A intervenção de António Amaro Monteiro

Sabugal - © Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CONGRESSO DO FORAL DO SABUGAL :: :: A manhã do segundo dia do Congresso, em 9 de Novembro de 1996, com o Salão Nobre da CM Sabugal repleto de gente, prosseguiu com a intervenção do filósofo António Amaro Monteiro, que abordou o tema «Cultura e Sociologia do Concelho do Sabugal».

Um congresso histórico

Um congresso histórico

António Amaro Monteiro, natural de Aldeia da Dona, é Doutor em Filosofia Contemporânea pela Universidade de Salamanca, é Mestre pela Universidade de Coimbra e licenciado em Filosofia e Ciências da Educação pelo Ministério da Educação e Ciência de Espanha. Tem obras publicadas e escreveu inúmeros artigos em revistas especializadas. Uma dessas obras, um trabalho sobre Husserl e Sartre, está traduzida em língua alemã e foi publicada em edição bilingue português/alemão.

Transcrevemos a apresentação de António Amaro Monteiro:

Não é raro dizer-se que “A necessidade é mestra de engenho”. Tal afirmação vem, no fundo, dar razão, pelo menos neste ponto, à tese evolucionista segundo a qual os seres vivos, animais e homens, desenvolvem as suas capacidades e aptidões, mesmo a nível fisiológico, de acordo com as necessidades de adaptação ao meio em que a Natureza os coloca.
E se é verdade que isto se verifica com todos os seres vivos de uma maneira geral, o mesmo fenómeno é particularmente significativo nas gentes a quem o Destino ou a Providência determinaram o nascimento ou a vivência nestas terras, consideradas inóspitas por uns e benfazejas por outros, que constituem a região de Riba-Coa, de que faz parte o Concelho do Sabugal, tornadas portuguesas por força do Tratado de Alcanizes no final do séc. XIII.
A hostilidade das condições físicas ou geográficas e climatéricas, por um lado, e as vicissitudes históricas e politicas, por outro, provocaram nestas formas de adaptação únicas no país e que vão desde a construção de fortificações e baluartes, por parte dos poderes régios, até à criação de falares e dialectos pela gente simples do povo que por uma questão de sobrevivência mesmo à custa do contrabando, desse modo iludia a vigilância repressiva das autoridades policiais.
E se há quem veja nisto um espírito algo traficante e porventura truculento dos habitantes raianos, susceptível de despertar sentimentos de antipatia, a verdade é que um conhecimento mais profundo e correcto das gentes sabugalenses leva-nos a ver nelas as mais genuínas formas de hospitalidade capazes de porem na mesa o melhor dos seus mimos com que saciavam a fome de qualquer forasteiro por mais desconhecido que se apresente. Nunca poderei esquecer as inúmeras cenas por mim presenciadas e participadas, habituais nos mercados da região, em que, depois de um preço bem regateado de um animal, compradores e vendedores, fossem eles ciganos ou não, todos se dirigiam para a tasca mais próxima onde a bem temperada carne assada na brasa, de cabrito ou borrego, era generosamente regada com o “meio, quartilho da região”. Chamava-se a isto “pagar o albroque” embora nunca percebesse bem quem é que pagava: se era quem comprava ou quem vendia. O certo é que era sempre o remate natural de um negócio bem feito.
Fosse como fosse, este convívio fraterno e franco era e continua a ser uma prova de um humanismo que é justamente o contraponto das agruras referidas atrás. Mas vejamos um pouco do passado desta gente rija e de boa tempera, posta à prova típicas capeias raianas, e que foi capaz, ao longo da sua longínqua história, de transformar o granito em obras de arte e até as pedras em pão.
Levar-nos-ia longe a questão de saber quando é que a região do Concelho do Sabugal começou a ser habitada. A fundação da própria vila perde-se na memória dos tempos embora se saiba que o nome significa “lugar com sabugueiros”, “e havendo tantos no Sabugal não era mister que lhe viesse o nome de outra povoação” – como diz o Dr. Joaquim Manuel Correia na sua obra Memórias sobre o Concelho do Sabugal, cuja leitura aliás recomendo, e que vai servir como fonte credível dalgumas informações aqui transmitidas. É ainda este autor quem afirma que “Muito se tem devaneado a respeito da fundação da antiga vila do Sabugal, sem que, infelizmente, se apurasse qual a data verdadeira em que a povoação teve começo. Tem-se dito que foi fundada por Afonso de Leão em 1220, opinião refutada pelo ilustre sabugalense Sr. António José de Carvalho, que entende ter sido reedificada por aquele rei e não fundada, “porque pouco depois, em 1224, Fernando III, de Castela, e seu primo D. Sancho II, de Portugal, ali estiveram para terminarem as contendas entre Portugal e Leão por causa da rainha D. Tareja; e, em quatro anos, não se fundava uma vila com todas as comodidades indispensáveis para receber dois reis” (Rosa da Montanha, p.200).
E mais adiante conclui que:
“Quando D. Deniz tomou posse do Sabugal, era a vila uma povoação importante, por certo a mais notável de Riba-Coa, e já a esse tempo se tinha estendido pela planície até à Madalena, em cujo sítio existem ainda, fazendo parte dos muros dos quintais, algumas pedras com a cruz de Cristo. Não é provável que, sendo a povoação fundada, como alguns dizem, por Afonso X, o sábio rei de Leão, tivesse florescido tanto em tão curto espaço de tempo, como o que durou desde então até D. Deniz.
A falta de documentos e provas irrecusáveis deixa-nos em simples conjecturas, que outros mais esclarecidos e estudiosos poderão talvez desfazer; mas tais conjecturas não podem chegar ao ponto de admitirmos a hipótese, pouco verosímil, da fundação da vila no tempo de Afonso X, nem mesmo de seu pai Fernando III, de Leão pelas razões atrás expostas“.
Também o arqueólogo, e nosso antigo colega natural do Soito, João Luis da Inês Vaz, actual Governador Civil de Viseu, defende que:
”A fundação da vila perde-se na noite dos tempos. A opinião mais corrente tem sido a que nos apresenta a vila fundada por D. Afonso X, o Sábio, avô de D. Dinis. Aceitando esta opinião a vila teria sido findada em 1220.
É de todo insustentável esta hipótese, não só pelos factos que ali ocorreram em 1224 (…), mas também porque Afonso X ainda não era nascido à data em que lhe é atribuída a fundação. Que estes argumentos não bastassem aí tínhamos os achados mais antigos a provarem uma existência anterior.
Outra hipótese que tem sido apresentada é a da fundação ter ocorrido quando os habitantes do Sabugal Velho, castro situado junto de Aldeia Velha, fugiram após a destruição da sua povoação. No local do velho castro têm sido feitos diversos achados e ainda no primeiro do século eram visíveis os arruamentos (…).
Não podemos excluir esta hipótese, pois nada encontramos que nela comprove ou nela faça pôr de parte. Não estará por detrás desta lenda algo de concreto, de relações que existiriam entre dois castros contemporâneos? A ser assim o Sabugal seria já uma povoação castreja. Parece-nos a hipótese mais provável. Basta olhar à localização da fortaleza para vermos a sua possibilidade. Com efeito, ela ergue-se sobre um esporão, do lado ocidental e planície do lado oriental, onde abundam os terrenos de cultura, com o rio a beijar-lhe os pés.
De certo nada nos resta. Apenas podemos dizer que a fundação da vila ocorreu em tempos muitos recuados, talvez mesmo antes da nossa era”.
O mesmo se passa relativamente aos primeiros habitantes não só da região do Concelho como da própria Riba-Coa. A este respeito interroga-se também o Dr. Joaquim Manuel Correia se teriam sido os Túrdulos os primeiros habitantes de Riba-Coa:
“Não parece natural, diz, e provável seria que aquele território fosse povoado já por outros povos, que fugissem à chegada dos túrdulos ou se ligassem com eles.
Podiam ter vivido ali os Vetónios, os Váceos, Astures, ou Carpetanos ou outros, talvez mesmo os Galaicos, que nenhuns ficavam distantes deste território e poderiam tê-lo ocupado. (…).
Tanto os Astures, como os Galaicos tinham na região abundantes filões metalíferos que tanto podiam saciar-lhe a ambição (…).
Não é, porém de crer que estes e os túrdulos fossem os únicos habitantes de Riba-Coa”.
Não admira mesmo que a região fosse cobiçada e habitada desde os mais remotos tempos, pois, diz o mesmo autor, e ao contrário da imagem miserabilista que muitos, incluindo sabugalenses, têm acerca dele:
“O território de Ruba-Coa, isto é, dos transcudanos, abundava em águas com peixes, tinha boas pastagens, devia ter muita caça, talvez árvores frutiferas, gingeiras, mostajeiros e abrunheiros bravos, mas sobretudo carvalhos, que dariam muita bolota, com que fabricassem uma espécie de pão, e castanheiros, que ali existem ainda. O veado, o porco bravo e outros animais deviam também abundar, porque os dois primeiros, assim como o lobo, ainda hoje aparecem nas serras de Malcata, Quadrazais, Aldeia Velha, Foios e Vale de Espinho e por isso deviam atrair os povos para ali, afim de lhes aproveitarem as carnes e peles.
A existência do urso é admissível, pelos nomes de Vale da Ursa e Lapa de Urso dados a alguns sítios do Souto, de Sortelha e Quadrazais.
Ou estes povos viessem da Asia, como alguns sustentam ou da África, como opinam outros, seriam eles quem na Península introduziu a arte de levantar megálitos, ou esta já existia na Europa? Não sabemos responder.
Arbois de Joubainvilli é de opinião que foram os Lígures os construtores destes curiosos monumentos”.
Por seu turno, a Drª. Clarinda de Azevedo Maia, que palmilhou a zona raiana do lado português e do lado espanhol para escrever a sua notável obra, aliás a sua “dissertação de licenciatura em Filologia Romântica”, intitulada Os falares fronteiriços do Concelho do Sabugal e da vizinha região de Xalma e Alamedilha, referindo-se também aos povos atrás mencionados e tendo como fundamento vários autores por ela citados, como J. Manuel Correia, Fortunato de Almeida e J. Leite de Vasconcelos, afirma também que:
“Nem uns nem outros podem ser tidos como os mais remotos habitantes da região e os detentores de uma civilização de tipo primitivo como a que revelam as antas e os numerosos achados arqueológicos de tipo pré-histórico do Concelho do Sabugal (…). Convém, no entanto, precisar que os dólmens graníticos de época neolítica (…) e os instrumentos da idade da pedra e do bronze se situam, aqueles exclusivamente no concelho do Sabugal – em Ruivós, arqueologicamente uma das terras mais ricas do concelho, onde há notícia de terem existido cinco antas (…), mas de que actualmente se conserva apenas uma, em Aldeia da Ribeira, em Sortelha, em Pena Lobo, em Aldeia Velha e no Jarmelo – e estes também quase exclusivamente (…). Daqui resulta que, pelo menos no que respeita ao Sabugal, podemos afirmar, de maneira mais ou menos segura, ter sido a região habitada des tempos pré-históricos e serem essas populações bastante numerosas, dada a rede bastante fechada de pontos onde encontramos esses testemunhos do passado. Essas populações deixaram, aliás, vestígios na toponímia do mesmo concelho: Leite de Vasconcelos (…) regista aí o topónimo Anta em Aldeia da Ribeira a confirmar a sua presença desde essas épocas remotas.
Testemunhos indubitáveis dum passado longínquo são também os castros de Aldeia Velha, Pena Lobo, Cardeal (…) e Sabugal Velho, subsistindo deste último apenas alguns vestígios de um fosso e de algumas habitações, onde se encontraram moedas e instrumentos de pedra (…).
Serão estes povos e esta civilização que encontrarão na sua chegada à mesma região os Lígures, e sobretudo os Celtas no séc.VI a. c. (…)”.
Continuando o historial dos povos que sucessivamente foram ocupando esta região e particularmente o concelho do Sabugal, a Drª. Clarinda constata que “numerosos vestígios arqueológicos da época da dominação romana, além das pontes sobre o Coa, duas delas importantes no Concelho do Sabugal, a de Alfaiates e de Aldeia da Ponte, e várias outras em toda a região, o que faz supor a existência de vias romanas para seu aproveitamento (…) – sepulturas, tijolos, telhas, moedas de cobre e prata, duas delas de Sertório, lápides sepulcrais e outros objectos – foram e têm sido encontrados em várias povoações do concelho do Sabugal: Aldeia Velha, Alfaiates, Badamalos, Lomba de Palheiros, Rebolosa, Rendo, Ruvina, Sortelha, Vila Boa, Vilar Maior e Vila Touro (…)”.
Seguem-se os árabes que, apesar da sua pequena densidade populacional nestas paragens, deixaram bem marcada a sua presença, pois “Além dos topónimos formados com o apelativo aldeia, de que existem cinco exemplos na parte meridional da Riba-Coa, isto é, no Concelho do Sabugal – Aldeia do Bispo, Aldeia de Santo António ou Urgueira, Aldeia da Ponte, Aldeia da Ribeira, além da Aldeia Nova que passou recentemente (…) ao concelho de Almeida – há, na região, um ou outro topónimo isolado de origem árabe – Almofala (…), Alfaiates, Almeida, Almendra e Rapoula (…)“.
Estes topónimos não se podem considerar oriundos da época de ocupação sarracena, acrescenta a autora, baseando-se na opinião mais segura de Lindley Cintra que apenas considera Almeida e Caria Talaia de época nitidamente.
Apesar da grande procura destas terras atrás referida, épocas houve em que se assistiu a um seu quase completo despovoamento. Os repovoadores foram constituídos por “galegos, que deixaram numerosos vestígios na toponímia da Estremadura leonesa (…), castelhanos, vascões, moçárabes, asturianos e habitantes do Bierzo”. A linguagem essencialmente galega dos foros de Castelo Rodrigo e dos falares da região de Xalma teriam a sua origem e explicação, segundo Lindley Cintra citado pela autora que vimos seguindo, nos repovoadores galegos da região nos sécs. XII e XIII.
A presença dos galegos no lado português e no lado espanhol desta região deu origem aos “verdadeiros enclaves linguísticos galego-portugueses” existentes nas três povoações da Serra de Xalma – Valverde del Fresno, Eljas e San Martin de Trevejo – e, um pouco mais a norte, em La Alamedilha. Verifica-se deste modo, diz Clarinda Maia, uma “interferência linguística entre os falares das povoações portuguesas e espanholas, em virtude dos frequentes contactos entre as populações vizinhas de um e outro lado da fronteira política. As afinidades antigas se ligam, pois, do lado português e espanhol, os factos resultantes dos contactos recíprocos e das interinfluências entre os falares fronteiriços com base na situação de bilinguismo dos falantes”.
Após vermos um pouco da evolução dos povos que, simultânea ou sucessivamente, ocuparam estas terras, forçoso se torna referir aqui de que modo elas passaram para a coroa portuguesa a fim de desfazermos o engano em que porventura alguns dos ouvintes, tal como eu próprio, laborávamos na convicção de que a Riba-Coa constitui o dote da Rainha Santa pelo seu casamento com D. Dinis.
Seguiremos, mais uma vez, o Dr. Joaquim Manuel Correia na obra já mencionada uma vez que não se nos oferece qualquer objecção para contradizer os seus argumentos. Diz-nos ele que:
“Não é fácil averiguar como passaram estas terras para Portugal, antes de D. Deniz, nem tão pouco em que reinado vieram para o seu domínio. Não seria para admirar que Sancho I, que tomou a Galiza e pôs cerco a Castelo Rodrigo, sem conseguir tomá-lo, tomasse depois Riba-Coa, sabendo-se além disto que o Papa Celestino III, na sua bula, dada em S. João de Latrão, concedia ao rei de Portugal regalias e privilégios na guerra feita ao reino de Leão, iguais às concedidas a quem fizesse guerra aos infiéis, porque o rei de Leão se tinha aliado com All-Mansor, emir de Marrocos, o que irritara profundamente aquele chefe poderosíssimo da Igreja.
Mas, se há dúvida a respeito da época em que se adquiriu e perdeu tal território, não pode havê-la a respeito do modo por que foi readquirido pelo rei Lavrador.
Entrou ali como conquistador, demorou-se como senhor, restaurando os castelos, e, se não tinha a força do direito para assegurar a sua posse, tinha o direito da força, o direito do mais forte, direito que talvez fosse reconhecido pelo rei de Leão, representado por um tutor, por não poder bandear-se com tão poderoso inimigo.
È forçoso, porém confessar que no tratado a que nos vimos referindo – ou seja, o tratado de Alcanizes – se reconhece o direito a Portugal, ou antes ao seu rei, por que nesse tempo os reis eram tudo e tudo era deles.
No dote não podia fundar-se esse direito, porque a ele se não referiram, como seria natural, nem podiam referir, pois que, se teve dote a excelsa filha do rei Pedro de Aragão, não consistia nas terras de que nos vimos ocupando.
Não é só pelo texto do referido tratado que se conclui não terem essas vilas sido doadas. A seguinte carta é ainda poderoso argumento:
«Dom Denis plla graça de deus Rey portugal e algarve. A todos Alcaydes juyses Commendadores e a todalas outras justiças e Concelhos de meus Regnnos que esta carta virem. Saude sabe de que quando eu tomey o Sabugal querendo fazer bem e merece aos dessa villa e do seu termo outorguey-lhes o foro que ante auiam.
E porque em esse foro diz que nam paguem em meu Regno portagem porque vos mando que cada de vos em vossos luguares assy o façades cumprir e guardar honde al nom façades se nam a vos me tornarei eu porem. E emtestemunho desto dey esta minha carta aos do Sabagal (sic).
Dante em Coimbra primeiro dia de janeiro. Rey o mandou martim pirez a fez. Era de 1335» (….).
Portanto, apesar de muitos e consagrados escritores terem afirmado que a Comarca de Riba-Coa fizera parte do dote de D. Isabel, parece-nos destituída de fundamento semelhante afirmação, já pelo modo como entrou naquela comarca, atitude que nela manteve, num aparato bélico que irritou e trouxe a campo os homens de guerra do donatário, que ficaram vencidos ou desistiram da luta; já por que Fernando IV de Leão reconhece o direito, embora não diga o fundamento deste; já porque não há documento que prove tal doação; e finalmente porque o próprio rei de Portugal não só no tratado de Alcanizes, mas na carta que fica transcrita, assevera ter tomado o Sabugal“.
O foro referido nesta carta trata-se do FORAL DO SABUGAL, concedido em Trancoso, e cujo Centenário agora celebramos por se cumprirem amanhã precisamente 700 anos, ou seja, em 10 de Novembro de 1296. E porque se trata de uma data e de um documento verdadeiramente históricos, aqui vou transcrevê-los na íntegra. Peço desde já desculpa para os erros de pronúncia, pois está escrito no português da época:
“FORAL DA SABUGAL: Carta por El Rey outorgou os foros e os costumes que auia o Concelho do Sabugal.
En o nome de Deus amen. Sabham todos quantos esta carta vyrem que eu Don Dinis pela graça de Deus Rey de Port. e do Algarve en senbra com mha molher a Rayna domna Isabel e com meus filhos Infante domna (sic) Affonso e domna Costança dou a uos concelho e probadores da mha vila de Sabugal e de seu termo todo o noso foro e boos custumes conpridamente pera todo sempre. Outrosy uos dou e outorgo a nosa feyra geeral que a facades cada ano e que entre oyto dias andados de Julho e dure quinze dias. E seya franquida e contada oyto dyas ante e oyto depoys e outrosy os quinze dias assy como era aquela que ante auiades. Outrosy uos dou e outorgo e defendo que nenhum de fora parte nom encube vyno nen no leve a vender a essa vila o termho de Sabugal en quanto o hy ouuerdes de uosa collecta. Outrosy uos dou e outorgo a cada hun de uos que auiades os uosos herdamentos e todalas outras cousas pera todo senpre assy como os ante auiades que eu filhase esse villa como manda o uoso foro. Outrosy outorgo e prometo que nunca essa villa e Castelo de Sabugal com todas sas Alcaydias e termho de las nen leyxe a Infante nem a Ricomen nen a outra pesoa nenhuma en prestamo nen en doaçon nenhuma toda nen parte dela. Mais que fique e que seya meu e dos Reys que despos mim ueeren e que reynaren no Reyno de Port. E nenhun non seya ousado dos meus propincos nen dos stranhos que contra o noso foro e boos costumes nem contra este meu outorgamento qurira viir mays valhan e tenham pera todo cempre. E dou beençon a todos meus suscesores que depos mim ueeren que o uoso foro e boos custumes e esta mha otogaçon aguardaren. E aqueles que contra elles ueerem seyam malditos e aian a ira de Deus. E por tal ques esto mays ualha e tenha pera sempre dou a uos esta mha carta seelada de mha bola de chumbo que tenhades en testemoyno. Dante en Trancoso dez dias de Novenbro el Rey o mandou. Era de Mil e tresentos e trinta e quatro anos.
Inffante don Affonsso = Don Martin Gil alferez. Don Joan Affonsso de Alboquerque = don Pero eanes = Don Joan Fernandiz de limha = don Joan rodriguiz de briteyros don Fernan periz de Baruosa = don Lourenço soariz de Valadares = Johane meendiz de briteiros = Johan Symhon = duran martriz o mordomo Silvestre mujeer sobreioir = Pero Affonsso ribevro = don Martino arcebispo de braga = don Eanes Johan Bispo de Lisboa = A Eglesia de Coinbra que sta uagante = don Pero Bispo de Evora = Don Sancho Bispo do Porto = Don Egas Bispo de Uizeu = Don Vasco Elleyto de Lamrgo = don Frey Johan Bispo da Guarda = don Frey Domingo Bispo de Silue = Don Steuani enes Chançeler = Giral dominguez dayam de Bragaa = Paay dminguiz dayam de Evora = Joan dalpran = Eu Domingo perez scriuan da Chançelaria a escreuy”.
Impõe-se agora que fizéssemos também um historial dos acontecimentos mais marcantes também desenrolados no Concelho do Sabugal e que o ligaram para sempre à nossa História comum. Outros o fizeram já e, por uma questão de brevidade de tempo, vamos mais uma vez socorrer-nos do nosso colega e amigo João Luis Vaz que resumidamente sintetiza porventura os factos mais relevantes.
Antes disso não posso deixar de mencionar dois acontecimentos significativos: um deles tem a ver com a famosa conspiração Carlo-Miguelina, no séc. XIX, onde se destacou a guerrilha que deu pelo nome de Pavorosa de cuja alma, como escreve o Dr. Joaquim Manuel Correia, era o célebre padre João de Matos que contribui para que “Aldeia da Ribeira, onde o padre João era pároco, a pequena distância do reino vizinho, seria o ponto donde irradiariam todas as ordens, o centro das operações, sendo o padre João a alma de todos os preparativos.
Dizia-se que tudo prevenido: pessoal da guerrilha e material de guerra. Indigitavam-se indivíduos que deviam ter patentes de alferes, tenentes, capitães: este devia ser sargento; aquele capelão militar, etc.” (18).
Esta conspiração acabou por ser abortada e presos os principais cabecilhas entre os quais o padre João de Matos. A sua situação agravou-se, pois “Entretanto no dia 15 de Dezembro de 1874 dava-se contra os acusados um facto importante, o aparecimento das armas numa propriedade pertencente a João Vaz, de Aldeia da Dona, sendo desenterradas na presença do Administrador do Concelho, Joaquim António de Almeida, e da força militar. Entre outras armas apareceram espingardas, trabucos, arcabuzes, canhões e balas, baionetas, espadas e refles. Na fonte da povoação foram também encontradas 306 balas e um cano de pistola. Todo esse material foi conduzido em dois carros para o Sabugal”.
O outro acontecimento dá pelo nome de “O Motim do Aguilhão no Sabugal”, ocorrido em 10 de Fevereiro de 1926, e descrito por Jesué Pinharanda Gomes no 2º. Volume das suas Memórias de Riba-Coa… Nessa data:
“cerca de 1500 manifestantes, tantos quantos os que tinham chegado, das diferentes freguesias, entraram agressivamente no largo denominado Praça da República, sitio da Câmara Municipal.
Protestavam contra impostos recentemente lançados: o imposto de turismo, o imposto «ad valorem», cuja cobrança fora arrematada pelas Finanças a publicanos, imposto esse que ia reflectir-se de um modo agressivo sobre a carestia da lavoura regional, e licença de cães, onde não houvera o cuidado de distinguir cães de luxo e cães de guarda, e a licença de aguilhão”.
Tais manifestantes, mesmo apoiados por gente que vinha doutras aldeias como Quadrazais, Soito, Alfaiates, Aldeia Velha, Vale de Espinho, Foios, etc., verdadeiramente amotinados contra a Câmara e a Fazenda Pública, foram confrontados com a GNR que, diz Pinharanda Gomes, “tivera força suficiente para destroçar o motim, cujos agentes, acabaram por regressar, desiludidos e cansados, às aldeias de onde tinham vindo”.
Se estes acontecimentos são de somenos importância no cômputo geral da história do Concelho, eles revelam também o espírito aguerrido e ousado das gentes raianas que não se verga facilmente a quem as explora mesmo que a sua revolta se mostre infrutífera.
Mas vejamos então “O Sabugal na História de Portugal” segundo as palavras de João Inês Vaz:
“Desde que conhecemos a história da vila, o seu primeiro momento de grandeza ocorre em 1224 quando Fernando III, de Leão e Castela e D. Sancho II, de Portugal ali assinam um acordo de paz, segundo o qual Chaves seria restituída a Portugal.
Durante o reinada de D. Dinis, que parecia nutrir especial carinho pela zona de Riba-Coa, por ele reconquistada, por várias vezes a vila deve ter acolhido a real comitiva, havendo até lendas a respeito da estada da Rainha na vila.
D. Afonso IV, o Bravo (e não D.Sancho IV, como certamente por lapso diz João Inês Vaz), e D. Dinis ali se reuniram para travarem conversações.
Em 1328 realizaram-se no Sabugal os festejos profanos do casamento de D. Maria (a bela Maria de que fala Camões) com Afonso XI, de Castela. Os festejos religiosos foram realizados na vila de Alfaiates.
D. Manuel aqui procedeu a obras, como no-lo comprovam as esferas armilares que encontramos, por exemplo, na Torre do Relógio.
Nas guerras da Restauração, por várias vezes as gentes desta zona fronteiriça foram obrigadas a mostrara sua coragem em defender a sua terra dos inimigos.
Brás Garcia de Mascarenhas aqui esteve preso. Foi preso, fruto de intrigas várias aquando governador da praça de Alfaiates e do Sabugal conseguiu enviar ao monarca uma exposição feita com letras recortadas de um livro e coladas com o pão que lhe era distribuído, o que lhe valeu a libertação.
Nas Invasões Francesas, à sombra do castelo se desenrolou um dos “mais gloriosos combates que as tropas britânicas” travaram, como dizia o general Wellington em carta enviada para Inglaterra (Damião Peres, História de Portugal, VI p. 352). Foi na planura do Gravato, sendo o último grande combate travado em terras portuguesas entre as tropas francesas e as anglo-lusas.
– E conclui o nosso conterrâneo: Desde então para cá o Sabugal como que adormeceu à sombra do seu glorioso passado parecendo pouco interessado em sair desse letargo”.
É óbvio que juízos e afirmações destas sempre susceptíveis de levantar polémica. Pessoalmente estou também convicto de que muito falta fazer para colocar o nosso Concelho na vanguarda do progresso. Julgo até que nunca como hoje teve condições tão favoráveis para mudar substancialmente a sua face. E digo isto porque ilustres representantes do Sabugal, ou com as raízes nesta zona raiana, se encontram em altos cargos do Poder. A eles compete encaminhar as coisas para a ajuda que se impõe. E não terão muitas desculpas para o não fazerem, pois por sinal pertencem todos à mesma força partidária que se encontra nos principais órgãos da soberania.
Mas se o progresso é uma coisa desejável, ele não pode ser realizado a qualquer preço. E, ao contrário do que muitos dizem, é minha convicção de que o Concelho do Sabugal é dos mais ricos do país. Não falo já das remessas dos emigrantes que infelizmente e através dos circuitos bancários vão provocar riqueza noutros sítios em vez de serem aplicadas aqui. A grande riqueza deste Concelho e de toda esta zona raiana consiste no património monumental e histórico-cultural que neles abundam: Património esse que vem dos tempos primordiais. Aí temos nós as gravuras rupestres do Vale do Coa a comprová-lo. E para que o progresso seja realmente desenvolvimento e evolução é necessário conciliar o presente com o passado.
Nem sempre auto-estradas e fábricas são sinal de progresso. Estas últimas estão a tornar-se um verdadeiro quebra-cabeças para os chamados países industrializados. Isto porque, a par de algum precário bem-estar económico, acarretaram outros males que o Homem não controla. A poluição, as chuvas ácidas e a perda de ozono são disso exemplo. Não admira por isso que os originários desses países industrializados estejam a procurar a pureza dos nossos ares e a riqueza das nossas aldeias abandonadas por nós, portugueses estultos, que em vez de criarmos boas condições de vida nos meios rurais, corremos para os grandes centros urbanos e para esses países de onde os seus naturais fogem. É deste modo que eu compreendo que sobretudo holandeses e alemães comprem e restaurem, sob a traça antiga, as casas de aldeias abandonadas na Serra da Lousã e noutros sítios por esse país fora.
Por todas estas razões, e se as minhas palavras tiveram a devida consideração por quem de direito, julgo que a via mais adequada ao desenvolvimento desta zona da raia terá de passar necessariamente pelo turismo: preservem-se e recuperem-se os nossos monumentos e as casas graníticas das nossas aldeias, criem-se infra-estruturas adequadas, promova-se correctamente o fluxo turístico e teremos meios e condições de vida dignos para que todos, naturais e forasteiros, nos sintamos bem numa terra que é a nossa.
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A história do Congresso, por Paulo Leitão Batista

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