In medias res

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

No meio da ação crucial concentram-se os desígnios de um futuro hipotecado. A narrativa literária produziu uma técnica apropriada pela narrativa política. Em detrimento dos espaços em branco surgem esporádicos acontecimentos sobrevalorizados, esperando assim que a memória apague o que não se fez ou o que se fez de errado nas políticas locais de ação.

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In medias res é uma expressão latina que significa «no meio das coisas». Carateriza-se por ser uma técnica narrativa literária que relata os acontecimentos da história pelo meio da ação crucial e não pelo seu início, ab ovo, ou seja «desde o ovo», como escreveria Horácio na Arte Poética.
Esta técnica, além de permitir capitalizar a atenção dos interlocutores, possibilita suprimir incidentes desagradáveis e amenizar intervalos de acontecimentos. In medias res é pois um artefacto literário que analogicamente pode ser instrumentalizado para o discurso da narrativa política. Na falta de acontecimentos e de ações concretas importa assim, a diversos agentes políticos locais, amenizar os intervalos de ausência da ação. Na verdade é maior o intervalo da inexistência e do alheamento do que o espaço de atuação. Prendendo as atenções a um ou outro acontecimento efémero, ou até com algum relevo, sejamos também honestos, a verdade é que isso não pode apagar os intervalos da narrativa do discurso político local que persistem entre nós. E estas intermitências o que nos transmitem? Que somos um concelho com potencial não aproveitado, com uma população envelhecida mas com uma população jovem inconformada a aguardar uma oportunidade de se implementar entre nós. Os intervalos da ação que persistiram durante anos não podem dar lugar à confluência de atos concretos, ocasionais, passando uma borracha na história recentemente passada.
É verdade que nos vamos esquecendo dos espaços vazios ou das ideias que caíram por terra. Talvez os intervalos de ação se tenham afundado na barragem ou sido engolidos por parques imaginários. In medio res resulta, na realidade. Talvez as ideias compradas a cinquenta cêntimos se revertam em vendas a cinquenta euros. Vamos ver quem lucra. O certo é que quem vendeu, vendeu barata a sua alma e quem comprou, usou a alma da sua gente para um intervalo da narrativa de ação.
Não duvidando da sinceridade e da boa vontade das pessoas que tudo fizeram ou fazem para apontar soluções e caminhos, o certo é que a amenização ou a supressão de tomadas de decisão no passado atingiu inevitavelmente a narrativa do nosso futuro.
Resta-nos contar a história ab ovo, desde o início. Sem espaços vazios e sem artefactos literários, onde os intervalos de ação possam ser reduzidos em favor da implementação de mais valor para o nosso concelho.

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«Desassossego», opinião de César Cruz

One Response to In medias res

  1. José Nunes Martins diz:

    Já que tenho andado “no meio de algumas coisas” que têm acontecido sinto necessidade de solicitar ao senhor César Cruz que descodifique a mensagem que nos quer transmitir. É que depois da leitura desta sua crónica, veio-me à memória algumas ideias e algumas compras baratas que vinham acompanhadas de soluções e caminhos, que parece terem caído nas profundas águas da barragem. E já agora, também adorava conhecer melhor a história desde o início e quem sabe fiquemos todos mais sábios e sabedores da verdadeira história.

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