(Re)viver (n)o passado

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

Por ocasião de tantos revivalismos do passado, numa tentativa de dar vida e ânimo a pedras silenciosas, importa ressalvar que é necessário também dar vida às pessoas. Se as pedras teimam em permanecer em silêncio que saibamos ao menos dar vida às gentes.

cesarcruz_20160826_590x413_01Passado, presente e futuro

Fui reviver o passado às ruas da Mouraria, não vi fadistas nem fado… o fado dessa era morreu quando ela morreu.
Assim é parte da letra do fado com letra de Maria Teresa Noronha e com música de João do Carmo Noronha, interpretado por tantos fadistas da nossa praça. Por ocasião de tantos revivalismos do passado, numa tentativa de dar vida e ânimo a pedras silenciosas, importa ressalvar que é necessário também dar vida às pessoas. Se pedras permanecem em silencio que saibamos ao menos dar vida às gentes. A matriz cultural e patrimonial de um povo deve ser protegida, conservada e alimentada. Mas qual a nossa matriz identitária? São as pedras da nossa história, a nossa ligação a Espanha, as duas vertentes do Côa, as capeias, as festas, a gíria…? Eu diria que tudo isto um pouco. Afirmar que a nossa matriz identitária é apenas uma destas características de expressão social e cultural é restringir um todo a apenas uma parte.
Numa ação conjunta de promoção e conservação da nossa identidade importa ter presente todas as expressões sociais, pois interligando-se produzem mais sentido e explicação. Mas convenhamos, não conhecemos ainda a fundo a nossa identidade. Afirmar que a raiz identitária é apenas uma ou outra expressão coletiva é muito pouco. Uma raiz identitária assume-se no seu todo e não apenas numa parte. Conhecer a parte não nos dá direito a dizer que conhecemos o todo.
Talvez a riqueza do nosso concelho seja essa mesma. Talvez o que nos identifica seja a variedade de expressões e não apenas uma ou outra, mesmo que algumas sejam as coletoras de todos os esforços financeiros, políticos e publicitários por serem as que à priori possam parecer as mais aceites popularmente e com maior visibilidade, e por isso com retornos de diversas ordens.
É urgente sem dúvida apostar na nossa matriz histórica, cultural e social. Tem-se feito algo. Sem dúvida. Mas ainda é tão insipiente e redutor. A história do concelho ainda se encontra por escrever, divulgar e ensinar. Contentamo-nos por ter uns fantásticos castelos que esperam ardentemente visitantes. Contentamo-nos pelas capeias que fazem juntar milhares de pessoas nas praças das nossas aldeias, num ato social e cultural, mas durante o ano estas praças dormem… definham no esquecimento, empedernidas pelo desgaste do tempo e pelas gentes que não têm. Detendo um património histórico, religioso, natural e cultural tão grande e imponente é tempo de se ter uma visão conjunta de futuro. O bem-estar da população residente é o principal objetivo da política local. Pelo menos deveria ser. Para isso é necessário envolver as populações para um projeto comum de desenvolvimento local. Assim as pedras podem ganhar vida. As nossas praças poderão presenciar algum futuro. E as nossas gentes ganharão esperança. No futuro provavelmente seremos ainda menos do que somos agora mas poderemos viver melhor.
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«Desassossego», opinião de César Cruz

2 Responses to (Re)viver (n)o passado

  1. António Emídio diz:

    César :

    Precisamos mais de quem nos esclareça o que será o futuro, um futuro risonho para todos, não só para o « esclarecedor », do que quem nos pinte com cores de « Saudade Satisfeita » o que foi um triste passado.
    Será verdade que quem controla o passado, controla o presente, e quem controla o presente controla o futuro ?
    Escrevo enigmaticamente ? Não ! Esta maneira de escrever é um simples refúgio.

    António Emídio

  2. José Martins diz:

    Enquanto o Presente não for diferente do Passado, o Futuro será mais do Presente.
    O mesmo é dizer que vivemos o mesmo ano muitos anos e por isso não saímos do mesmo sítio e assim continuaremos confortáveis a boiar na água morna da panela, convencidos que no momento em que a água ferver, nesse momento saltaremos para fora. Poucos escaparão, se é que algum escapa!

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