Poldras, Pontões e Pontes (2)

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

:: :: O PONTÃO DE PAILOBO :: :: – As pontes unem as margens dos rios para permitir que quem mora dum lado possa deslocar-se ao outro. São sempre um símbolo de união. Unem o que os rios tentam separar.

O pontão de Pailobo

O pontão de Pailobo

Onde dantes existiam terras cultivadas, com batatas, milho, feijão, agora ainda vão pastando vacas.
O pontão de Pailobo, a que os habitantes sempre chamaram Poldras, é mais um dos locais onde se pode atravessar o rio a pé enxuto.
A importância desta infraestrutura rudimentar e rude, só pode ser avaliada quando vista à luz do tempo em que foi construída. Hoje, a generalidade das pessoas que a visitam e usam, não lhe reconhece qualquer utilidade que não seja a curiosidade de a observar.
É comum ouvir aos mais novos que pela primeira vez vejam as poldras, observações do tipo: Então isto só serve para passarem pessoas! Só servem para passarem pessoas e mesmo assim para serem construídas obrigaram a muito trabalho braçal. É preciso não esquecer que este tipo de infraestruturas foram quase sempre construídas pelas populações que delas necessitavam e só muito raramente o poder apoiava a sua edificação e muito menos suportava os seus custos.
Estas estruturas, em meados do século passado, eram totalmente construídas à força de braços desde o corte e picar das pedras até ao seu transporte e colocação para que contavam com a ajuda dos seus animais domésticos.
No caso destas poldras, elas eram de grande utilidade não só para os moradores das redondezas que sempre as usaram para atingir a outra margem e se deslocarem à estação do Noémi para apanhar o comboio para a Guarda ou Vilar Formoso quando alguma coisa era precisa daqueles lados.
As poldras de Pailobo de que se apresentam abaixo algumas imagens, eram utilizadas por quem transitava entre as terras mais a norte do Rio (Parada, Ade) e as terras mais a sul (Porto de Ovelha, Miuzela, Badamalos).
Como todos os pontões, também este foi construído no prolongamento natural do caminho que dava acesso ao Rio. A montante do Pontão era o local para a circulação dos carros de bois e também dos animais mais pesados quando a altura da água já o permitia o que por norma acontecia a partir de março/abril.
No pontão propriamente dito passavam as pessoas, e animais de pequeno porte, o cão, cabras, ovelhas e muito raramente o burro devidamente acompanhado.
O pontão era e é formado por pedras de granito, de 3 tipos, conforme a utilização que se iria dar a cada uma delas. Um conjunto de pedras espalmadas mas suficientemente grandes para serem colocadas no leito do rio, semi-enterradas e que formavam o lastro do pontão. É por assim dizer o alicerce do pontão, praticamente invisível pois esta coberto pela água e sobre o qual assentavam um segundo grupo de pedras, estas já trabalhadas, os quebra mar. Eram pedras trapezoidais, com a aresta do cume voltada para montante para que pudesse cortar a água e diminuir o atrito.
O espaçamento entre este segundo conjunto de pedras, que formavam os “pilares” não era igual ao longo do Pontão. O espaçamento era maior na zona mais baixa do Rio por onde naturalmente circulava maior quantidade de água em alturas de enchente. No caso deste pontão existem 3 espaços maiores que os restantes entre pilares, como pode ainda ver-se.
A última destas pedras possuía uma reentrância na parte superior para permitir o encaixe do terceiro grupo de pedras, as cobertoiras. Não é difícil imaginar que tinha de existir um compromisso entre a largura de cada par de pedras e a respectivas cobertoiras.
Estas não podiam ter um comprimento e largura de grandes dimensões, pois para além de ser dificil na altura cortar pedras com dimensão grande, perto do local de instalação, se por acaso fosse possível elas teriam natural tendência a partir mais depressa e inviabilizar a travessia.
Por isso, a dimensão dos espaços entre cada pilar de pedras era pesada por estes dois factores. Depois de colocadas as cobertoiras, o pontão ficava pronto para ser utilizado. Situações havia mas que não são o caso deste pontão em que a juzante do pontão se colocavam ainda outro conjunto de pedras, os contrafortes, inclinadas contra as pedras que formam os pilares por forma a exercerem sobre elas um recurso acrescido de estabilidade, principalmente quando a água do rio subia até cima e por vezes por cima delas.
Hoje, o pontão que ainda existe, já foi várias vezes remendado, agora utilizando materiais mais modernos (betão) principalmente quando alguma das cobertoiras se partiu. Nota-se perfeitamente na primeira imagem a existência de 3 cobertoiras de betão e o acompanhamento das juntas feito entre as pedras, também com cimento e que tem permitido que o pontão se mantenha.
Existem na zona outros pontões igualmente bonitos e bem conservados, de que destaco o existente sobre o Côa em Porto de Ovelha. Neste, de construção idêntica ao de Pailobo e da mesma época, os construtores colocaram gatos que amarram os quebra-mar uns aos outros e lhe dá uma maior solidez. Provavelmente foi necessário fazer isto em face do volume de água que aqui circula (é o Côa) enquanto que no de Pailobo é o Noémi.
Quem quiser ver este pontão a melhor forma de lá chegar é a partir da Parada ou da Ade e dirigir-se para Pailobo. Em Pailobo deve voltar à direita na saída da povoação. Ao chegar à eira de pedra (eira de cima), deve contorná-la pela esquerda, já que pela direita irá ter à Miuzela, e seguir o caminho até ao Rio. O caminho está limpo embora seja difícil percorrê-lo num carro vulgar. Com Jeep ou outro veiculo de tracção mais forte não há problema pois o caminho está razoavelmente limpo.
Geralmente todos os anos e por vezes por mais do que uma vez, as águas do Noémi atingem o topo do pontão e por vezes passam por cima. Nestes tempos em que a população residente passou a ser residual, os detritos naturais do próprio rio, provocam por vezes situações como a que abaixo reproduzo, e que ocorreu este ano.

Rio Noémi em Maio de 2016

Rio Noémi em Maio de 2016

Felizmente que as nossas autarquias, neste caso a União de Freguesias de Amoreira, Cabreira e Parada, agora muito mais sensibilizadas para os problemas da poluição dos cursos de água e para a importância que os mesmos continuam a ter para as populações, mesmo que diminutas, neste caso resolveu, rapidamente o problema tendo efectuado já a respectiva limpeza.
Naturalmente que o pontão fica protegido e pronto para a chegada, no próximo inverno de novos resíduos florestais, mas até lá o pontão mantém a sua altivez e sobranceria sobre o rio.
Claro está que é preciso fazer mais, e principalmente proceder à desmatação do próprio leito do Rio onde os Salgueiros parecem não ter limite para crescer.

Depois de limpo dos troncos

Depois de limpo dos troncos

O Rio, na zona deste pontão é muito largo e por isso, se os Salgueiros forem cortados, ficamos com um areal de grandes dimensões e o pontão desafogado.
Neste local, onde se pode chegar facilmente a partir de Pailobo, seja a pé seja de Jeep, existem ainda inúmeras noras de tirar água do rio, abandonadas é certo, mas que mesmo assim dão uma ideia bem precisa do movimento que aquele local tinha quando elas eram utilizadas. Para quem quiser analisar o caminho que irá seguir até lá chegar, aqui ficam as coordenadas GPS no link (Pontão de Pailobo).
Circular, sem pressas, por estes caminhos que já vimos cheios de gente e animais, é uma experiência que, quem a fizer certamente não vai arrepender-se. Poderá saborear o silêncio do campo e adivinhar quando vai passar o comboio ali ao lado, já que o consegue ouvir a vários quilómetros de distância. E, como sabemos, isto só se consegue em terras em que o silêncio seja a regra.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

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