Inovação pouco Social

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

Circunscrever os termos inovação e social numa mesma ideia pode ser um fator de enorme perigo ideológico. Faria uma proposta, em vez de inovação social, porque não uma sociedade inovadora que abolisse a desigualdade social surgida pela fragilização do nosso Estado Social?

Innovation Social - César Cruz - Capeia Arraiana

Inovação Social

Inovação é a palavra da moda, num tempo que pula e avança. Quem não inova e quem não abraça as inovações rapidamente se deixa ultrapassar. A pós-modernidade trouxe esse desígnio social e pessoal. A carga meritória passa a estar assente no próprio indivíduo. Não pensemos que isto é um simples conceito inocente ou meramente um aglomerado de palavras. Ora vejamos. Quando tudo é relativizado ao indivíduo centramos nele a responsabilidade da sua própria condição. E isto deu jeito a quem? Interessou a governos neoliberais de Thatcher, no Reino Unido, de Reagan, nos Estados Unidos. E estes tiveram seguidores fiéis e aperfeiçoadores das suas políticas. Estas políticas incidem na liberalização económica através da privatização, a austeridade fiscal, o livre comércio, a desregulamentação do mercado e do corte de despesas do Estado em áreas fundamentais como o social.
As teorias dos economistas Hayek e Friedman fizeram escola. Aos poucos os governos democráticos conservadores fizeram impor a sua ideologia dominante e instituições supranacionais são-lhes submissas, nomeadamente o FMI, o Banco Mundial e outras mais. O privado assume funções que deveriam ser do Estado e de outras instâncias locais.
A austeridade imposta e seguida subservientemente pela dupla Passos e Portas conduziu à afirmação das desigualdades sociais no nosso país. Mais do que nunca a ideologia neoliberal ganha peso. Declara-se constantemente que o pobre ou o desempregado não sabem aproveitar as condições que lhes são dadas. A asseveração da culpa individual atribui responsabilidade apenas ao indivíduo, enquanto que os agentes políticos saem desculpabilizados. Inventamos projetos de inovação em tudo. Até no social. Vemos políticas ativas de emprego, presenciamos incentivos à inovação para projetos sociais e dizemos que só não avança quem não quer fazer nada. Bem… e a responsabilidade do nosso Estado Social? Estamos no limbo da ideologia e da sobrevalorização do individualismo. A assinatura vem das instâncias superiores e nós por cá acolhemos a ideia como a mais bela obra criada pelo Homem. E a desigualdade social vai aumentando. E aumentará mais. Até que a fragmentação social, a riqueza infundada de poucos, a informação classificada que não sai dos gabinetes, ou sai canalizada para alguns amigos, provoquem o desconforto suficiente na sociedade para que de uma vez por todas se alinhe o centro novamente no bem da pessoa e no bem comum.
Procurar soluções para os problemas apenas numa dinâmica de investimento social, com contrapartidas financeiras, não pode ser entendido como uma prática de um estado Social. Esperar um retorno financeiro por se investir socialmente pode ser legítimo mas não pode e nem deve ser essa a finalidade da operacionalização das políticas socias. Quando se investe no social há o risco de se perder. Mas o maior lucro é o valor ganho pela promoção do que vive abaixo da condição de vida. Mesmo perdendo ganha-se sempre em termos sociais. É claro que se assim for o privado vai-se embora, porque não aufere. Triste é ver que quem tem funções sociais também se arrisque a sair porque não ganha… Deixando de haver investidores financeiros terão de permanecer os que sempre têm investido, não olhando para os lucros mas atendendo apenas para a promoção da pessoa humana…
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«Desassossego», opinião de César Cruz

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