«Chave do Abismo» de Goreti Carmo Ferreira

João Póvoas Verdelho - © Capeia Arraiana

A descendente das terras sabugalenses Goreti Carmo Ferreira apresentou em Lisboa o livro de sua autoria «Chave do Abismo». O jovem João Póvoas Verdelho traça o perfil da autora e lança alguma luz sobre o conteúdo da obra literária apresentada.

A autora do livro (à direita) com amigos sabugalenses

A autora do livro (à direita) com amigos sabugalenses

Na realidade com a qual coexistimos a arte procura, frequentemente sem encontrar, um canto onde morar. A pintura, a literatura, a escultura e até o teatro são formas de arte, que progressiva e inevitavelmente desvanecem na cultura da facilidade. Enquanto uns se esquecem, outros valores permanecem, serenos no dia-a-dia dos portugueses.
Goreti Carmo Ferreira demonstra que é possível ser-se artista num mundo que se apresenta sedentário. As redes sociais, frequentemente criticadas pelo tempo desnecessário e inútil que roubam, foram utilizadas pela autora para adquirir inspiração e para conhecer colegas no ramo, o que demonstra a rara e louvável postura de não se deixar engolir pelo teimoso sedentarismo.
A obra que reúne os seus escritos, «Chave do Abismo», foi apresentada no dia 22 de Outubro de 2016, no estabelecimento FNAC do centro comercial Vasco da Gama, em Lisboa. A cerimónia, repleta de momentos de diversão, traduziu o gosto que Goreti sentiu ao elaborar o livro. A presença de amigos, família e público em geral, refletiu o apreço pelo trabalho da autora ao transformar simples folhas de papel numa obra de arte, complexamente conseguida.
Apesar de nascida em Lisboa, Goreti Carmo Ferreira, de 42 anos de idade, demonstra uma forte e explicável ligação á zona raiana, visto que o seu pai era natural de Águas Belas, no concelho do Sabugal. Confrontada com as lembranças que retém da nossa raia, a protagonista realça o caráter emocional que possui a região: “Guardo as memórias das idas à aldeia em pequena, das casas de pedra, das ruas estreitas, dos lameiros que no Verão se deixam ficar de ouro e no Inverno se alagam de chuva para que a Primavera os encha de viço e de vida”.

14721532_10205879527866955_3967287412003683739_n

Goreti Ferreira, carinhosamente, recorda ainda as idas à fonte, com o cântaro, quando a água ainda não corria nas torneiras das casas. Presente ainda o medo que uma menina de 5 anos tinha das vacas, «(…)aqueles animais monstruosos que não via jamais na Amadora.» (localidade onde residia com os pais). Relembra as tardes de verão ociosas sob as árvores «(…)sempre atenta aos «bichos» não fosse algum gafanhoto arrancar-lhe um grito ou uma abelha fazê-la desatar a correr campo fora.» a jogar à bisca com os amigos e com a alegria da partilha. Que se prolongavam nas noites, que calorosamente a prendiam fora, à porta do café, na conversa. Os bailaricos surgem na memória bruscamente, depois da Festa e da Procissão. E a missa pois claro! «Domingo sem missa não era Domingo», conclui a autora.
Ás pequenas e ligeiras memórias surgem dois rostos enormes. O seu pai, que infelizmente não pode partilhar a sua alegria, ao viver o inesquecível momento da publicação. O avô surge, distante, mas na proximidade e no calor das emoções. Pensador e culto, partilhava com a menina (que, entretanto, florescera tornando-se artista multifacetada), as histórias dos seus tempos áureos. A Diamantino da Costa é, pela sua distinção como ser humano marcante, dedicado um dos textos do livro – sonho antigo. Um terceiro pensamento que lhe derrubou impiedosamente a existência, surgiu-lhe. O seu marido, filho da amada terra raiana apelidada de Malcata, estabelece a conexão que faltava para que, a artista sentisse na raia o seu porto de abrigo.
A conterrânea, abordada em relação ao gosto pela escrita e á motivação, demonstra a convicção que a sua personalidade reflete. “A paixão estava lá.” Desde cedo, nas composições que educacionalmente desenvolvia ou nas primeiras rimas que na sua mocidade alcançara, sentia a paixão que a moveu e acompanhou até ao DN jovem, jornal na qual participava enviando textos que respondiam aos desafios do mesmo. A felicidade de partilhar aquele pequeno Passa-Tempo, com mentes brilhantes, que atualmente apresentam a sua genialidade á comunidade de escritores nacionais como José Luís Peixoto ou Pedro Mexia, impulsionou-a juntamente com a experiência nos blogs online, e a par com colaborações para jornais locais – anteriormente no jornal “O Carrilhão” e de momento nojornal “O Olhanense” para o seu projeto utópico que se revela agora, brilhante.
Em relação á temática da obra, a autora incita à leitura, comentando brevemente: “Espero que as palavras que convosco partilho mostrem que há chaves que abrem abismos para que deles se possa sair. Mas também para que neles se possa entrar. Porque não há abismo que não seja – apenas e afinal – um desafio. Porque os desafios nos levam longe e nos mostram que somos sempre capazes de mais. “
Obras como esta assaltam a nossa existência, não só pela criatividade, persistência, empenho, mas igualmente pela genialidade, moralidade e conteúdo. Na minha modesta perspetiva, revejo esta publicação como uma esperança que demonstre aos leitores que a arte é importante e uma valia.
É com esperança que aguardo mais obras da autora, para que com o seu caráter inovador, transforme a mentalidade. Acredito ainda, que com a inspiração dos pioneiros, como é o caso da Goreti Carmo Ferreira, no futuro nem todas as apostas venham a centrar-se no futebol (desporto que aprecio muitíssimo), mas que existirá igualmente apoio para causas nobres como a literatura.
João Póvoas Verdelho

2 Responses to «Chave do Abismo» de Goreti Carmo Ferreira

  1. Obrigada João Verdelho!
    Obrigada José Carlos Lages e
    Paulo Leitão Batista.
    A costela raiana ficou tocada… e muito!
    Grata me deixo ficar, com os parabéns pelo Blogue!

  2. Maria Rocha diz:

    Querida Goreti! prepare se para a apresentação do livro! Vai ser uma bela supresa!
    Já agora sou esposa do Antonio Revez.

Deixar uma resposta