Melhorar a capacidade de fazer negócios

Uma notícia recente sobre o Sabugal cativou a nossa atenção. Dececionante, previsível e muito difícil de contrariar: “O Sabugal não para de descer no Ranking dos Municípios Portugueses, ocupando atualmente a 197ª posição, uma descida de 15 lugares face à posição mantida em 2015, que se deve especialmente à fraca capacidade do concelho para a realização de negócios”.

Fazer negócios

Fazer negócios

Como tornar atrativo ao investimento um concelho com cerca de 12 000 pessoas residentes, com uma taxa negativa de crescimento médio anual da população de 1,6 porcento. Um território de oitocentos e vinte e três quilómetros quadrados, com uma densidade populacional de aproximadamente quinze habitantes por quilómetro quadrado. Uma população envelhecida em que as pessoas com mais de sessenta e cinco anos representa já quarenta porcento da população residente. Um concelho em que as reduzidas oportunidades de emprego surgem sobretudo na agricultura?
A nosso ver temos duas vias, não mutuamente exclusivas, mas sobretudo complementares:
i) Continuarmos legitimamente a queixarmo-nos da ausência de políticas públicas ativas para contrariar a situação de envelhecimento, de desertificação, de abandono, de ostracização, de interioridade, de ausência de coesão territorial. Continuarmos continuamente a reclamar medidas de discriminação positiva para o nosso território, de correção de assimetrias, seja a nível de estradas, seja de portagens, seja de fiscalidade, seja no âmbito do programa nacional de reformas….

Ou
ii) Tendo pleno conhecimento das nossas fragilidades decidirmos agarrar o “touro pelos cornos”, com a nossa vontade, na base dos nossos atuais recursos, para criar e ampliar ECONOMIA. Ou seja, apostar nos recursos existentes como base de sustentação para, primeiro, estancar o definhamento, e para iniciar depois uma marcha que permita sair do poço, ver a luz ao fundo túnel. Para o efeito, temos que explorar situações concretas que criem a economia possível, na base do que temos, em vez de uma atitude sebastiânica, preguiçosa, desmotivante, de esperar que “alguém” traga investimento gerador de emprego. Temos que pensar numa lógia de fileira, de “cluster”, para criar economias de escala, e de gama, que permitam dar dimensão à intervenção. Só desse modo será possível ganhar a atenção de potenciais investidores.

Mas como? Perguntarão alguns! Abordemos então uma possibilidade concreta.

Temos no Concelho um exemplo de sucesso cujo dinamismo devemos ter como referência e como sustentáculo para a criação da tal ECONOMIA. Esse exemplo é a ECONOMIA SOCIAL.

Quem no Concelho tem encontrado respostas para o envelhecimento e problemas socias inerentes? Muitas instituições sociais de solidariedade, algumas seculares, têm sido um marco importante. A sua importância revela-se ainda mais se consideramos que este sector emprega mais de meio milhar de pessoas. O sector social e solidário é hoje o principal empregador e consequentemente o que mais contribui para a economia do concelho. Alguém escreveu (cremos que foi César Cruz), e muito bem, “que estas instituições de solidariedade asseguram hoje as poucas réstias de esperança sentidas e vividas pelas gentes deste concelho
Estas IPSS têm, meritoriamente, desempenhado o seu papel, através de órgãos de gestão onde predomina a boa vontade, o voluntariado, a participação “pro bono”. A bem de uma leitura real temos que admitir que muitas dessas Instituições revelam compreensíveis limitações ao nível da sua gestão. Então temos que reconhecer que não basta ajudar financeiramente as associações que gerem os lares e os centros de dia, as IPSS concelhias. Há que adicionalmente suscitar contrapartidas de boa gestão das instituições, estabelecendo parcerias que permitam ultrapassar debilidades ….
Um exemplo! Se todas as instituições optassem por programas de eficiência energética iriam conseguir elevar os níveis de conforto, consumindo menos energia, substituindo combustíveis fósseis por energias renováveis, combustíveis derivados da biomassa, por exemplo. Com isso conseguiriam baixar consideravelmente os custos energéticos (em muitos casos até 65%) libertando desse modo importante recurso financeiro, para a melhoria da qualidade da intervenção (para programas de envelhecimento ativo, mudança nos estilos de vida dos idosos, melhor assistência médica, etc.) .
E se agora juntarmos aos edifícios dessas Instituições os da Administração Local, escolas, piscinas … etc? E se para todos esses edifícios tivermos, para a eficiência energética, uma estratégia integrada de intervenção? Teríamos criado um quadro com escala. Essa dimensão criaria condições para uma otimização do binómio “custo-benefício” para todos. Uma situação em que todos ganhariam. Simultaneamente existiriam condições para negociação de contrapartidas com as empresas concorrentes em termos de criação de emprego e de fixação.
A iniciativa do Município de promover, no passado dia 19 de abril, uma reunião informativa com as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS’s) do concelho, no sentido de dar a conhecer os proveitos relacionados com o uso eficiente da energia, é de enaltecer. Mas infelizmente não é suficiente. Perante a situação a que o Concelho chegou não basta servir de facilitador de possíveis processos que venham a ser desenvolvidos. O Município tem que ser dinamizador de parcerias. Tem que evidenciar, demonstrando. Tem que avançar com iniciativas enquadradoras. Tem que preparar respostas, por motu próprio para as seguintes questões:
• Quais as necessidades atuais de energia térmica do concelho? Que percentagem dessas necessidades são satisfeitas por combustíveis fósseis?
• Que economias de energia potenciais se obteriam com uma estratégia integrada de eficiência energética no Concelho, substituindo combustíveis fósseis?
• Quais as implicações dessa estratégia em termos de emprego? Quais os valores previsíveis de investimento? Que valores de comparticipação seriam expectáveis?
• Que projetos de demonstração se poderiam iniciar?
• Que parcerias – tipo se poderiam estabelecer?
E se considerarmos que a “Eficiência Energética” casa muito bem com a “Biomassa Florestal Residual” a amplificação será ainda muito mais acentuada, como já referimos em artigo anterior. Ou seja, acrescenta-se a criação de Economia Potencial na área florestal, criando enquadramento favorável ao negócio de terras e facilitando o emparcelamento, na medida em que se perspetiva crescimento do rendimento da atividade silvícola pela melhoria da produtividade.
A ENERTECH SABUGAL 2016 que se vai realizar nos dias 2,3,4 e 5 de Junho, tendo como tema central o Binómio “BIOMASSA FLORESTAL RESIDUAL (BFR) / EFICIÊNCIA ENERGÉTICA”, será uma excelente oportunidade para, perante uma mostra tecnológica, debater futuro com profissionais do sector florestal e do aproveitamento energético das fontes naturais, nomeadamente em estratégias de eficiência energética.
Terminamos afirmando que é fundamental ACREDITAR em nós próprios, nas nossas potencialidades, e afastar atitudes de “sebastianismo” que, está provado, não nos levam a lado nenhum!
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José Escada da Costa, da Associação Malcata com Futuro

2 Responses to Melhorar a capacidade de fazer negócios

  1. leitaobatista diz:

    Obrigado, caro amigo José Escada da Costa, pelos contributos para a discussão sobre o desenvolvimento do concelho, espelhados nos artigos que escreve aqui no Capeia Arraiana.
    A eficiência energética decorrente do bom aproveitamento dos recursos endógenos é uma das principais áreas a trabalhar no futuro e em boa hora lançou a ideia à Câmara para a realização de um evento com isso relacionado. E ainda bem que desta vez o Município soube aproveitar os contributos e as sugestões de quem quer contribuir para o desenvolvimento das nossas terras.

    Quanto à questão fulcral deste artigo – a capacidade de fazer negócios – permita-me que toque num ponto crucial: a rede móvel de comunicações tem que ter a mesma força de sinal no concelho do Sabugal que existe em qualquer grande cidade portuguesa. Aqui o sinal é fraco e em muitas zonas nem sequer existe…
    Nos dias de hoje os negócios dependem sobretudo da comunicação instantânea, nomeadamente via Internet, e pouco ou nada decorrem da presença física das pessoas envolvidas…
    Talvez a Câmara, que parece estar em maré de aceitar sugestões, conceda na necessidade de exigir cobertura total de sinal da rede de comunicações móveis para todo o concelho do Sabugal.
    paulo leitão batista

  2. José Nunes Martins diz:

    As interrogações que José Escada, presidente da AMCF, aqui nos deixou deve fazer-nos reflectir sobre o presente e o futuro que queremos para os sabugalenses, para todos os que vivem neste extenso território que, para infelicidade nossa, tem dificuldade em fazer bons negócios. Um território com 12.000 residentes e com uma enorme taxa de envelhecimento e uma fraca taxa de natalidade, o Sabugal começa a caminhar para uma situação bastante complicada. E as 30 IPSS ( Lares, Misericórdias, Casas do Povo ) são a marca que estamos a deixar passar para o resto do país. Todos aplaudimos e apoiamos estas instituições, pois como bem escreve José Escada, “a sua importância revela-se ainda mais se consideramos que este sector emprega mais de meio milhar de pessoas. O sector social e solidário é hoje o principal empregador e consequentemente o que mais contribui para a economia do concelho.”
    Está chegado o momento de unir ideias, unir esforços e trabalhar em união e acreditar que o bem interessa a todos e quantos mais se juntarem, maior capacidade de negociar se alcança. Afinal, quer queiram ou não, isto de cuidar dos nossos idosos é um negócio, claro está ligado à chamada ECONOMIA SOCIAL. Mas não deixa de ser um negócio!
    Qual é o concelho que possui 30 “negócios” de Economia Social ?
    A resposta todos sabem que é o Sabugal. Então porque não se associam e criam um GRANDE NEGÓCIO gerador de bem-estar, conforto, bons cuidados de saúde, melhor gestão de despesas alimentares, mais poupanças energéticas, mais oportunidades de actividades lúdicas e culturais…porque, por arrasto, criam-se novas necessidades, novos investidores surgem, novos trabalhos criam empregos, criam riqueza e ganhos para todos.
    Vamos lá acordar Sabugal!

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