. 10. – Não se cultiva em suas margens e tem muito arvoredo silvestre. 11. – Nada. 12. – Sempre conserva o mesmo nome e nunca teve outro. 13. – Morre em o Rio Douro, junto a Villa Nova de Fozcoa, deste Bispado. 14. – Tem muitas açudes e cachoens. 15. – Tem tres, digo quatro pontes de cantaria, huma na Vila do Sabugal, outra na freguezia de Valongo, outra no lemite de Almeyda, e outra no lemite de Pinhel. 16. – Tem muitos moinhos de pam, pizoens de panos. 17. – Nada. 18. – Livremente se uza de suas ágoas, sem pençao alguma. 19. – Tem de comprimento este rio, pouco mais ou menos, douze athé vinte legoas. 20. – Nada mais deste nem dos mais interrogatórios. (18.5.1758. Cura: Eusébio da Fonseca Vaz).
VALONGO DO COA – 1. – Corre junto dela hum rio chamado o Côa, o coal nasce na Serra das mezas, junto da raia de Castella. 2. – Nasce logo caudalozo, porem dentro de huma legoa de distancia hé bastantemente abundante de ágoas e corre todo o anno, exceptuando alguns Verois, que sam muito secos que nestes deixa de correr. 3. – Do nascente anté esta terra, entram nele hum rio da Villa do Sabugal para baixo, junto de uma quinta perto, Rendo; outro entra junto do porto de Rapoula; o outro entra nos lemites desta terra, onde chamam o Poço do Boi; outro entra junto desta mesma terra, do porto que vai para Seixo do Côa; outro entra junto das poldras de Porto de Ovelha; e outro logo pella parte de cima; outro entra nelle junto da Quinta de Noemi; e são os que sei entram nelle, do nascente até o porto de Almeida, exceptuando varios ribeiros que a cada passo estam entrando nelle. 4. – Nam hé navegavel. 5. – Hé de curso quieto em partes e noutras mais arrebatado. 6. – Corre do nascente para o Poente. 7. – Os peixes que cria sam trutas, barbos e bogas; as bogas sam e barbos sam mais abundantes da Villa do Sabugal para baixo, e para o Nascente sam mais abundantes as trutas. 8. – Em todo o anno se pesca nelle. 9. – Sam as pescarias livres em todo o Rio. 10. – Sam cultivadas as suas margens; o arvoredo que tem sam alguns amieiros infrutiferos. 11. – Nam consta que as ágoas tenham virtude alguma particular. 12. – Sempre conserva o mesmo nome enté entrar no Douro, nem consta que em outros tempos tivesse outro nome. 13. – Morre no Douro, o sitio em que entra nam sei como se chama, por ser distante desta terra. 14. – Nam tem cachoeiras nem prezas, e só tem muitos açudes de vários moinhos que nelle há. 15. – Tem huma ponte junto da Villa do Sabugal, outra junto desta terra, que chamam a ponte Siqueiros, e outra junto da Villa de Castello Bom, e outra junto da Villa de Almeida, todas de qantaria, e nam sei de mais. 16. – Tem muito moinhos e alguns pizoins. 17. – Nem sei que em tempo algum se tirasse delle ouro, e menos ao prezente. 18. – Livremente uzam os povos de suas ágoas para a agricultura dos campos. 19. – Tem vinte legoas do nascente emté onde acaba, pouco mais ou menos; passa pello meio do lugar dos Foios, junto de Val de Espinho, de Coadrazais, da Villa do Sabugal, do lugar de Rendo, do lugar da Rapoula, do lugar de Val das Egoas, do Seixo do Côa, deste lugar de Valongo, do lugar de Val de Malos, de Porto de Ovelha, de Malhada Sorda, da Vila de Castello Mendo, da Villa de Castello Bom, da Villa de Almeida; e dahi para baixo nam sei as povoaçoins que há. Hé o que posso dizer nesta materia. (2.6.1758. Cura: Manuel Martins).
SEIXO DO COA – Junto a esta terra corre hum rio, que se chama Rio Côa. Tem o seu nascimento no Reino de Espanha em huma terra que se chama Foyos; principia em regatos piquenos, nasce para a parte do Sul e corre para o Norte, e também corre todo o anno, e hé arrebatado no tempo do Inverno. Os peixes que cria sam trutas, barbos, bordalos, bogas e inguias. As pescarias que nelle custuma haver sam só de Veram. Estas sam livres. O arvoredo deste Rio todo hé silvestre. Conserva o seu nome athé entrar no Rio Douro, junto a Villa de Castello melhor. Tem este Rio sinco pontes, todas de cantaria: a primeira junto a Villa do Sabugal, a segunda no lemite da Miuzela, e no limite de Vadamalos a terceira, junto a Castello Bom a quarta, junto a Almeida a quinta; junto ao lugar de Val da Madeira tem mais huma barca. Junto a Villa de Almendra tem varios moinhos. As legoas que distam, do nascente deste Rio athé entrar no Douro, dam vinte, pouco mais ou menos. E n_osé Raul).»
E perante as imprecisões destes nossos compatrícios e conterrâneos, que nos pode admirar o surto de repetidos lapsos noutros escritos de quem nunca viu a Coa, nem de perto, nem de longe?
BADAMALOS – Nos lemites desta terra nam nasce rio algum; porem passa junto della o Rio Coa, hum quarto de legoa, nasce este rio nos lemites do Lugar dos Foyos; e nam sei como chamam o sitio donde elle nasce, de que da noticia o Reverendo Parocho da mesma terra; e cria peixes; a mayor abundancia sam barbos, bogas e algumas trutas, e inguias; tem este Rio a sua corrente do Sul para o Norte. E nam sei mais dos Interrogatorios contheudos no bilhete imanado da Secretaria do Estado. (3.6.1758. Cura: António Monteiro Manjinho).

4. As reformas de diversos graus de ensino no decurso dos últimos dois séculos concorreram para o apuramento de maior número de especialidades e, portanto, para a criação dos cursos de Ciências Geográficas e da disciplina de Geografia de Portugal, cujo estudo se inicia na escola primária. Tidas e havidas em maior apreço observações directas, foi possível abandonar os arquétipos legados pelos nossos escritores clássicos, apresentando o tema dos rios com exigência de rigor. O planeamento do país, levado a efeito por entidades em sucessivos regimes, também obrigou a um esforço visando o mais íntimo conhecimento da nossa geografia
– serras, rios, terras – e, portanto, da nossa hidrografia. Nos últimos decénios têm sido publicadas monografias concelhias de vário interesse, monografias essas que nos abstemos de citar, mas que dedicaram algumas páginas à ribeira, ainda que abrangendo apenas o troço concelhio. Continuou em falta um estudo monográfico e científico do rio, abrangente de todos os aspectos relativos a uma bacia hidrográfica.
O retrato de corpo inteiro tirado do natural, da ribeira, com o nome oficial de rio Coa, só ficou disponível quando o geógrafo Carlos Alberto Marques, valdespinhense, e cujo centenário de nascimento se comemora neste ano de 1996, elaborou um projecto científico e o levou por diante. Vinculado à escola de Ciências Geográficas de Coimbra, na época de Amorim Girão, julga-se que este teve o sonho de um conjunto de monografias dos rios portugueses. Foi dentro deste sonho, que Carlos Marques escolheu para seu primeiro trabalho de fundo justamente a ribeira da sua mátria, que tratou como criatura irmã, com atenção, rigor, viagem, ternura e encanto. Mesmo quando lhe haja escapado algum pormenor, suscitado por mais tardias aparições, terá ido ao requinte do pormenor, de modo que este ensaio de Geografia portuguesa permanece fresco, apesar de ter sido publicado pela primeira vez em 1936, e maugrado a circunstância de, quanto ao troço final do rio, ao que parece por motivo de doença, se ter socorrido de inquéritos pormenorizados que enviou aos párocos e aos professores das regiões marginais. Talvez a ausência o tenha inibido de achar as celebradas «gravuras».
O retrato da Coa é estabelecido pelo geógrafo em três extensos capítulos, além de uma justificativa introdução. Na primeira descreve a geografia física da bacia
– geologia, orogenia, orografia, hipsometria, – hidrografia e clima. Subindo do assento terrestre para a vida natural, na segunda parte descreve as plantas, a fauna e a fisionomia geográfica; na terceira parte elabora um interessante tratado de geografia humana, dando particular atenção aos povos, às vias de comunicação, às actividades económicas, às desvastações da fauna levadas a efeito pelos caçadores irresponsáveis, à indústria mineira e ao comércio. Intitulou o estudo A Bacia hidrográfica do Coa (1936). Restou-lhe material de carácter etnográfico, que publicou com o título Algumas notas etnográficas de Riba Coa (1939), em que contempla, como vizinho, ele próprio vivente desse património popular, os aspectos mais enfáticos da vida quotidiana em Riba Coa; a caça e a pesca na ribeira; as caçadas aos javalis (também descritas por um dos principais caçadores da raia, o médico Francisco Maria Manso), as touradas, as festas joaninas, o contrabando, os santos e as matanças. Um vivo painel de vida viva, hoje porventura algo diferente em alguns aspectos, uma vez que as mutações económicas e a emigração contribuiram para o desaparecimento de alguns costumes.
Esses estudos tornaram-se raridades bibliográficas. Por isso nos empenhámos para que fossem reeditados neste único volume – A Bacia hidrográfica do Côa seguido de algumas notas etnográficas de Riba Côa – com magistrais fotografias do arquitecto Duarte Belo, e os cuidados técnicos dos editores Assírio & Alvim (Lisboa, 1995). O livro pode agora ser lido e consultado, uma vez se achar à venda nas livrarias.
A ribeira viva corre aí. Saibamos mantê-la pura e selvagem como sempre foi.
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A história do Congresso, por Paulo Leitão Batista

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