A comunicação de Adérito Tavares

Sabugal - © Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CONGRESSO DO FORAL DO SABUGAL :: :: Foi longo o segundo dia do congresso dos 700 anos do Foral do Sabugal, a 9 de Novembro de 1996, que continuou com a intervenção do historiador Adérito Tavares, que falou sobre «A Tauromaquia Popular na Raia do Sabugal».

Adérito Tavares

Adérito Tavares

Adérito Tavares é natural de Aldeia do Bispo, concelho do Sabugal. Professor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, é também investigador nos domínios da cultura portuguesa, da história demográfica, do quotidiano e da iconografia relativa à criança na idade Média e no Antigo Regime. É autor ou co-autor de várias obras publicadas, incluindo o livro «A Capeia Arraiana» onde descreve a tradição tauromáquica da raia sabugalense.

Transcrevemos a intervenção de Adérito Tavares:

A TAUROMAQUIA POPULAR NA RAIA DO SABUGAL
O desenvolvimento das ciências sociais e humanas, a partir da segunda metade do século XIX, conduziu ao estudo exaustivo da maior parte das manifestações da cultura popular em Portugal. Ao pioneirismo de José Leite de Vasconcelos, Teófilo Braga ou Jaime Lopes Dias sucedeu uma geração de etnógrafos e antropólogos que aliava uma sólida preparação teórica a um grande entusiasmo pelo trabalho de campo. Dessa geração fizeram parte Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira, bem como as equipas que deram corpo ao Museu Nacional de Etnologia. Ultimamente, porém, tem sido dos departamentos universitários de Sociologia e dos respectivos institutos especializados que têm surgido os melhores trabalhos de investigação etnográfica e antropológica.
Foram, deste modo, sistematicamente estudadas as práticas relativas às actividades agro-pastoris, à música tradicional, às festividades cíclicas, à religião, à arquitectura popular, à gastronomia, etc. Houve sempre, todavia, uma área que mereceu pouca atenção à etnologia portuguesa: foram os festejos taurinos de carácter popular. Com excepção de algumas referências esporádicas nas grandes obras dos maiores etnógrafos (como é o caso de Ernesto Veiga de Oliveira) apenas as monografias locais ou os estudos sobre a tauromaquia profissional procuraram conhecer e compreender os rituais tauromáquicos de raiz popular. Recentemente, o Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões da Universidade Nova de Lisboa e o Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE organizaram um Seminário Internacional sobre Tauromaquias Populares. Para além dos portugueses, participaram nesse encontro investigadores das Universidades de Madrid, Sevilha, País Basco, Barcelona e Montpellier, tendo as respectivas comunicações sido já publicadas na revista Mediterrâneo.
Pretendia-se, com aquele encontro académico, «estruturar um campo de reflexão que, pela análise da dimensão histórica, antropológica, estética, sociológica e psicológica dos rituais taurinos, permitisse uma compreensão mais completa das sociedades taurológicas, como são as dos países ibéricos e a do sul de França». Foi esta uma das poucas ocasiões em que se estudaram de forma sistemática as festividades taurinas, incluindo a corrida com forcão, característica da raia sabugalense.
Com estes e outros contributos, geralmente interpretativos e problematizadores e não apenas descritivos, começam a desenhar-se com mais nitidez os contornos históricos, sociológicos e antropológicos dos rituais taurinos.
O combate entre homens e touros é muito antigo. O touro selvagem (não o touro de lide, cujo apuramento é relativamente recente), parece derivar do uro ou bos primigenius, um animal ainda aparentado com o bisonte. Já referido em textos mesopotâmicos (incluindo o Código de Hamurabi), espalhou-se lentamente pela Europa e pelo Norte de África, tendo penetrado na Península Ibérica sob a forma de duas espécies: o bos taurus ibericus e o bos taurus mauritanicus. Primitivamente, estas espécies eram perseguidas e mortas pelos caçadores do Paleolítico Superior, tal como sucedia com o bisonte, o cavalo, o urso e muitos outros animais, cuja representação em pinturas e gravuras rupestres o testemunha. Durante o Neolítico, alguns destes animais seriam domesticados, mas outros permaneceriam selvagens e ferozes.
As referências históricas ao lugar do touro nas diferentes culturas mediterrânicas são muito frequentes. É suficientemente conhecido o culto do Boi Apis no Egipto, que não era uma estátua mas sim um touro vivo, símbolo da energia reprodutora de Osíris. São também frequentes as representações naturalistas ou antropomorfas de bois selvagens na Babilónia e na Assíria. Mas foi em Creta que os cultos taurinos assumiram características mais espectaculares, como o mostra o mito do Minotauro e como se pode ver no famoso fresco do salto do touro, existente no Palácio de Cnossos. Os Romanos, por sua vez, incluíam habitualmente touros nos espectáculos circenses, ao lado de todo o tipo de feras. Parece que o próprio Júlio César teria defrontado a cavalo um touro bravo, numa arena romana. Outro papel geralmente atribuído ao touro nos rituais religiosos da bacia mediterrânica é o de vítima sacrificial. Tanto os Gregos como os Romanos imolavam touros nos altares divinos. Uma das cerimónias sacrificiais romanas mais importantes era a suovetaurilia, em que eram imolados um suíno, uma ovelha e um touro.
Na Bíblia, o Bezerro de Ouro moisaico equivale aos ídolos-touros dos Cananeus. São igualmente frequentes as referências bíblicas aos ritos sacrificiais taurinos, sendo o boi o animal expiatório por excelência (e não o bode, como habitualmente se diz). A imolação de touros permaneceu ao longo dos séculos como uma prática tradicional, religiosa ou pagã, entre as populações da orla mediterrânica e as festividades tauromáquicas inserem-se nesta dimensão sacrificial. Na tourada, o animal é a vítima substitutiva, que atrai e recebe os impulsos agressivos, os desejos selváticos de morte por parte dos espectadores. No Memorial do Convento, José Saramago descreve dois espectáculos de morte pública, verdadeiros momentos de catarse popular: um auto-da-fé e uma tourada. E, nesta, depois de o nobre-cavaleiro ferir de morte o touro, uma multidão armada de adagas e punhais caiu em cima do bicho, numa verdadeira orgia sangrenta. Uma tourada, como aliás acontece com outros espectáculos violentos (como o boxe, ou o próprio futebol), é uma autêntica sessão terapêutica de transferência psicanalítica.
Os dois tipos de espectáculos tauromáquicos mais conhecidos e apreciados são as touradas clássicas, «à portuguesa» (toureio equestre) e «à espanhola» (toureio apeado). Existem, todavia, muitas variantes populares da festa taurina. No sul de França, por exemplo, realizam-se as corridas landezas, com vacas, e as corridas provençais, com os pequenos touros da Camargue, presos por cordas. E, no norte de Espanha, em Pamplona, fazem-se os famosos encierros das corridas de S. Fermín, com os touros correndo e atropelando uma multidão de destemidos populares pelas ruas da cidade, como magistralmente os descreveu Hemingway.
Em Portugal efectuam-se largadas de touros em muitas povoações, sendo as mais afamadas as de Vila Franca de Xira e da Moita do Ribatejo. São também famosas as touradas à vara larga, ou touradas à corda, da Ilha Terceira, nos Açores, e as chegas de bois, em Trás-os-Montes. Em várias povoações do Alentejo, sobretudo por ocasião das feiras anuais, realizam-se igualmente touradas populares, em praças improvisadas com taipais e carros de tracção animal. Os touros são corridos anarquicamente pela população, entre golpes de ousadia e de sorte.
Mas é na região fronteiriça do Sabugal que se realiza um espectáculo taurino único: a capeia arraiana com forcão.
As gentes da orla fronteiriça sabugalense não dispensam as suas touradas anuais, ou capeias. Durante os meses de Verão, realizam-se capeias na maioria das aldeias raianas da margem direita do rio Côa, sobretudo em Aldeia da Ponte, Aldeia do Bispo, Aldeia Velha, Alfaiates, Foios, Forcalhos, Lageosa e Soito. Com menor regularidade, fazem-se também capeias em Vale de Espinho, Quadrazais, Nave e na própria vila do Sabugal.
Desde há cerca de uma dezena de anos tem-se efectuado na «praça fechada» de Aldeia da Ponte um festival tauromáquico arraiano com a participação de equipas de várias aldeias. Da intenção inicial de «concurso de pegas ao forcão» evoluiu-se para uma capeia com objectivos mais conviviais e menos competitivos, com vista a atenuar as rivalidades e os bairrismos locais.
O tempo das capeias coincide (ou faz-se coincidir) com a época das férias e da vinda dos emigrantes. Tradicionalmente, porém, aqui como em muitas outras regiões do País, as festividades taurinas de carácter popular realizavam-se por altura das festas do Divino Espírito Santo (ou Pentecostes), que coincidiam com o fim das ceifas, um tempo de alegria e de abundância. As raízes históricas destas celebrações mergulham muito profundamente. Por toda a região mediterrânica celebravam-se festividades dedicadas à Deusa-mãe, símbolo da Terra fértil que a todos alimenta com generosidade. Estes rituais existiam na época romana e o Cristianismo limitou-se a aproveitá-los, tal como fez com os cultos solesticiais ou os cultos primaveris, modificando-lhes apenas o objecto e a intenção. Não admira, portanto, que os rituais taurinos se tenham também fixado na proximidade das colheitas, geralmente associados à principal festa religiosa de cada localidade.
Segundo pensamos, a origem da capeia, tal como actualmente a conhecemos, pode encontrar-se nos meados do século XIX. Isto não significa que não possamos encontrar na raia do Sabugal, e até mesmo em toda a região ribacudense, práticas de tauromaquia popular muito mais antigas, de carácter ritual ou sacrificial. Os vestígios artísticos e arqueológicos têm-no demonstrado e a vizinhança da região salmantina, onde encontramos festividades taurinas muito antigas, não podia deixar de influenciar as populações da raia transcudana.
A capeia com forcão, todavia, não nos parece que a possamos fazer recuar para além da segunda metade do século passado. O interesse das populações fronteiriças pela festa de touros está obviamente relacionado com as formas de vida e de subsistência na região da raia sabugalense, antes do surto de emigração dos anos 60.
Durante muito tempo, as gentes raianas fizeram do contrabando um meio de vida complementar de uma agricultura deficitária. As terras frias e pedregosas do Sabugal nunca foram férteis e o magro sustento tinha que lhes ser arrancado à custa de suor e de frieiras. Sempre assim foi. E o pequeno agricultor da beira-raia, sem outra alternativa, fazia da traficância a sua outra profissão. Aliás, o mesmo se ia passando mais ou menos ao longo de toda a fronteira luso-espanhola.
O contrabandista raiano de Riba-Côa transportava carregos de café e odres de azeite às costas. Por sua vez, as mulheres enrolavam fazendas, sedas e rendas à volta do corpo, por baixo da saia e da blusa. Nuno de Montemor, na Maria Mim, descreve-nos com inexcedível realismo a traficância errante e arriscada dos contrabandistas quadrazenhos.
Os seus inimigos tradicionais eram os carabineiros e os guardas-fiscais, que tinham que ser iludidos à custa de artimanhas, sacrifícios e valentias. Era uma vida de sustos, sobressaltos, muita coragem e desgraças. Foi assim, até à fuga maciça para Franças e Araganças.
A proximidade da fronteira castelhana e o constante contrabandear exerciam uma profunda influência nas populações raianas: nos hábitos alimentares, no linguajar, no vestuário e nos costumes. A própria capeia nasceu desta vizinhança. A palavra vem do castelhano capea e relaciona-se com o acto de capear ou iludir o touro com uma capa.
A vizinha província espanhola de Salamanca é terra de grandes ganadarias: nas devesas e pradarias estremenhas e castelhanas criam-se alguns dos melhores touros de Espanha. Por outro lado, nas aldeias espanholas situadas junto da fronteira sabugalense, como Navas Frias, Casillas de Flores, Alberguería de Argañan e Fuenteguinaldo realizam-se capeias populares desde há muito, utilizando gado bravo criado na região. Como era frequente alguns dos animais atravessarem a raia e provocarem danos nos lameiros, batatais e hortas do lado de cá da fronteira, alguns dos ganadeiros espanhóis começaram a «pagar» os prejuízos cedendo gratuitamente algumas vacas bravas, por um dia. Fazia-se, assim, uma «capeia». As primeiras capeias arraianas começaram, portanto, nos últimos decénios do século passado. Pouco a pouco, o hábito foi-se enraizando, de aldeia em aldeia. Muitos contrabandistas eram hábeis cavaleiros e auxiliavam os vaqueiros espanhóis a trazer o gado, por veredas e atalhos. O contrabandista falava bem o castelhano e tinha facilidade em criar amizades. A sua intervenção era quase sempre decisiva para conseguir a cedência dos animais destinados à capeia.
A partir dos anos 20, o gado tornou-se mais difícil de obter, devido a problemas de ordem fiscal e de ordem sanitária. Alturas houve em que se chegavam a «roubar» temporariamente em Espanha algumas vacas durante a noite e se traziam, sabe Deus como, para o lado de cá. Os conflitos foram tantos e tão graves que chegaram a ser objecto de intervenções a nível diplomático. Todavia, a partir do final da guerra civil de Espanha (1939), as autoridades de fiscalização fronteiriça começaram primeiro por «fechar os olhos» e, depois, a conceder uma autorização informal para a vinda temporária do gado às aldeias raianas.
Nos últimos 60 ou 70 anos, o curro, constituído preferentemente por touros, passou a ser pago. Das cinco ou dez mil pesetas dos anos 50 chegou-se, na actualidade, à bonita soma de quase 2 milhões de pesetas. Perto de 2.400 contos pela utilização de 7 ou 8 animais, durante um dia. Todo este dinheiro é angariado entre a população pelos mordomos, dois jovens nomeados anualmente.

Um dos elementos fundamentais da capeia arraiana é o forcão. É este instrumento, aliás, que dá verdadeira originalidade às touradas da raia do Sabugal.
O forcão é um grande corpo triangular de madeira de carvalho. O nome relaciona-se com a palavra latina furca e pertence à mesma família de forquilha e bifurcação. Na verdade, o forcão é como que uma gigantesca forquilha.
O esqueleto do forcão é constituído por três grandes troncos de carvalho bem secos, colocados, dois lateralmente, servindo de lados de um triângulo mais ou menos equilátero, e outro ao centro, servindo de eixo ou «espinha dorsal» do aparelho. Na base do enorme triângulo coloca-se um sólido e comprido caibro de pinho, cujas pontas ultrapassam os ângulos inferiores e ficam salientes, uma para cada lado do forcão. O vértice é o «rabiche», uma espécie de leme onde se colocarão dois ou três homens altos, a servirem de timoneiros (os rabicheiros ou rabejadores), para dirigirem o forcão e evitarem que os bois «passem para trás». À frente, nos dois ângulos, situam-se as galhas. Estas são formadas por um aglomerado de fortes galhos de carvalho aparados, bem sujeitos por pregos e cordame, e constituem os pontos mais sensíveis do forcão. É aí que o touro irá marrar, por vezes com uma violência tal que as galhas se partem como se fossem paus de fósforo.
O acto de fazer o forcão constitui, já em si, um ritual que se reveste de grande significado. A ciência da sua construção foi herdada, de geração em geração, sendo transmitida com o mesmo simbolismo com que se praticam os ritos iniciáticos. Tal como sucede com a técnica de pegar ao forcão.
No começo da capeia e antes de cada touro ser lançado na praça, o forcão é erguido a pulso por cerca de vinte a trinta homens e rapazes. Eles colocam-se ao longo dos dois lados do forcão, aguentando-o com firmeza. Quando os pegadores são muitos, alguns vão para «o meio», entre os caibros transversais. Mas os lugares mais perigosos e que exigem maior valentia são os das galhas, particularmente o da galha esquerda (o touro tem mais tendência para investir nesta direcção). Pegar à galha exige saber e coragem. Os homens mais velhos ensinam os jovens a segurar bem o forcão e a colocar as pernas. Uma delas deve ficar solidamente especada atrás, para aguentar o embate do touro, e a força, de modo a poderem fazer pressão para baixo quando o bicho coloca a cabeça na galha, impedindo deste modo que ele levante o forcão no ar. Tradicionalmente, apenas os rapazes solteiros deveriam pegar ao forcão. E só os da própria aldeia. A festa, como todos os rituais de iniciação, pertencia-lhes: era a ocasião solene de prestarem provas públicas de coragem e de virilidade. Esta exclusividade, no entanto, não impedia que, de vez em quando, se reservassem touros (ou vacas) especialmente destinados aos casados, ou «aos de fora». Nos últimos tempos, porém, com a regressão demográfica, a «confraria dos solteiros» já não é suficiente para enfrentar os touros mais poderosos, sendo frequente acorrerem os casados para reforçar as galhas.
A praça onde se realiza a capeia (o côrro) é preparada num dos largos da povoação. Antigamente colocavam-se carros de bois carregados de lenha, bem apertados uns contra os outros, formando um círculo. No entanto, modernamente, são mais os atrelados de tractor do que os carros de bois. Nalguns pontos, as próprias paredes das casas ou dos currais formam parte do côrro. Os buracos são vedados com troncos ou com «salva-vidas» improvisados com tábuas. Anexos à praça, preparam-se dois currais onde serão encerrados os touros. Os espectadores colocam-se sobre os carros, nas paredes, nas varandas, nos palanques, etc.
Este trabalho anual de «construção» da praça improvisada exige um esforço comum que cada vez se mostra mais difícil. Por isso, em algumas aldeias, está a pensar-se em construir praças desmontáveis, cujos painéis e bancadas se guardariam de ano para ano. O espectáculo tradicional persiste mas a logística evolui.
As experiências de realizar as capeias com gado português (bastante mais barato que o espanhol) têm saído quase sempre frustradas, sobretudo porque a festa ficava amputada de um dos seus aspectos mais característicos: o encerro.
Na verdade, o encerro, realizado durante a manhã, atrai uma verdadeira multidão, constituída pelos da terra e pelos forasteiros. Desde cedo, tapam-se os acessos à rua que conduz à raia, por onde hão-de chegar os touros. Todos quantos conseguem um cavalo partem para o lado de lá da fronteira, a fim de participarem no encerro. A manada é apartada na ganadaria. Tinha sido escolhida e contratada, meses antes, pelos mordomos: uma ou duas vacas, seis ou sete touros, um ou outro bezerro para os mais novos e alguns cabrestos. Procura-se que um dos touros seja um animal de respeito, pesado, mais velho: é «o grande». Capeia que não termine com «o grande» não é boa capeia.
A passo sossegado, a manada é trazida para Portugal, por vezes com alguma dificuldade, pois é frequente os touros mais finos espantarem-se e fugirem. Com a abundância de giestas, pinheiros e matagais, torna-se depois muito difícil reunir de novo os animais e fazê-los chegar à povoação. São lembradas algumas capeias em que o gado fugiu. Umas porque os bois provocaram o pânico e prejuízos na agricultura, outras porque só muito tarde ou no dia seguinte se conseguiu fazer o encerro. Há casos em que certos touros, particularmente bravos, ficaram por muito tempo nos campos, aterrorizando as populações. Alguns tiveram que ser abatidos a tiro. Noutras ocasiões, vacas ou touros tresmalhados atacaram cavalos e esventraram-nos.
Mas enfim, quando tudo corre bem, os touros vão-se aproximando mansamente da aldeia. Nas varandas, nas paredes, nos quintais, gente colorida e barulhenta aguarda a sua chegada. De vez em quando surge um mensageiro, a dizer que «já estão à raia». Então, começa tudo a agitar-se, a gesticular, a gritar «já lá vêm, já lá vêm!». E, finalmente, aí está a manada. Para evitar o tresmalhe, é já a grande velocidade que se entra na rua que conduz à praça. Em corrida temerária, poucos metros à frente dos primeiros cavaleiros, os jovens mais audazes penetram em magote no côrro. Logo atrás chegam os touros. Os vaqueiros da frente, ou entram na praça adiante da manada, esporeando depois a montada para saírem por uma porta do lado oposto, ou ficam de fora, afastando-se habilmente para deixar passar o gado para dentro da praça.
O encerro é anunciado por uma descarga de foguetes e os animais são metidos no curral, onde permanecerão até à tarde. Geralmente, logo após o encerro, é experimentado um touro, o boi da prova. Se deixa boa impressão, toda a gente abala para as suas casas, comentando positivamente o curro e aguardando com expectativa a capeia de logo à tarde. Alguns ficam-se por longas horas a observar os bois no curral, a acirrá-los e a fazer comentários de «conhecedores»: «Aquele ali, o ruço, não é boa rês, olho nele! E o grande, ‘ca bitcho’! Ó Domingos, já ‘biste’ o galano’, ‘ca’ cabeça baixa? Estes é ‘ca’ pregam! Ó garoto, sai daí, ladrão! Olha a vaquinha, que fina ‘qué’, até treme!». E assim por diante, os da terra e os «de fora» apreciam o curro e gozam por antecipação os bons momentos que ele lhes irá proporcionar.
Aí pelas cinco da tarde, quando o calor já não aperta, dá-se início à tourada. Entretanto, os mordomos preparam-se para pedir a praça. Este acto é uma cerimónia que varia de aldeia para aldeia. Pedir a praça é requerer autorização para começar a capeia, a uma autoridade presente entre os espectadores ou, mais habitualmente, a uma pessoa natural da terra que, pelo seu prestígio ou posição social, mereça essa distinção.
Nalgumas aldeias, os mordomos entram na praça em cavalos engalanados, com o tamborileiro (aqui diz-se «tamborleiro») e a banda de música à frente, e duas filas de rapazes atrás. Noutras terras, os mordomos vão à frente da rapaziada, a pé, levando um a espada e outro a bandeira multicolor. Fazem-se evoluções na praça e um dos mordomos agita a bandeira com uma única mão, por cima da cabeça, durante longos minutos, ao som da ranacataplana do tambor. Chama-se a isto bandear, e constitui uma prova de resistência. Trata-se de uma prática com influências muito prováveis do serviço militar que os mancebos raianos iam prestar à cidade: tanto a bandeira como a espada simbolizam a autoridade e o poder, ali exercidos pelos mordomos.
Concedida a praça, assobia-se, grita-se, pula-se, e a «juventude» põe-se a postos no forcão. O primeiro animal que sair é o dos mordomos. São eles quem devem esperá-lo, às 94 galhas, com impaciência e com alguma ansiedade. Ele aí está. É um touro pequeno e nervoso. A rapaziada anima-se e avança com o forcão, em passos curtos e balanceados. O touro corre e esbraveja, tentando passar para trás. Os rabicheiros vêem-se em dificuldades, fazendo rodopiar o enorme madeiro. Depois de duas, três marradas, o forcão é retirado e encostado num canto, com o rabiche ao alto, para que a mocidade possa fugir para cima dele.
Tempos houve em que os touros eram barbaramente picados e até espancados com estadulhos. Actualmente, porém, as capeias da raia sabugalense tornaram-se espectáculos civilizados, em que os animais raramente sofrem, sendo mais habitual o sangue derramado ser dos capeeiros ou de algum espectador mais entornado ou mais distraído.
Ao mesmo tempo que os moços mais ágeis correm em torno do boi, entram em acção os capinhas, que deitam umas sortes incertas e audaciosas. Os capinhas (ou maletas) são aprendizes de toureiro espanhóis, que andam de terra em terra, sedentos da honra e do proveito das arenas, ganhando experiência nas capeias dos dois lados da fronteira. Num dos intervalos da corrida, com um capote estendido, os capinhas fazem o seu peditório: «Venga señores, venga!». Um dos maletas mais conhecidos das praças arraianas é o velho «El Maño», personagem castiça que não falha uma capeia desde há muitas décadas. Entretanto, a mocidade salta, assobia, berra, corre em volta do animal. De repente, a assistência põe-se de pé, grita, chora, pragueja: «Ai o meu homem que já o mata. Acudam ao ‘desinfeliz’! Jesus, Jesus, o burro do meu rapaz lá metido! Senhora dos Milagres acudi-lhe!» Por entre a poeira consegue avistar-se um magote em cima do animal. No meio da aflição, algum mais ousado lançou-lhe as mãos aos cornos e fez uma pega atamancada. A rapaziada caiu em cima do touro, que espuma e esbraveja. Desfeito o cacho humano, sempre aparece alguém que perdeu as chancas (alparcatas), ou que ficou com a fralda à mostra (ou outras coisas menos convenientes). Por vezes, vê-se sangue e não é raro haver feridos graves e até mortos.
«Fora o toiro, fora / Já está cansado». E lá sai a segunda rês. Desta vez um touro poderoso, branco e preto (o «galano»). Escarva, sopra, enraivecido e furioso, dá uma corrida e pára no meio da praça. «Aí o tendes, valentões! Esperai-o! Ó forcão, rapazes! Ó forcão, `marranos’!».
O animal escarva mais uma vez, avança possante e rápido, dá uma marrada fortíssima na galha esquerda e recua, meio entontecido pelo golpe feroz. O forcão é aguentado, ali, firme. Citando o touro para uma nova investida, todos à uma, trinta homens vão ondulando o forcão, num ritmo compassado, como se fosse um corpo vivo. «Eh boi!, eh toiro!» O animal fixa-se no homem da galha, que lhe atira a boina, e lança-se numa nova marrada. Os homens da frente sentem-lhe o bafo e a raiva. O touro dobra-se, com o impacto. Estralejam palmas, «Aí valentões, é assim mesmo! Viva a mocidade, viva! Fora o forcão, está esperado!».
E assim por diante. No meio de um entusiasmo delirante, os raianos vibram com este divertimento que se enraizou profundamente nos costumes locais. O melhor touro, «o grande», é corrido no fim e depois, já lusco-fusco, a manada lá volta para Espanha, dorida e estropiada, agora apenas com os vaqueiros a acompanhá-la. E até pró ano!
:: ::
A história do Congresso, por Paulo Leitão Batista

Deixar uma resposta