O drama do fogo

Letícia Neto - Seixo do Côa - Sabugal - Capeia Arraiana - orelha

Os incêndios no Canadá transportaram-me para a minha infância. Quando era pequena não sabia muito bem se gostava ou não das férias de verão. Se por um lado era giro não acordar cedo e ter as festas de verão lá da aldeia, por outro havia os fogos. Eu achava sempre que um dia ia ver a minha casa arder. E os cães a fugir e os adultos a gritar de um lado para o outro. Lembro-me de ter pesadelos com os incêndios. De andar sempre a espreitar pela janela do meu quarto sempre que havia a ameaça de as chamas rodearem a minha casa.

Incêndio no Sabugal - Capeia Arraiana - Foto: Cláudia Bispo

Incêndio no Sabugal (Foto: Cláudia Bispo)

O Sabugal é conhecido pelos fogos de verão. Pelo menos alguém uma vez me disse «ai vens do Sabugal? Há lá sempre muitos incêndios não é? Vi na televisão»… É. Há uns anos viver numa aldeia das redondezas nos meses quentes era também habituarmo-nos ao cheiro a queimado. Às vezes desejava que o fogo chegasse logo ao Seixo porque assim passava o resto do verão descansada. Lembro-me que uma vez os bombeiros fizeram um contra-fogo junto à casa da minha tia. A par do medo das pessoas havia sempre um lado de espetacularidade que as fazia juntar pra ver, comentar, lamentar e muitas vezes ajudar. Ajudar os bombeiros ou ajudarem-se umas às outras a proteger as suas terras e animais. Houve uma vez que o fogo parecia tão indomável que houve pessoas que estavam de férias lá no Seixo (migrantes de Lisboa) que fizeram as malas e as meteram nos carros. Pessoas adultas. Porque era assustador.
Lembro-me de querer ajudar a apagar o fogo e lembro-me que nunca me foi permitido pensar sequer que podia fazê-lo. Mesmo quando era já maiorzinha e fazia já algumas coisas de adultos. Isto tudo, que eu julgava assustador, acaba por ser minúsculo a par do que se vive por estes dias no Canadá. Deve ser devastador deixar tudo para trás e ver tudo reduzido a cinzas. Mais do que os terrenos e as árvores… as casas, as escolas, os carros… tudo. Ontem estava a ver uma peça de uma televisão local e as imagens pareciam tiradas de um filme de terror. Muito triste. E passa-se lá longe mas nao esqueçamos que lá vivem muitos dos acorianos que emigraram. E não só, mas sobretudo esses.
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«Calhaus há muitos… Seixo há um», crónica de Letícia Neto

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