A minha rua

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: A rua que me viu nascer já não me reconhece! Não me admira, e, nem sequer vou levar isso a peito. O desgaste causado pelo vazio do tempo, bem visível pelo rasto destruidor do seu casario, apodera-se agora dela como se de um terramoto se tratasse.

Casteleiro

Casteleiro

Olhando para trás, lembro as humildes casas a transbordar de gente, com os seus animais de estimação por companhia. De estimação mas também de utilidade, quer nos trabalhos do campo, mas também como suporte da alimentação diária destes moradores. Aqui não faltavam as galinhas que nos poleiros, mesmo por debaixo das escadas graníticas das casas, anunciavam o começar de cada dia. A cada despertar respondia a minha vizinha, introduzindo o dedo mindinho no dito cujo da cantora, para se certificar se àquele cacarejar matinal correspondia um ovo fresquinho, que tanto jeito fazia em alturas de festa na aldeia.
“Com sua licença o porco” ocupava a parte baixa da casa. Ali, sob a proteção de Santo António e dos cuidados de sua dona, havia de chegar ao Natal para abastecer a salgadeira de toucinho e presunto, e, o fumeiro onde não faltavam as chouriças carregadas de pimentão, os chouriços de ossos (feitos de cartilagens, febras ensanguentadas e ossos tenros), as farinheiras de pão e as morcelas com aquele cheirinho a cominhos que ainda hoje guardo na minha memória. Se até ao dia do juízo final nenhum mal entrasse com ele, Santo António seria merecedor da melhor chouriça, sempre talhada em tamanho fora do normal, assumindo algumas delas o comprimento do próprio porco. Esta, depois de arrematada na praça, à saída da missa dominical, transformava-se num contributo indispensável para a realização festiva de agosto, em honra de Santo António, não de Lisboa, mas do Casteleiro.
Mas a minha rua era muito mais que isto! Era também um jardim, bem empoleirado em cada degrau das escadarias das casas ou então no peitoril de cada janela! Em mês de santos populares, o cheiro dos manjericos que transbordavam dos “testeiros” contrastava com as sardinheiras multicores dando, assim, um ar festivo aquele lugar com gente dentro.
Hoje as casas estão desventradas e desprovidas de gente!
Já não há flores, nem cheiro a manjericos!
As galinhas já não cantam pela manhã!
As pessoas já não estão!
Hoje, é o silêncio que fala mais alto!
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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