Variações sobre a batata

Jesué Pinharanda Gomes - Carta Dominical - © Capeia Arraiana

A propósito da cultura da batata no concelho do Sabugal.
Sem que o tivesse procurado, veio ter-me às mãos um opúsculo de 27 páginas, intitulado «Cultivo de la Papa (Patata)», da autoria de um economista chamado Gustavo Echavarria, opúsculo esse publicado pelas Ediciones del Ministeriode la Economia Nacional da Colômbia, através da Imprensa Nacional deste País, sem indicação da data, mas talvez publicado há mais de setenta anos.

O concelho do Sabugal foi importante produtor de batata

O concelho do Sabugal foi importante produtor de batata

O autor explica a origem e a importância da papa, uma planta, tipo tubérculo caulino, mas que só se aplica às batatas de comer, pois há outras plantas também tipo tubérculo caulino, como é o caso de algumas flores como as dálias.
O autor do estudo recorda que essa planta foi descoberta pelos missionários espanhóis no século XVI, nas alturas das montanhas dos Andes colombianos, de onde a trouxeram para a Europa. Não indica os países europeus que logo receberam a papa, mas a nossa imaginação leva-nos a pensar se a expressão, tantas vezes usada com as crianças – «come a papa» – não foi uma expressão surgida nas famílias que já cozinhavam as batatas, para convencerem os filhos a comer algo de que não gostavam por falta de hábito: comer as papas era comer as batatas.
Ora, nos anos de 1798 e 1799, o famoso botânico alemão Heinrich Friedrich LINK viajou em Portugal para estudar a fauna e a flora do nosso país, de algum modo satisfazendo um desejo do verdadeiro pai da ciência botânica, Lineu, que manifestara interesse em conhecer o caso de Portugal, pelos vistos ainda não analisado pelos cientistas estrangeiros.

O livro do sr. Link

O livro do sr. Link

O sr. Link viajou na companhia do promotor e patrocinador da iniciativa, o Conde Johann Centurius von Hoffmansegg. Chegaram a Portugal pela fronteira de Elvas em 11 de Fevereiro de 1798 e concluíram a visita em 1799. O Conde faleceu em 1849 e o sr. Link em 1851. Ambos percorreram o país quase de lés a lés. Quanto ao Norte observaram o Minho, o Douro e Trás-os-Montes até à Serra da Estrela. Daqui saíram para Lisboa, via Coimbra/Tomar, não tendo observado, portanto, as Beiras, e muito menos as Terras de Riba Coa.

Edição francesa do livro do sr. Link

Edição francesa do livro do sr. Link

Como fruto da viagem, o sr. Link publicou um livro ilustrado com desenhos a cores de algumas plantas nativas. O livro foi publicado em alemão em 1801 e logo depois traduzido para francês e inglês. Quanto a Portugal só muitos anos depois passámos a dispor de uma edição portuguesa, publicada pela Biblioteca Nacional de Lisboa, no ano de 2005, num volume de 308 páginas de muito agradável apresentação.
O sr. Link apreciou as paisagens, os costumes e as pessoas, para além, da flora e da fauna. Sendo um livro orientado para a Ciência, está escrito com um estilo tão colorido, vivo, realista e típico, que o lemos como se fosse um romance, e chegamos ao fim com vontade de que não terminasse.
Agora: qual o motivo porque, a propósito da papa, chamássemos para aqui o livro do sr. Link?
Na página 117 da tradução portuguesa e referindo o tipo de alimentação em Lisboa, escreve: «As batatas não são aqui ainda cultivadas, importam-se da Inglaterra e da Irlanda. Em vez disso cultivam-se às vezes heliantus tuberosus, em português batatas vermelhas que não são tão nutritivas». Desta obra também vimos a tradução francesa (Paris, 1805) em que as batatas são chamadas pommes de terre. Também foram denominadas castanhas da Índia que era então e ainda assim julgada a América, a Índia Ocidental.
Divagação cultural: na língua alemã, que é a do sr. Link, batata (no singular) é kartoffel. Em francês, pegou o termo pommes de terre (pomo, maça da terra)., mas também se usou o nome patata, nome este que, com o tempo passou a significar «confusão» (patata et patati), e patate.

Batatal

Batatal

Na Colômbia e no Chile papa é raiz de patata, que no Peru se chama(va) quechus. Os castelhanos adoptaram a forma patata do nativo americano batata, e também os ingleses dizem potato (singular) e potatoes (plural). Os italianos dizem batata (incluindo a doce ou da ilha). Na raia do Sabugal a brandura do b de batata tendia a tornar-se um explosivo p, e, por isso, o audível som de patata, patatas. Sempre no plural: semear patatas, errancar patatas, comer patatas, etc.
Na «Relação do Descobrimento da Florida», de autor anónimo, com data de 1554, a comida para os escravos tinha o nome de batate, significando batatas.
Quanto às batatas vermelhas, presumimos que o botânico aludia à batata doce, trazida pelos espanhóis e levada para os Açores, África e Ásia pelos portugueses.
No sul do país esta cultura expandiu-se, e cremos que o tubérculo chamado pau roxo que ocorre nas serras do litoral alentejano-algarvio, é uma variedade daquela batata. A batata doce podia comer-se crua, cozida, assada, frita, e tinha um sabor a castanha.
Quanto à batata propriamente dita, há muita variedade – até vermelha! – a sua cultura foi bem acolhida, por exemplo na Irlanda, onde deveio a base da alimentação, já na primeira metade do século XIX. Nos meados desse século, uma praga de míldio arrasou as culturas provocando a fome e, ao mesmo tempo, as levas e levas de emigrantes irlandeses para a América.
Também na Galiza a cultura se fixou e, em 1758, já em Montalegre, na raia da Galiza, se produzia alguma, a batata de semente, que se tornou a principal portuguesa, para comer e para semear (plantar). Em 1798, a Academia das Ciências de Lisboa atribuiu uma medalha de ouro a D. Teresa de Sousa Maciel por se dedicar à cultura da batata.
No entanto, a aceitação do tubérculo em Portugal foi lenta. Havia o medo da lepra que se dizia provocada pela batata. Aliás, os escoceses rejeitavam-na porque a batata não se acha mencionada na Bíblia. Hoje em dia, em França, basta pedir frites e logo se entende batatas fritas. Tal como na Inglaterra basta pedir chips, ou, então, pedir logo pela marca ou marcas que as vendem já fritas (há várias…).

Batatas saídas da terra

Batatas saídas da terra

Estas variações surgem a propósito das culturas agrícolas nas paróquias que integram o concelho do Sabugal.
Acontece que o Ministério do Reino levou a efeito, em 1758, um pormenorizado inquérito sobre a história e a vida (económica, social, etc.) de cada paróquia. O referido inquérito foi distribuído através dos Bispos a todos os Párocos, que se obrigaram a responder, questão por questão.
Mediante o Inquérito, o Governo obteve, pela primeira vez na história, uma visão completa do território e das suas estruturas humanas, económicas e patrimoniais. As respostas obtidas foram guardadas em conjunto e conservam-se na Torre do Tombo. Vulgarmente são chamadas «Memórias Paroquiais» ou «Dicionário Geográfico», embora de facto, e por lei, sejam o fruto do inquérito do Ministério do Reino após o terramoto de 1755, destinado a prover o Governo com uma visão geral do estado da Nação.
No aspecto económico, os Párocos também enumeraram as principais produções agrícolas, quase sempre com parcimónia, talvez para controlar a cobiça fiscal. Centeio e castanhas, algum vinho, algum gado, nada de trigo que as terras são frias e pobres, (caso dos Fóios) enquanto Malcata não tinha convento de Frades por ser terra pobre. Alfaiates é excepção: uma agricultura rica, variada, e produtiva em legumes e frutas.
Batatas é mistério. Percorremos algumas vezes as respostas das Paróquias, conferimos a nossa opinião com a de outras pessoas, mas, de batatas (que veio a ser importante produção do concelho) nada constava, o que era estranho. De facto, como já vimos pelo livro do sr. Link, a cultura da batata demorou a ser adoptada. Supomos que tivesse sido nos princípios do século XIX, na sequência das dificuldades criadas pelas guerras napoleónicas. Até aí o centeio e a castanha tinham mais peso na balança económica.
Ora é pela palavra castanha que chegamos à batata.
Na resposta da freguesia de Águas Belas, o pároco informou que lá se colhe «castanha verde e algumas das Índias» (sic).
Castanha da Índia também era produzida em Aldeia Velha e em Pousafoles, mas em 1758, o nome batata não constava.
Todavia, uma luz bruxuleou na resposta das Quintas de S. bartolomeu. Nela, o Pároco refere que na povoação produzem «castanhas (bastantes) de castanheiros» e «da Índia»! Mistério resolvido.
Foi pela notícia das Quintas de S. Bartolomeu que ficámos então a saber que, em 1758, pelo menos em quatro aldeias se cultivava batata, quer dizer, a castanha da Índia. Temos ainda na memória a praga do escravelho da batata nos meados do século XX. Só o DDT salvou a batata de morte certa e os povos rurais da pobreza.

Nota final:
Graças ao saber e ao esforço de dois notáveis investigadores, foi publicado o volume contendo o Inquérito «As freguesias do Distrito da Guarda nas Memórias Paroquiais de 1758» (Autores: José Viriato Capela e Henrique Matos, Braga, Universidade do Minho, 2013). Na página 487, relativa a Quadrazais, refere-se o cabeço da Marvana e, conforme é costume, o cabeço da Marvaninha, mas, por desgraça, o tipógrafo escreveu Marianinha. Já o Padre A. Ambrósio a tinha transformado em Marraninha. Coitada da Marvaninha, diminutivo feminino de Marvão.

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«Carta Dominical», Pinharanda Gomes

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