Emigração – a pátria do nosso exílio

Joaquim Tenreira Martins - Capeia Arraiana

Da Babilônia até Sião é um êxodo de muitos anos, a galgar montes, desertos e a passar fome e sede. São muitas cicatrizes no rosto, são muitas lágrimas contidas. São muitos Julhos e Agostos a passar a fronteira. Deixámos para trás amigos, família, e interrogamo-nos sobre o valor da grande decisão de um dia ter partido.

Judeu Errante - Joaquim Tenreira Martins - Capeia Arraiana

O Judeu Errante de Marc Chagall

Enfrentámos a fronteira, expusemos o nosso corpo às balas perdidas de um qualquer infeliz guarda-fiscal que, no fundo, teria inveja do nosso acto corajoso. Passámos para o outro lado e foi do outro lado que ficámos para sempre.
Alguns pensam que a fronteira já não existe. Os mais novos nem conhecem o fenómeno das fronteiras. O euro diluiu a linha divisória nos países da Europa. Grande ilusão!
No mês de Junho findo, dei uma recepção em minha casa e convidei todos os meus amigos portugueses e franceses para virem saborear o nosso prato favorito de Verão: as famosas sardinhas assadas, com a gordurinha a crepitar e a descair para as brasas. Foi em jeito da festa do Dia de Portugal na qual este ano não participei porque o Presidente não me convidou, claro! Os franceses gostam de convívios animados e de expandir os sentimentos com a ajuda de um porto inicial, de um verde para entrada, de um tinto para acompanhar e em seguida fazer umas trocas baldrocas até já nem saber o que se bebe, mas sempre privados de cerveja, que na minha casa não entra.
Tal como nos outros anos, abri as portas do jardim para o cheiro das sardinhas inundar os salões e assim ter um resto de festa dos santos populares, de Santo António, em Lisboa e do São João do Porto e da minha aldeia. Não fiz fogueira de rosmaninho senão os vizinhos iriam chamar os bombeiros e a festa terminaria illico presto.
E foram eles os primeiros a assinalar-me a fronteira entre as minhas sardinhas e o bife que eles preferem ou entre o cheiro que detestam e o gosto que apreciam ao fim de comer a terceira, com as duas mãos, jùa a imitar os portugueses. E quando pela noite afora começámos a cantar o fado, pediram-me para dançarmos o fokstrot, salsa, batacha ou outras latino-americanadas, porque nós já estávamos a chorar de tanta saudade e eles, todos encharcados, o que queriam era divertir-se, dançar, fazer barulho.
A minha mãe, que me tinha vindo visitar, estava um pouco incomodada com a festa. Por aquele andar já estava a ver que se iria deitar a altas horas da noite. Com a sua experiência centenária, já sabia que quanto os ânimos se começam a exaltar é difícil acalmá-los. Puxou então da sua coragem e ratona sabedoria, deu dois guinchos estridentes, como quando fazia para o gado lhe obedecer. Tudo se calou! E todos se voltaram, admirados, para o vigor da velhinha.
Com uma voz suave e conciliadora, com os seus centenários hábitos de mãe galinha, não se privou de nos repreender:
– Ó meus meninos, já que estão aqui à minha volta, então não têm vergonha?! Ora vamos lá a cantar: Queremos Deus, homens ingratos.
– Mas ó mãe, não lhes fale em Deus porque eles são todos ateus e nós, se calhar também!
– Pois é, meu filho, pensava que ainda estava na aldeia. Uma cantiga da igreja é que os poderia acalmar e pôr todos de acordo.

Toda a gente percebeu a boa intenção da minha mãe e alguns até acharam graça, com a atitude enternecedora de uma velhinha que tinha nascido no princípio do século passado.
Todos se tinham posto à volta dela. Mas ela afastou-os com os braços, enjoada com o cheiro a sardinhas e a carne assada. Mas gostou de os ver todos à volta dela. E não cessavam de lhe perguntar de que se alimentava para chegar a uma idade tão avançada. Comeria também sardinhas? Mais carne do que sardinhas?
Piscou um olho matreiro ao filho e este ficou perplexo na resposta. Não queria dividir, não queria fazer realçar a existência de fronteiras entre uns e outros.
– Olha, filho, diz-lhes lá que eu como caldo todos os dias e, às vezes, quando é mais basto, até meto uma sardinha em cima.
Todos os portugueses se riram, acharam muita piada e até deram umas grossas gargalhadas, e o filho teve de traduzir, mas omitiu aquilo que teria sido a cerise sur le gâteau. Omitiu a sardinha em cima do caldo basto, porque bastava de pormenores e a hora já estava adiantada.
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«Pedaços de Fronteira», opinião de Joaquim Tenreira Martins

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