A comunicação do Padre Francisco Vaz

Sabugal - © Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CONGRESSO DO FORAL DO SABUGAL :: ::O Padre Claretiano Francisco Vaz, natural de Alfaiates, já falecido, fez a primeira intervenção de fundo no Congresso realizado há 20 anos, com uma profunda reflexão acerca da «Religiosidade Popular no Concelho do Sabugal.

Um congresso histórico

Um congresso histórico

Deveu-se a Pinharanda Gomes a presença do padre Vaz na cimeira do Foral. Foi ele que fez o primeiro contacto informal, que permitiu à Comissão Executiva endereçar-lhe depois o convite formal para apresentar uma comunicação.
O saudoso Padre visitou-nos na Casa do Concelho do Sabugal alguns dias antes da grande data. Homem baixo e magro, trazia debaixo do braço os três volumes do seu grande livro «Afaiates na Órbita da Sacaparte», que ofereceu para a biblioteca da Casa do Concelho.
Francisco Vaz nasceu em Alfaiates, concelho do Sabugal, em 1920. Foi reitor do seminário Claretiano e permaneceu 15 anos como missionário em S. Tomé e Príncipe. Foi durante 20 anos capelão no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e foi superior religioso do Colégio Universitário Pio XII, igualmente em Lisboa.
Faleceu em Lisboa, a 22 de Abril de 1997, cinco meses após o Congresso Sabugalense.
Da vasta obra literária publicada, sobretudo de âmbito regional e religioso, destacam-se os livros:
– «Alfaiates na órbita da Sacaparte» (três volumes sobre a sua terra natal, o terceiro de parceria com António Ambrósio);
– «Evangelho aberto» (com a vida do irmão claretiano leigo, Manuel Barbosa, natural do Soito, apóstolo do século XX entre os índios da América do Norte, pelos quais é venerado como santo);
– «Santa Maria de Riba Coa» (excelente excurso sobre o culto mariano).

Publicamos a intervenção do Pe Francisco Vaz na abertura do Congresso.

A RELIGIOSIDADE POPULAR NO CONCELHO DO SABUGAL
Vou abrir a alma, em flor, neste Sinai do Moisés de Riba Côa, D. Dinis. Fitando-o, eu adoro o nascer do sol sobre estas Terras; e, beijando suas mãos, bem presas à rabiça do arado, aqui, no solo que pisamos, aguilhada ao sol, ouço-o cantar para nós:
«E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se desta Gente».
(Lusíadas, I, 10)
Desta Gente: Nós, a quem ele fez portugueses, para sempre, a 12 de Setembro de 1297.
Depois, para vós, que gerastes este Torneio Cultural, celebrando o nosso Natal Localista, a minha vibração de religiosidade popular, face ao regaço florido da nossa primeira Rainha; para vós, ao lado de Fernando Pessoa:
«As Nações todas são mistérios.
Cada uma é todo o mundo a sós.
Ó Mãe de Reis e Avó de Impérios,
Vela por nós!»

1. A RELIGIOSIDADE POPULAR
– Deus, na consciência de um povo crente, captado no Evangelho da vida.
Rosa de Sicar, já aberta aos beijos da Luz da Boa Nova, a Samaritana interpelou o Senhor:
– «Onde é que devemos adorar: no vosso Templo, ou aqui, neste Monte?»
E o Mestre replicou: «Em toda a parte; mas em espírito e verdade»(cfr.Jo 4,23)
Depois deste primeiro panegírico divino sobre Religiosidade Popular, apagou-se o sol durante 2000 anos. Acendeu-o Paulo VI, em 1975, em irradiações de teologia:
«É um facto que, tanto nas regiões onde a Igreja está implantada de há séculos, como nos lugares onde se encontra em vias de implantação, subsistem expressões particulares da busca de Deus e da fé…
A Religiosidade Popular, pode-se dizer, tem, sem dúvida as suas limitações. Ela acha-se, frequentemente, aberta à penetração de muitas deformações da religião, como sejam, por exemplo, as superstições…
Se essa Religiosidade Popular, porém, for bem orientada, sobretudo mediante uma pedagogia da evangelização, é algo rico de valores. Assim, ela traduz, em si, uma certa sede de Deus, que somente os pobres e os simples podem experimentar; torna as pessoas capazes de terem rasgos de generosidade e predispõe-nas para o sacrifício até ao heroísmo, quando se trata de manifestar a fé; comporta um apurado sentido dos atributos profundos de Deus: a paternidade, a providência, a presença amorosa e constante, etc. Suscita, igualmente, atitudes interiores que raramente se observam alhures no mesmo grau: paciência, sentido da cruz na vida quotidiana, desapego, aceitação dos outros, dedicação, devoção, etc. Em virtude destes aspectos, de bom grado lhe chamamos «piedade popular», no sentido de religião do povo, em vez de «religiosidade». (Exortação Apostólica de Paulo VI – «Evangelii Nuntiandi» -, de 8 de Dezembro de 1975, 48)

2. FUNDAMENTAÇÃO TEOLÓGICA
Paulo VI acendeu o facho olímpico. O vento, agitando a árvore, dilata-lhe a sombra. Também aqui, na alameda da Teologia.
Toda a fundamentação parte destas raízes: Evangelho que gera fé; Religião que o capta na vida.
A consciência teológica já superou, felizmente, a visão dicotómica entre Fé e Religião, como oposições abstractas ou dualidades contraditórias.
Mas a fé cristã tem uma pessoa e uma vida a testemunhar; um dinamismo pascal de existência a professar: Cristo do Evangelho. Não se pode satisfazer com qualquer forma de vivência religiosa. Exige a soberania do absoluto de Deus, imanente e transcendente, onde borbulha a auto-realização do crente, em toda a gama da antropologia bíblica.
Não é fácil dominar as tensões entre fé e religião; porém, na sua integração reside o perfeito equilíbrio antropológico. Nas expressões religiosas do homem a iniciativa é sempre do Deus da fé evangélica; e seu vértice está apenas n’Ele.
Na fé faíscam lumes; vivem certezas; mas não se palpam seguranças; e a Religiosidade quer avançar nessas vias. Ver para crer? Ou ver para melhor evangelicamente viver?

2.1 Definições englobantes
Com Paulo VI, as janelas apagadas, acordaram em luz. E viu-se como a humanidade sempre soube disparar, através da Religiosidade, em busca do céu, o fogo das suas indigências na vida quotidiana. Os povos, sobretudo da América Latina, começaram a viver uma Primavera sem tarde nem manhã.
Já no século passado, o lírico, também profeta, despertou a alma para estas alturas, em símbolos vivos:
«Alvas ermidinhas, sob azuis magoados,
Vejo-nos de longe, numa adoração.
Como ninhos brancos de ideal, poisados
Lá nesses fragosos montes escalvados,
Onde não há água nem germina o pão!
(… Donde… os olhos meus…
entrevem Deus”)
(Os Simples)

João Paulo II trouxe de além-Atlântico definições vividas:
«Religiosidade Popular é a maneira como um povo, dotado de determinada cultura, aceita, vive e transmite a religião cristã, ao nível existencial em que se encontra.»
E «a forma ou existência cultural que a religião adopta num determinado povo».
A religião define-se como «expressão do sacro»; em diversos graus de ortodoxia.
A. Pinto Cardoso esclarece: «A Religiosidade Popular anda, com certeza, ligada à exigência congénita de o homem exprimir o próprio sentido religioso em formas estruturais e culturais que não se enquadram totalmente no culto institucionalizado.» (Cadernos de Portugal, Religiosidade Popular e Educação da Fé, Lisboa, 1987, 65.)

2.2 No regresso às fontes
O sol põe-se com a mesma lentidão de há milhões de anos. É o mesmo, mas com manchas e deslumbrá-lo.
Após a primeira liturgia que celebra a criação do cosmo, centrada no homem, o autor Javista do século X a.C. surpreende-se com este antropomorfismo de arrepiar:
«E o Senhor Deus disse: Se o homem já é como um de Nós, versado no bem e no mal, que ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida…» (Gn 3,22).
De facto, Adão prevaricara, constituindo-se deus de si mesmo: Fé e religião por vias desencontradas.
Numa síntese bíblica poderíamos simbolizar o factor «Religião» por uma flecha em movimento ascendente e descendente. O homem, não podendo viver sem resposta aos problemas que o ultrapassam, lembrou-se de inventar divindades, que projecta sobre a história, a nível do sacro.
E a flecha regressa sobre si.
«Pelos ritos, o homem pensa poder colocar ao seu serviço aqueles deuses por ele próprio criados à sua imagem. «Não sabendo defender-se da natureza hostil (intempéries, cataclismos, doenças…), inventa deuses para tudo; oferece-lhes sacrifícios e arroga-se o direito aos seus benefícios… Histórias de amor entre deuses e deusas explicam o mistério do atractivo sexual. Que são, ainda hoje os mitos da “Miss mundo” ou do “Play-boy”?
A sua relação com tais divindades é uma alienação. Que “religião”?!
A “Fé”, “seria simbolizada por uma seta que, de Deus, se dirige ao homem. Ela é o reconhecimento de … alguém que nos interpela. ”Alguém”, o Deus vivo, chama-nos à existência numa relação de amor”. Esse Alguém conduz-nos a uma resposta de amor, que nos realiza, em profundidade e mistério bem apreendido.
E também aqui a seta dá a volta, mas agora para cima… leva-nos a exprimir, como homens, um relacionamento de amor, uma resposta de amor, uma “eucaristia. É a função dos ritos sagrados, síntese efectiva da fé.
E chegámos ao culto ”em espírito r verdade”, fusão da fé e religião.
“Deus interpela-nos; vem ao nosso encontro, mas vem no sentido das nossas aspirações. Ele é alguém que nos atinge na nossa vida real, ao nível das nossas necessidades, para as comatar, porque é amor”. (Charpentier – Para uma Primeira Leitura da Bíblia, Difusora Bíblica, Lisboa, 1980, 23)
Também a lírica foi à fonte e nos trouxe água.
“Procuro em tudo o Teu olhar que me procura;
Os teus passos de aurora são clarões que eu sigo.
Clara fé que diluis toda a amargura;
Ó toda branca, ó toda doce, ó toda pura,
Sou teu mendigo!”
(Pe. M. das Neves – Mendigo de Deus – Lisboa, 1940, 17)

3. RELIGIOSIDADE POPULAR NO NOSSO CONCELHO – UMA ARTE PORTUGUESA DE SER CRISTÃO
A Fé é brasa que nunca morre. Seus valores, pétalas que nenhum vento desfolhará com eclipses fugidios ou persistentes?
Um arco-íris ondulante.
O Heródoto do nosso existir concelho, Joaquim Manuel Correia pretende definir-nos em termos de “religião” pouco aquilatados:
“ … O povo do concelho do Sabugal é também, mais ou menos, supersticioso, para o que muito contribui ainda a ignorância e falta de instrução, hoje mais atenuadas que noutros pontos do país.
O povo acredita em bruxas e feiticeiras, como em lobishomens…
Não são raras, por isso, as mulheres e homens de “virtude”, bentas, bentos e quejandos exploradores da crendice popular…”(Memórias sobre o Concelho do Sabugal – Edição da Federação dos Municípios da Beira-Serra, Lisboa, 1946, 57)
Doutro quilate, a teologia em que nos envolve Camões, em termos de Fé e Evangelho:
– ”A Lei tenho d’Aquele a cujo império
Obedece o visibil e invisibil,
Aquele que criou todo o Hemisfério,
Tudo o que sente e todo insensibil”.
…………………………………………
“Deste Deus-Homem, alto e infinito
Os livros que tu pedes não trazia,
Que bem posso escusar trazer escrito
Em papel o que na alma andar devia”.
(Lusíadas, I, 65-66)

3.1 Ecumenismo de sangue e crença
Inúmeros afluentes alimentaram a nossa existência somática, psíquica, espiritual: Sangue e crença. Aceitámos piamente:
– A carga vetero-testamentária e neo-judaizante;
– O paganismo de outros povos de origem:
– O pendor politeísta e cultos dos povos iberos;
– A religião anacrónica do Império;
– O pendor espiritualista dos germanos.
Com Teixeira de Pascoais, não creio porém, que a “Alma lusitana” resultado diluído de células espirituais do ramo ariano, semita, pagão ou cristão, só tenha assumido o que, de pior, em cada uma delas, tenha remanescido, como parece opinar Richard Croker. A nossa Religiosidade Popular não constitui uma realidade estável, sem mobilidade alguma, cujo núcleo vital seria um credo herdado do paganismo e conservado no meio rural. Longe disso. Ela inclui muitas outras formas de assimilação e também de contaminações, assim como a releitura popular do cristianismo herdado do Concílio Tridentino, mal digerido pelo próprio clero e outras várias formas de criatividade popular. Devemos contar com todas elas e caminhar para reformular, em termos exactos, o problema da sociologia cristã desta vivência popular, a nível de fé e religião.
Através da variada gama de expressões, o nosso povo toma consciência da sua permanente necessidade de Deus; e para Ele se eleva, elevando o mundo.
E esta sublime revelação do iconoclasta forjador da “Velhice do Padre Eterno?!
Capelinhas sempre milagrosas,
Sois n’essas alturas para os olhos meus
Como ninhos virgens de orações piedosas,
Miradouros brancos de luar e rosas,
D’onde as almas simples entreveêm Deus

E a exaltação da fé peregrina:
– ”Lá vai ela andando…no caminho estreito.
Deixa um rasto d’oiro pela escuridão…
Deixa um rasto d’oiro de divino efeito,
Porque as sete espadas, a fulgir no peito,
Põem-lhe um setestrelo sobre o coração” !

3.2. Paradigmas de vitalidade
Toda a vivência religiosa no nosso Concelho se encerra em três sínteses abrangentes, vestindo, de maturidade, o povo inteiro:
– Eclesial litúrgica
“A totalidade dos fiéis-desde os Bispos, ao último dos leigos – … que possuem o Espírito, não se podem enganar na fé”.(Cfr. Vaticano II, LG, 12)
– Ortodoxa-popular
Vida nos lábios, mas júbilo na alma, o povo interpreta, atravessa o azul dos céus, caminha, vive junto de Deus, ao lado dos Pastores, como à rebelia deles. dirá: ”nós ouvimos palavras; Deus ouve desejos”.
É esta a factura da “piedade popular” de toda a Riba Côa.; marca da sua temperatura espiritual. Só ela nos interessa neste nosso contexto.
– Heterodoxa na clandestinidade.
Desafio à mentira. Exploração da crença.
Oferta mágica de falsas seguranças. E o povo: Édipo de olhos vazados, sem o regaço de Antígona, clarão da fé, rumo à verdade. Afoga-se em ondas de mitos.

4. PERSONALIZAÇÃO DA NOSSA RELIGIOSIDADE POPULAR
Quando a seta da alma arranca para Deus, atesta S. Agostinho, Cristo ora com Ela, ora nela, ora por ela, A fusão do divino e humano: ”O Céu novo e aterra nova onde habita a justiça”(Is 65, 17; 2 Ped 3, 13; Apc 21, 1).
Por isso, a Religiosidade deste nosso Povo é: religiosidade Teológica.

5. RELIGIOSIDADE TEOLÓGICA
Seu tema específico: A SANTISSIMA TRINDADE, o Deus autêntico do Evangelho.
Um povo teólogo? – Com certeza. Gil Vicente, Camões e os nossos Clássicos deram lições ao clero.
O nosso Quadro de referência, neste caminho: As MEMÓRIAS PAROQUIAIS.

5.1 Celebração do ESPÍRITO SANTO
Uma síntese Trinitária Paulina. A escultura só pode ser a da Santíssima Trindade.
Deslocai-nos à Matriz de Alfaiates, de raiz romântica, com olhos de cultura e coração para ver e admirareis uma, jóia do século XVI digna do melhor museu.
A POMBA Divina é Orago do Baraçal, Lomba e Ruvina.
Tem Capelas em Alfaiates, Bendada, Casteleiro, Soito, Rendo, Ruivós, Vila do Touro, Vilar Maior. Outras ficaram-se pelas veredas da idade.
Possui Altares em Aldeia da Ribeira, Cauteleiro, Malacia, Nave, Sabugal, Sortelha. As mãos piedosas do ti Cardepe do Soito não conseguiram restaurar mais.
As suas Irmandades criaram espiritualidade em Alfaiates, Aldeia da Ribeira, Malcata-Quadrazais e Vila do Touro.
Celebração típica: A FOLIA
– O povo inteiro, com a alma viva, da cabeça aos pés, em oração e bailado guerreiro. Para festejar a batalha de Lúcifer contra S.Miguel, na defesa do Deus Trino: ”Quem como Deus”?
Alguém descobriu a fonte destas Celebrações em Santa Isabel e D. Dinis.
Memorial bélico do Nascimento da Povoação? Não deixar morrer o Fossado?
J.M.Correia rasga-lhe alicerces de história global:
– ”…Todos os moços solteiros… são ensinados, durante um mês, ou mais, antes da festa, por algum que fosse militar. No dia da festa, todos os que firam militares aparecem fardados e os outros pedem fardas nas povoações próximas; e, todos armados de espingardas, e o comandante, assim como os mordomos, Vestindo fardas de oficiais de antigas milícias, com as respectivas espadas, percorrem as suas aldeias… (J. M .Correia, O.C., 58)
Pinharanda Gomes elucida:
“Originariamente, a “Folia” apresentava características de uma liturgia compósita, de espírito cristão e matéria prima profana, popular e laical. (J. Pinharanda Gomes-História da Diocese da Guarda, Braga, 1981, 507-510)
O Texto de “Alfaiates na órbita da Sacaparte” convida-nos para a mesa da FOLIA daquela vila:
– ”Tarde de sábado, ao pôr do sol, sobre o Rebordilho. Agarotada já andava na Balsa, à espera do Ti Fôfo da Nave. Entretivera-se horas aos ninhos, pelos olheiros relvados e frescos das barracas e pelos salgueiros e silvados dos lameiros.
Eh! Já vem … Vhú!
A estrada é um acampamento jamais visto em dia de mercado, à espera dos carros.
À entrada de Alfaiates estrondam-se foguetes de boas-vindas. Já aí vai o tamborileiro a rufar alegria pelas ruas, em direcção à Praça, acolitado por chusma chilreante de garotos. Quem não se lembra?
Às janelas e balcões assomavam as gentes. Lá dentro, as moças passavam a ferro os fatos e vestidos a estrear amanhã. Os mordomos do Espírito Santo levantam os fatos novos no Bernardo Lapas, à rua do Campanário.
É Domingo do Espírito Santo!
Já anda o “Passeio” pelas ruas! Tocam festivamente os sinos para a missa solene. Florida está a bela imagem da S. Trindade, que percorreu o costumado itinerário.
Pela tarde; vejo na Praça toda a gente a ver desfilar a “Folia”.
Vem gente de fora. Lindo espectáculo, ao sol doirado de Maio…
Três momentos álgidos da Folia: Na Praça, no Adro, na Parada do Castelo.
O Alferes tomava o centro local. Os Espadeiros os extremos, ao nascente e poente. Os Alabardeiros, um de cada lado, circulavam a compasso perfeitamente marcado, girando atrás dos Espadeiros, enquanto o Alferes, bandeira na mão direita, firme, incansável, fazendo-a ondular sobre a cabeça, descreve variadas formas alfabéticas, arremedando, ao que parece, manobras militares em que os vários pelotões falavam a distância, com flâmulas bélicas, em alfabeto cifrado; mais um argumento para a genealogia miliciana deste folclore folião.
Pelo que nos foi dado constar – a história o confirma- o espírito da “Folia” do Espírito Santo de Alfaiates na Órbita da Sacaparte, Lisboa, 1989, I, 207)
Sobre a planície lourejavam espigas à espera da ceifa. As almas despediam fé a arder.
Não era assim em todas as freguesias?
O Prelado da Diocese atalhou desvios. Drasticamente? – Foi pena!
E determinou:
“1º. – Ficarão, “ipso facto”interditos não só os templos religiosos (igrejas e capelas) onde a Folia entrar, mas também, neste caso, os membros da mesma Folia e todas as pessoas que derem causa do mencionado interdito…
Guarda, 15 de Maio de 1928
José, “Bispo da Guarda”.
A Folia era uma prenda para a nossa existência de cristãos. A de Alfaiates ainda não mereceu finar-se de todo.

5.2 Celebração CRISTOLÓGICA
Fonte Evangélica: Cristo. Em afluentes populares, que o secularismo não consegue poluir; vive-se em temperatura de fogo.
SANTO CRISTO
Camões descobriu, na planície alentejana, raízes deste fértil trigal da fé lusitana?
Assim o cantou:
– ”Amatutina luz, serena e fria,
As Estrelas do Pólo já apartava,
Quando na Cruz o Filho de Maria,
Amostrando-se a Afonso, o animava.
Ele, adorando Quem lhe aparecia,
Na fé todo inflamado, assi gritava:
“Aos Infiéis, Senhor, aos Infiéis,
E não a mi, que creio o que podeis!”
(Lusíadas, III, 45)
Erigiu-lhe capelas: Aldeia da Ponte, Aldeia Velha, Alfaiates, Forcalhos, Nave, Rebolosa, Quadrazais, Sortelha Altares? Teve-os e florescem ainda hoje, para o Senhor dos Passos, o Senhor MORTO, o Calvário, o Divino Manso Cordeiro, em mais de 50% das freguesias, para a celebração das ENDOENÇAS.
IRMANDADES de nome, as duas da Nave, de fiéis e de clérigos. Esta reunia, no dia 3 de Maio, aos pés do Senhor, cerca de 200 Padres!
Os PASSOS cantados. As sextas feiras da Quaresma, da noite, ao dobrar dos sinos, um grupo de homens “andava” os Passos, parando, a cantar, junto dos nichos, ainda hoje vivos, nas nossas ruas, rica herança do século XVII. O povo, em casa, de mãos postas, seguia os Passos. O clero estava ausente e desconfiado da ortodoxia teológica das “quadras” populares. A fé andava pela altura das estrelas; ninguém ousava apagá-la.
SÃO SALVADOR DO MUNDO
É ORAGO em Casteleiro e Pousafoles.
Numa Capela em Águas Belas, levanta o mundo nos braços.
MENINO DEUS
Tem PRESÉPIO em todas as freguesias; altares, em:
– Águas Belas, Aldeia do Bispo, Alfaiates, Badamalos, Bendada, Bismula, Forcalhos, Pousafoles, Quadrazais, Rebolosa, Rendo, Soito, Vila do Touro.
O “Tôco” do Natal ainda fumega por toda a parte.

6. RELIGIOSIDADE MARIAL
O “fogo” do Pentecostes, que gerou a Igreja, borbulhou antes, na alma de Maria (cfr. Act. 1,14).
Depois, o nome da Senhora foi sempre lume nos lábios e vulcão no coração de cada crente.
No solo lusitano, a primeira festa Mariana, foi fixada, pelo X Concílio de Toledo, em 656, no dia 18 de Dezembro, para celebrar a Anunciação; hoje, a Senhora do Ó. Nele participaram os Bispos de Dume, Braga, Évora, Lisboa e Porto.
“Guimarãres nasceo em um Convento que ali fundou, em 929, a Condeça Dona Numa Dona…Dedicou este Mosteyro ao Salvador, & a Sancta Maria…”(Frei Agostinho de Santa Maria – Santuário, Lisboa, 1779, Livro I, Título VII, Vol. IV, 47)
Mal florescera a ano 1.000 e o Bispo Nónego consagrara o Condade Portucalense à Senhora da Vandoma, colocada sobre as portas da cidade do Porto.
Nesses dias, com o conde D. Henrique, já nasceram, neste solo, 50 templos Matrianos. Séculos depois, ultrapassavam o milhar.
Cada aldeia levanta-lhe um solar de Mãe e Rainha.
E alma, ânfora de carne em flor, brinda-lhe, bem aberta:
– ”Lá nos altos montes, sem trigais, nem vinhas,
Sem o bafo impuro que dois homens vem,
É que a Mãe de Cristo, com as andorinhas,
E as estrelas dóiro, mesmo ali vizinhas,
N’um casabre terreno, se acomoda bem.

E nas brutas, rudes solidões tão calmas,
Ai, muito se engana quem a julga só!
Entre o luar dos hinos e o verdor das palmas,
Para lá caminham romarias dálmas,
Todos nós lá fomos, com a nossa avó”!
(OS SIMPLES)

6.1. CARQUERE, Regaço da Nação
Portugal – Terra e Gente de milagre de Santa Maria que espalhou céu sobre este chão:
– ”O filho do Conde D. Henrique nascera tolheyto de maneira que todos tinhão que nunqua guareçerya, nem seja homem…
E quando D. Eguas huma noyte dormindo sendo ja o menjno de çimquo annos, lhe appareceo Nosa Senhora e dixe: ” D. Eguas, dormes…?
– Senhora, quem sojs voos?
E Ela dixe:
– ”Eu sou a Virgem Maria, que te mando que vaas a hum tal lugar …e faze hy cauar e acharas huma imagem minha…
Faras hy vegilia, poemdo o menjno que cryas sobre o altar, e sabe que guarecereraa…”
E tanto que menham, alevamtouse loguo… e achou aquela igreja e jmajem, poemdo em obra todas as cousas que a Senhora mandaua…
Vendo D.Eguas Monjs este milagre, deu muytos louvores a Deos e à Senhora Sua Madre…”
(Carlos da Silva Tarouca – (Duarte Galvão) Crónica dos Oito Primeiros Reis, Vol.I, Lisboa, 1951, 12-13)
Cárquere deu o Primeiro Rei a esta Terra e o primeiro Leite à sua Gente!

6.2. A SACAPARTE, Cárquere de D.DINIS E RIBA COA
Brás Garcia de Mascarenhas vai ao leme da história:
– ”Pouco mais de hum quarto de legoa da Vila (Alfaiates), para Nascente, está a Igreja de Nossa Sra.de sacaparte, que resplandece alli cõ mutos milagres a que uão mutas prociçoens de todas as parrochias cercum uezinhas pella coaresma, pascoa, Spirto Sancto e a 8 de 7. bro; a tradição he que ouue alli hua grande Batalha e que hum Rey gritou no meo cõflito della: Virgem, sacaime a parte, e que a Sra. lhe aparecera e o liurara de perigo dando-lhe grande uitoria; mas naõ sabem dizer que Rey foy nem se foy a batalha cõ mouros se christãos”.
(José Mendes da Cunha Saraiva – A Região de Riba Coa e Um Autógrafo de Braz Garcia Mascaernhas, Coimbra Edit., 1930, Vol. V, 11)
Pinho Leal aquilata pormenores de monta e abre as janelas da nossa História.
Deixou os soldados vitoriosos na Sacaparte e confirma:
– “ …A opinião do povo… atribui a fundação do Santuário (da Sacaparte) a D. Dinis, grato à apariação da Senhora, na sua terra e em cumprimento da promessa que fez à Senhora, quando, “em huma caçada, se viu só e acometido por um grande urso.(outros dizem um javali), e em perigo de vida”.(Augusto Soares de Azevedo Barbosa Pinho Leal – Portugal Antigo e Moderno – Vol.VIII, 108)
Daqui partiu o “nosso primeiro Rei” para Alcanhizes, assinar a acta do nosso nascimento. A Senhora da Sacaparte, Mãe e Madrinha.

6.3. Quantas SENHORAS no Nosso Concelho?
Imensas. Todas diferentes. Cada povoação tem a sua, em plural. Existem quantas se quiser; tantas mesmo como fiéis; nenhuma igual, pela posição do corpo, porte e vestes, pelo Menino que nunca lhe falta nos braços.
Contámos 47.

6.4. As SENHORAS que o Povo mais amou
Todas Elas eram o Céu na alma. Algumas, para todas as horas, sem noite nem dia.
As preferidas:
SENHORA DO ROSÁRIO
Só a não vimos em: Sabugal, Lomba, Seixo do Côa e Vilar Maior. Desaparecida?
No Concelho atribuíram-lhe estes espaços culturais:
Orago – 1 (Na Bismula)
Capelas – 3
Altares – 39
Irmandades – 8 – 51
SENHORA DA CONCEIÇÃO
Orago – 3
Capelas – 2
Irmandades – 23 -28
SENHORA DA FÁTIMA
Capelas – 1
Altares – 26 – 27
SENHORA DAS DORES
Ê a Senhora nos PASSOS de Jesus e da humanidade sofredora: OITO Senhoras Irmãs:
Dores, Pranto, Desterro, Piedade, Aflitos, Calvário, Soledade, Dolorosa.
Presente em espaços de culto – 25
SENHORA DO CARMO
Capelas – 2
Altares – 5
Irmandades – 6 – 13
SENHORA DE LURDES
Altares – 11
SENHORA DA GRAÇA
Orago – 1
Capelas – 4
Altares – 4 – 9
SENHORA DA ASSUNÇÃO
Orago – 2
Capelas – 1
Altares – 5 – 8
SENHORA DO CASTELO
Orago – 2
Altares – 5 – 7
SENHORA DAS NEVES
Orago – 2
Altares – 2 – 4
SENHORA DOS PRAZERES
Capelas – 3
Altares – 1 – 4

7. A FESTA DA SENHORA
A FESTA é um concentrado da vitalidade humana. Oferece-nos os produtos mais fecundos de uma cultura que é humana e divina, individual e comunitária.
Josef Pieper define-a como ”a alegria de viver”. Não é ociosidade, mas vida.
É intrinsecamente, “um fenómeno de riqueza 2, não material, mas existencial.

(…)
8- SIMBIOSE DIVINO-HUMANA
“Vamos entrar na alma do povo, através das suas manifestações de Religião, popular, e nelas encontraremos Deus e o homem, como os actores das realidades cósmicas. Examinemos:
– A Linguagem dos seus gestos e actuações; códigos simbólicos…mística experiência do divino…
O ponto de vista em que nos colocamos, é de que as sobrevivências mágicas (supersticiosas etc.) não têm a ver com a ignorância popular, mas sim com o conterem noções operacionais, necessárias à sobrevivência das comunidades. O não terem sido substituídas por outras igualmente significativas, em termos culturais, releva de tal facto…”(Mário Lages, O.c. 91)
E esta pétala evangélica da alma de Paulo VI – “Bem orientada, esta Religiosidade popular pode vir a ser, cada vez mais, para as nossas massas populares, um verdadeiro encontro com Seus, em Jesus Cristo”.(EN 48)
:: ::
A história do Congresso, por Paulo Leitão Batista

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