Poldras, Pontões e Pontes (3)

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

:: :: As Chancas do Malhadil em Pailobo :: :: – Nalguns locais chamam-lhe chancas, noutros poldras noutros ainda passadiços, mas tenham o nome que tiverem, são as construções mais rudimentares que o homem fez para atravessar os nossos rios. Apenas permitiam a travessia a pé, e com alguma habilidade.

As chancas, poldras ou passadiços

As chancas, poldras ou passadiços

O homem desde tempos imemoriais sempre se aproximou dos rios. Os rios sempre foram e ainda são os locais onde grande parte das necessidades podiam ser satisfeitas. Tinham água para beber, para se refrescar e peixe para pescar. Talvez por isso, as margens dos cursos de água tenham sido desde sempre locais em que se formaram aldeias, vilas ou cidades. Se pensar-mos bem, são raras as grandes cidades mesmo a nível mundial, que não tenham tido na sua génese um Rio.
E se a vivência do homem era mais facilitada junto dos rios, determinou a necessidade e o engenho que se encontrassem formas de atravessar os rios com o máximo de comodidade e segurança possíveis. Foi assim que apareceram as poldras, os pontões e as pontes.
As poldras são a forma mais elementar e rude de construir a travessia de um rio. Eram constituídas por grandes blocos de granito alinhados a toda a largura do rio, espaçados com uma dimensão idêntica a um passo. Uma das partes de cada bloco era enterrada no fundo do rio por forma a manter a sua estabilidade e resistência à força das águas.
Na minha zona, estas poldras eram muitas vezes chamadas de “chancas” admito que pelo facto de, para passar ser necessário saltar e alargar o passo entre as pernas para coincidir com cada uma das pedras.
Por norma, as poldras eram construídas em zonas relativamente planas dos rios precisamente para diminuir o risco de arrastamento quando as águas subiam.
A travessia de um rio passando pelas poldras exigia algum equilíbrio e cuidado na colocação dos pés pois, com a água a correr, e com o uso, as pedras ficavam naturalmente lisas o que podia conduzir e às vezes conduzia, a escorregamentos e a indesejáveis banhos no rio.
As poldras apenas eram usadas quando a água do rio já tinha baixado o suficiente de forma a manter fora dela a parte de cima das pedras. Só assim se passava a pé enxuto.
Por outro lado, as poldras, como facilmente se percebe, constituíam um obstáculo menos intenso à corrente da água dos rios do que os pontões na medida em que não eram cobertas por cima. A sua pouca altura relativamente ao leito do rio (menos de 1 metro) permitia que a água circulasse, em alturas de grandes chuvadas, também por cima dos blocos de granito.
Não é difícil imaginar o esforço que foi preciso fazer para cortar aqueles blocos de pedra e depois disso transportá-los para aquele local para formarem aquela passagem.

Uma travessia através das poldras

Uma travessia através das poldras

Nos rios da nossa zona já não existem poldras. A necessidade de permanente conservação deste tipo de travessia, aliado à permanente diminuição da população residente, fez com que muitas poldras tivessem o destino que as águas lhe quiseram dar, sem que a sua reposição tenha sido retomada pelos homens que lá não há.
Por isso, hoje são já raras as poldras quer no Noémi quer no Côa e as que porventura existem estão incompletas e danificadas.
No Noémi existiam umas poldras algumas centenas de metros a nascente do actual pontão, junto ao Malhadil. As coordenadas geográficas do local dessas chancas são indicadas (aqui) para que possam relembrar a sua existência.
Mesmo quando hoje alguém se deslocar a este local, facilmente constata que era efectivamente o melhor sítio para construir uma travessia daquele tipo. Para se lá chegar, se não quisermos fazer corta mato, passamos o pontão de Pailobo e seguimos para nascente, pela margem direita do Noémi, pelo caminho que nos levaria até à estação do Noémi. No primeiro entroncamento viramos para a esquerda e ficamos, passados alguns metros, no meio do leito do Noémi de fronte para o local onde se localizavam as chancas do Malhadil.
Naturalmente que depois de dezenas de anos, de abandono das terras pelas populações, seja emigrando para países europeus ou mesmo para as cidades mais populosas do nosso pais, as chancas deixaram de ser usadas e naturalmente deixaram de ser mantidas.
O Noémi, nas enchentes anuais, ter-se-á encarregado de fazer o resto do trabalho, destruindo-as e certamente empurrando-as para jusante, onde ainda se pode ver uma ou outra pedra, no meio da água.
Este texto apenas pretende relembrar um local onde existiu uma travessia deste tipo. Quem se deslocar lá poderá imaginar como eram há dezenas de anos estas travessias, mas naturalmente não poderá ver estas chancas.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

5 Responses to Poldras, Pontões e Pontes (3)

  1. José Manuel Trigo Mota da Romana diz:

    Bom documento escrito. Na ribeira da Corujeira, concelho da Guarda, existem umas poldras em estado razoável.

  2. Sendo natural de Miuzela conheço perfeitamente o tema. Chanquei algumas delas na travessia do Noémi, para ir além da ribeira, perto da Parada..Texto muito ilustrativo de um tempo passado e ficou na memória do povo.

  3. JFernandes diz:

    Caros amigos:
    Naturalmente que todos nós gostamos de falar destas coisas simples que por vezes tanto nos dizem.
    Enquanto alguém as lembrar elas continuam vivas.
    Um abraço a ambos.
    Jfernandes

  4. No Noéme, entre Vila Mendo e Vila Fernando existem uns vestígios delas (Poldras) e na Quinta de Baixo ainda se podem ver umas como publiquei em 2014 no blogue de Vila Mendo: http://acrvilamendo.blogspot.pt/search/label/Freguesia%3A%20Quinta%20de%20Baixo
    É fundamental darmos a conhecer o nosso património material e preservarmos as memórias dos povos…
    Luís Filipe Soares
    acrvilamendo.blogspot.pt

  5. José fernandes diz:

    Caro amigo, mais um tema que nos prende pela simplicidade e “boa escrita”. Traz-me à memória a travessia do Côa que fiz algumas vezes (tinha 6 ou sete anos), a cavalo numa burra, nas poldras de São Miguel, ali por baixo do Paraizal (Penso que era assim que se chamavam e não sei se ainda existem). Acompanhava a minha Mãe até ao Paraizal e o Monte onde a minha Mãe ía vender coisas que ía buscar à Espanha que eram novidade para as pessoas para além do Côa, como Ela dizia. Enfim, a necessidade a quanto obrigava …
    Um abraço amigo JSF

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